Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

domingo, 26 de junho de 2011

Juazeiro do Norte


Foto de 1962
 
Juazeiro é uma árvore típica da região Nordeste do Brasil.
Apesar do nome, Juazeiro do Norte está situada bem ao sul do Estado, a aproximadamente 565 km de Fortaleza, quase na divisa com Pernambuco. O nome Juazeiro do Norte foi escolhido para diferenciar-se da cidade de Juazeiro, na Bahia, às margens do rio São Francisco, na divisa com Pernambuco.
Juazeiro surgiu a partir do desmembramento da cidade do Crato; ao longo do século 20, graças à ação política de Padre Cícero, Juazeiro teve crescimento econômico mais acelerado e hoje sua economia supera a do Crato.

Juazeiro do Norte é a segunda maior cidade do Ceará em capacidade econômica, e a maior do Estado (e uma das maiores do país) em religiosidade.




O topônimo Juazeiro é uma alusão a uma árvore típica da Região Nordeste do Brasil, cujo nome científico é Zizyphus joazeiro. Juazeiro é uma palavra de origem híbrida (tupi e português): "juá" ou "iu-á" (fruto de espinho) e o sufixo "eiro".O município adotou o atual nome em 30 de dezembro de 1943, por meio do decreto estadual n° 1.114.

Juazeiro do Norte era inicialmente um distrito da cidade vizinha Crato, até que o jovem Padre Cícero Romão Batista resolveu se fixar como pároco no lugarejo, até então sem capelão e, portanto, sem os serviços religiosos. Padre Cícero foi um dos responsáveis, tempos depois, pela emancipação e independência da cidade. Por conta do chamado "milagre de Juazeiro" (quando Padre Cícero deu a hóstia sagrada à beata Maria de Araújo, a hóstia se transformou em sangue), a figura do padre assumiu características místicas e passou a ser venerado pelo povo como um santo. Hoje a cidade é a segunda do estado e referência no Nordeste graças ao padre.

Quando ainda era uma vila pertencente ao Crato, Juazeiro chamava-se Tabuleiro Grande
e não passava de um aglomerado de casas de taipa e algumas de tijolos convergindo para uma capela dedicada à Nossa Senhora das Dores. A vila era um mero entreposto e servia de ponto de apoio para aqueles que se dirigiam para o Crato.



1962

1962

Placa no Santuário do Pe Cícero

Rua em Juazeiro - 1957


No natal de 1871, Padre Cícero recebeu o convite para realizar a missa do galo no lugarejo. Era para ser apenas uma celebração, mas em 11 de abril de 1872 o padre retornaria a Tabuleiro Grande acompanhado de alguns familiares para se fixar na vila. Segundo o próprio padre, a decisão decorreu de um sonho, onde viu Jesus Cristo e os doze apóstolos sentados a uma mesa, em seguida uma multidão de peregrinos marcados pela fome e pela dor adentra no local, então Jesus Cristo diz estar decepcionado com a humanidade, mas que está disposto a fazer um último sacrifício para salvar o mundo, então vira-se para o padre e ordena: "E você, Padre Cícero, tome conta deles".


Casinha na beira da estrada - 1962

1962

1962

Com o lema "cada casa uma oficina, cada oficina um oratório", logo que chegou, o sacerdote tratou de mudar os costumes profanos do local e tornar comum a prática dos sacramentos. Inspirado por Padre Ibiapina, Padre Cícero criou as Casas de Caridade, organizações tocadas por beatas e que visavam a levar educação, saúde e auxílio religioso ao povo. As Casas de Caridade se espalharam pelo entorno de Juazeiro, sendo a mais famosa delas situada no Sítio Caldeirão sob o comando do beato José Lourenço
. Inúmeras oficinas foram criadas, com destaque para as de produção de velas, imagens sacras e calçados. O jeito simples e carismático do padre contagiava a população que cada vez mais se entregava à religião e ao trabalho.


1962

Engenho no Sítio São José - 1962

Feira em Juazeiro - 1962

Engenho no Sítio São José - 1962

Desde o início do século XX que a vila de Tabuleiro Grande buscava desvincular-se do Crato. Como argumento principal o fato de que a vila se tornara maior e mais importante que a sede. De fato, Tabuleiro Grande apresentou um crescimento surpreendente, chegando a rivalizar até mesmo com a capital Fortaleza. O movimento em prol da emancipação ganhou força em 1909 com a chegada do Padre Alencar Peixoto e de José Marrocos, juntos fundaram o jornal O Rebate que se tornou o principal difusor do projeto. No mesmo ano, houve uma greve geral da população, causando prejuízos à economia do Crato. Em 1910, foi organizada uma passeata pela emancipação, reunindo aproximadamente quinze mil pessoas. Em 22 de julho de 1911, a emancipação é concedida através da lei n°1.028, o novo município passa a se chamar Joaseiro (uma referência à árvore típica da região), e Padre Cícero é eleito o primeiro prefeito.


Feira em Juazeiro - 1962

Igreja N. S. das Dores

A cidade de Juazeiro do Norte exerce forte influência sobre todo Sul do Ceará, e áreas dos estados de Pernambuco, Piauí, Paraíba, e Rio Grande do Norte, sendo um importante centro de compras e serviços regionais. Todo este desenvolvimento resultou em uma grande integração com os municípios de Crato e Barbalha
, que juntas formam a chamada conurbação Crajubar.



Foto antiga da Praça Padre Cícero 

Vale do Cariri em Juazeiro do Norte - 1962

Vegetação na margem da estrada que vai para Juazeiro do Norte em Caririaçu -1957

Em 9 de junho de 2009, a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará aprovou a criação da Região Metropolitana do Cariri, sendo a lei sancionada pelo Governador Cid Gomes em 29 de junho de 2009. A Região Metropolitana do Cariri é composta por nove municípios: Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Missão Velha, Caririaçu, Farias Brito, Nova Olinda, Santana do Cariri e Jardim.


Saiba mais


Vegetação na margem da estrada que vai para Juazeiro do Norte em Caririaçu -1957

Vendedores de corda em Juazeiro do Norte -1957


O lançamento da pedra fundamental de uma capela em honra de Nossa Senhora das Dores, em 15 de setembro de 1827, no local denominado "Fazenda Taboleiro Grande" (município de Crato) de propriedade do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, marca o início da história do lugar que é hoje a cidade de Juazeiro do Norte.


Conta-se que três frondosos juazeiros existentes em frente à capela, à margem da antiga estrada Missão Velha-Crato, passaram a ser pousada obrigatória de viajantes e tropeiros que viviam em andanças pelos sertões. Com o tempo, começaram a surgir as primeiras moradias e pontos de negócios, tendo início o povoamento. A fundação da cidade, porém, se deve ao Padre Cícero.



Em 1872 chega em “Joazeiro”, Cícero Romão Batista. Oriundo da cidade do Crato, o seminarista da Prainha fez voto de castidade aos doze anos e substituiu o Padre Pedro como capelão da Capela N. S. Das Dores do povoado. O local era um pequeno aglomerado humano com duas pequenas ruas (rua Grande e rua do Brejo), onde habitavam poucas famílias. Entre elas destacavam-se: Macedo, Gonçalves, Sobreira, Landim e Bezerra de Menezes.

Igreja dos Franciscanos - Foto do site www.aju10.com

Igreja Matriz - Foto do site www.aju10.com

 Foto do site www.aju10.com

Uma vez instalado em sua nova residência, Padre Cícero deu início a sua ação evangelizadora e moralizadora. Modificou o costume da população acabando pessoalmente com a bebedeira e a prostituição. Com ele o povoado experimenta os primeiros passos rumo ao desenvolvimento. A história de Juazeiro confunde-se, desde então, com a história do Padre Cícero Romão Batista.

Um fato extraordinário, acontecido pela primeira vez no dia primeiro de março de 1889, transformou a rotina do lugarejo e a vida do Padre Cícero para sempre. Naquela data, ao participar de uma comunhão reparadora, oficiada pelo Padre Cícero, uma beata muito piedosa, chamada Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, ao receber a hóstia consagrada, não pôde degluti-la porque a mesma se transformou em sangue. O fato repetiu dezenas de vezes e o povo acreditou que se tratava de um novo derramamento de sangue de Jesus, sendo, portanto, um milagre, mas tarde aceito também pelo Padre Cícero e outros sacerdotes da redondeza.
A partir de então história de Juazeiro tomou um novo rumo. A notícia espalhou-se rapidamente, e romarias provenientes de todo o Nordeste chegavam dia após dia para ver os panos manchados de sangue bem como receber bênçãos do Padre Cícero. Muitos destes romeiros passaram a compor a população local.
Apesar de ter sido testemunhado por muitas pessoas dignas, dentre eles dezenas de padres da região e ter sido atestado por dois médicos e um farmacêutico como sendo um fato sobrenatural, a igreja nunca considerou o sangramento da hóstia como um milagre. Por conta das decisões de Roma, Padre Cícero injustamente acusado de desobediência e de estimular a crença no pretenso milagre, foi punido pela igreja com a suspensão de suas ordens, ficando proibido de celebrar por muitos anos.

Tem início o comércio religioso, constituindo-se na principal fonte de recursos que financiaram as obras e empreendimentos da cidade.  O processo de crescimento da cidade também revela a capacidade de organização social da época e a integração entre vida social, política e religiosa. A característica de composição da população por pessoas de fora, se traduz na diversidade cultural que Juazeiro conserva até hoje. Em 1909 havia em Juazeiro 15.000 habitantes. Foram construídas igrejas, abrigos para romeiros, ruas, escolas, fábricas e comércios. Todo esse processo de evolução teve a igreja como principal empreendedora, doando terrenos para instituições e vários estabelecimentos.

Memorial Padre Cícero -  Foto do site www.aju10.com

 Memorial Padre Cícero -  Foto do site www.aju10.com

Monumento do Padre Cícero

Na primeira década do século XX, o povoado de Juazeiro já havia alcançado um considerado nível de desenvolvimento, mas continuava pertencente ao município de Crato. Isso começou a incomodar os juazeirenses, surgindo daí o desejo de independência. Um movimento emancipalista iniciado por eminentes cidadãos locais e liderado pelo Padre Cïcero, o médico baiano Dr. Floro Bartolomeu da Costa, o Padre Joaquim de Alencar Peixoto e o Professor José Teles Marrocos, culminou com a vitória em 22 de julho de 1911, quando foi assinada a Lei No. 1.028 que elevou o povoado à categoria de Vila e Sede do Município. No dia 4 de Outubro de 1911, a Vila de Juazeiro foi inaugurada oficialmente e o Padre Cícero foi empossado como seu primeiro Prefeito ou Intendente, como se chamava naquela época.
No dia 23 de julho de 1914, através da Lei No. 1.178, a Vila de Juazeiro foi elevada à categoria de Cidade. Esta data, porém, não é comemorada. Prevalece a data de criação do município.
Juazeiro cresceu rapidamente e teve grande participação na história política do país. Em uma das mais marcantes passagens, um levante sai de Juazeiro para depor o governador empossado pelo presidente Hermes da Fonseca. Os romeiros de Juazeiro tomam as cidades do Crato, Barbalha, Campos Sales, Iguatu, Senador Pompeu e Quixeramobim, e cercam a capital do Estado fazendo o Governo Federal voltar atrás e nomear outro interventor, ficando o Padre Cícero como vice-presidente (vice-governador) do Ceará. Em outro momento (1934), Pe. Cícero solicitou verba para formação de um batalhão de combate à Coluna Prestes.

Museu Vivo do Padre Cícero

Museu Vivo do Padre Cícero

Museu Vivo do Padre Cícero

Museu Vivo do Padre Cícero

Museu Vivo do Padre Cícero

No dia 9 de setembro de 1943, em uma reunião realizada na biblioteca municipal foi adotada a denominação de Juazeiro do Norte. Já neste período grandes obras eram realizadas na cidade, como a construção de hospitais, um matadouro público, o 1º campo de aviação do interior, a Escola Normal, a Capela de N. S. do Socorro, e as estratégias de convivência com a seca.
No dia 20 de julho de 1934, aos 90 anos, morre o Padre Cícero. Todos os seus bens são doados, via testamento do Padre, à ordem Salesiana.
Após a morte de Padre Cícero as romarias se intensificam ainda mais, dinamizando o comércio local. O artesanato, a arte e o folclore têm impulso com a religiosidade. Artesãos, comerciantes, agricultores, músicos, poetas de cordel e pesquisadores cultivam e difundem a figura mística de Pe. Cícero em suas casas, nas ruas, no comércio e na arte, por todo o Brasil.
Juazeiro do Norte cresce a passos largos, tornando-se em pouco tempo a maior cidade do interior cearense.


Praça Padre Cícero - Crédito da foto

Prefeitura Municipal

Rua da Conceição, Centro da cidade

Rua São Francisco -  Crédito da foto

Rua São Pedro - Centro da cidade

Rua São Pedro - Centro da cidade

Túmulo de Pe Cícero na Igreja do Socorro



Créditos - IBGE, Will_NE, Wikipédia, Ache tudo e região 

Estação de Quixadá



Foto de 2005

HISTÓRICO DA LINHA: A linha-tronco, ou linha Sul, da Rede de Viação Cearense surgiu com a linha da Estrada de Ferro de Baturité, aberta em seu primeiro trecho em 1872 a partir de Fortaleza e prolongada nos anos seguintes. Quando a ferrovia estava na atual Acopiara, em 1909, a linha foi juntada com a E. F. de Sobral para se criar a Rede de Viação Cearense, imediatamente arrendada à South American Railway. Em 1915, a RVC passa à administração federal. A linha chega ao seu ponto máximo em 1926, atingindo a cidade do Crato, no sul do Ceará. Em 1957 passa a ser uma das subsidiárias formadoras da RFFSA e em 1975 é absorvida operacionalmente por esta. Em 1996 é arrendada juntamente com a malha ferroviária do Nordeste à Cia. Ferroviária do Nordeste (RFN). Trens de passageiros percorreram a linha Sul supostamente até os anos 1980.

O Presidente Getúlio Vargas e sua comitiva desembarcam na estação de Quixadá, em 1933 (Revista Noite Illustrada, 4/10/1933).

A estação de Quixadá foi inaugurada em 1891. Em 2006 ainda era uma das estações operacionais da CFN, atual concessionária do trecho. 

Parte do prédio da estação de Quixadá aparece na fotografia do pátio, provavelmente anos 1910. A fotografia foi tomada no sentido de Juatama, ao lado da serra do Juá (Cartão postal). 

Hoje em dia é difícil para os trens cargueiros da CFN cruzarem a área urbana da cidade. A foto desta passagem de nível próxima à estação mostra bem a educação (ou falta de) do povo da cidade. A locomotiva está a 100m da estação, vindo de Tapirussu (Autor desconhecido, foto de 2010).

A estação em 11/2009. Foto Roosevelt Reis

Estação (à esquerda) e armazém de Quixadá em 11/2009. Foto Roosevelt Reis

A estação em 2010. Foto Marcelo Queiroz




Fontes: Carlos Alberto Martins da Matta; Marcelo Queiroz; Roosevelt Reis; Noite Illustrada, 1933; Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, 1960; Mapa - acervo R. M. Giesbrecht

terça-feira, 14 de junho de 2011

Camocim


Praça da Estação de Camocim década de 50

Arquivo Camocim Net

Arquivo Camocim Net

1535 - Origens de Ocupação


As terras de Camocim fazem parte das capitanias hereditárias propostas por Dom João III na carta Foral de 11 de março de 1535. A Capitania do Ceará, com 40 léguas e limites de Parnaíba (PI) à Fortaleza (CE), coube a Antônio Cardodo de Barros. Porém, o donatário português não se aventurou a ir a Camocim, muito menos colonizá-la. Antônio Cardoso de Barros só veio ao Brasil em 1549, nomeado como Provedor-Mor da Fazenda.

“O primeiro lote ficou sob responsabilidade de João de Barros e de Aires da Cunha, e ía do Rio Grande do Norte à enseada de Curumicuara no Ceará. Daí em diante começava o lote de Antônio Cardoso de Barros, que ia até o rio Camocim. Do rio Camocim, no Ceará, até o cabo de Todos os Santos, no Maranhão, a capitania pertencia a Fernand’Álvarez de Andrade (onde o litoral do Piauí está inserido) e , por fim, vinha a capitania do Maranhão, segundo lote de João de Barros e Aires da Cunha”. 
(ABREU, 1988, p. 83; POMPEU SOBRINHO, 1980, P.107).

As terras do Ceará ficavam à mercê dos corsários estrangeiros, principalmente franceses, que comercializavam com os índios ervas e outras riquezas naturais da flora como a tatajuba e o pau violeta.


1613 - Ocupação de Camocim na Conquista do Maranhão


A partir de 1610, os colonos portugueses começaram a se estabelecer no litoral do Ceará para proteger a Capitania dos ataques de franceses, holandeses e ingleses.

Em 1613, os portugueses dirigiram-se ao norte com intenção de conquistar o Maranhão. De passagem pelas terras de Camocim, onde tinham intenção de se estabelecer, encontraram seca e miséria, transferindo-se para a localidade de Buraco da Tartaruga, hoje chamada Jericoacoara. A região ficava distante de qualquer ocupação.

A intenção da colonização, era a descoberta de minérios preciosos e a extração de sal. Os canais do Rio Camocim permitiam a navegação em marés altas. Os holandeses estabeleceram-se próximo aos melhores locais para a exploração salineira e com água potável em abundância.

Foi construída, então as Fortificações do Camocim, localizadas na margem esquerda da foz do rio Coreaú, atual Praia das Barreiras.

BARRETTO (1958) informa que uma fortificação neste ancoradouro já havia sido cogitada em 1613 por Jerônimo de Albuquerque Maranhão (1548-1618), no contexto da conquista da Capitania do Maranhão aos franceses, optando por se estabelecer, entretanto, em Jericoacoara.

No contexto da segunda das Invasões holandesas do Brasil (1630-1654), um reduto de campanha neerlandês defendia o Porto do Pote (atual Camocim), remontando, provavelmente, a 1641 quando o governador neerlandês da capitania do Ceará, Gedean Morris, viajou pelo norte da capitania a título de exploração. 

O mesmo autor complementa que, em 1656, o governador da capitania do Maranhão, André Vidal de Negreiros (1606-1680), a quem a Capitania do Ceará se subordinava, ordenou guarnecer o Camocim com vinte e cinco homens e um ajudante, artilhando-o com quatro peças de 6 libras, com a mesma função do Fortim de Jericoacoara: apoiar e proteger as comunicações por terra do Ceará com o Maranhão. Em 1687, nada mais restava da estrutura.

GARRIDO (1940) acredita que o Forte de Camocim tenha sido levantado em 1659 para desaparecer em 1696. 


A chegada do calçamento em Camocim - Crédito da foto: Tadeu Nogueira

1879 - De Povoado a Vila


Fugindo da seca que assolava o sertão, chegaram a Camocim, imigrantes vindos principalmente de Mombaça, de modo que, no final do século XIX, a população da cidade chegava aos 5 mil habitantes. Nesta época, a localidade foi elevada à categoria de Vila, por força da Lei Nº. 1849 de 29 de setembro de 1879, sendo desmembrado do município de Granja.

Arquivo Camocim Net

Arquivo Camocim Net

1881 - Inauguração Estrada de Ferro

A eficiência do porto de Camocim, possibilitando a importação e exportação de mercadorias, até então feita pelo porto de Acaraú, fez surgir a idéia de conectar a cidade, por via férrea, a Sobral. Deste modo, em 15 de janeiro do ano de 1881, foi inaugurado o primeiro trecho da Estrada de Ferro de Sobral Camocim.

O conjunto arquitetônico da Rede Ferroviária no Estado do Ceará em Camocim, reunia terminal, residência do engenheiro, galpões para entrepostos e extenso pátio para manobras. A ferrovia e o porto impulsionaram o desenvolvimento do Município, aquecendo o comércio e atraindo população.

1889 - De Vila a Município


Em 17 de Agosto de 1889, pela Lei Nº. 2162 passou a categoria de cidade.

O topônimo Camocim vem do Tupi Guarani e segundo Silveira Buenocambucy,camucym ou camotim vem do Tupi Guarani e significa buraco para enterrar defuntoou pote(vaso em geral). Há quem considere camotim como a urna funerária dos indígenas, também chamada de igaçaba. Gonçalves Dias traduz igaçaba como louça. É costume os moradores desta cidade serem chamados de coró (peixe abundante na região), assim como os moradores da cidade de Granja são conhecidos como cangati. Sua denominação original era Barra do Camocim e desde 1879, Camocim.

A área na qual Camocim localiza-se é um território de uma rica história de intercambio e conflitos entre povos. Os primeiros habitantes foram os indigenas de várias etnias, tais como os TremembéTabajara, Jurema, Jenipaboaçu Cambida.
Os portugueses chegaram nestas bandas, a partir da segunda metade do Século XVI, com diversos intuítos: um reconhecimento completo da região a partir de Tutóia no Maranhão aos limites finais entre Ceará e Rio Grande do Norte (a barra do rio Camorim, por exemplo foi catografada com o nome de Rio da Cruz); como base de apoio para a ocupação do litoral, bem como base de apoio para confrontos militares com os franceses que ocupavam o Maranhão. Deste momento histórico existem várias cartas topográficas datadas dos séculos XVII. Por exemplo: em 1604, Pero Coelho de Souza, passou nestas bandas com rumo a Ibiapaba e as batalhas no Maranhão.
Depois da segunda metade do século XVII, surge o projeto de construir o Forte em Camocim com a intenção de proteção dos ataques dos índios e do piratas, porém este projeto não foi adiante. A Barra do Camocim como núcleo urbano vai consolida-se com a transferêcia da Missão de Tabainha. Um empreendimento do padre Ascenço Gago, com o intuíto de aldaiar os Tremembé e outra etnias.
A partir de 1792, chegam a Barra do Camocim, famílias oriundas de Tutoia, as quais inplementaram a agricultura e pecuária na região. Em 1868, foi criado o distrito policial e desta forma Camocim consolida-se como núcleo urbano.
E o que vai definitivamente consolidar Camocim como centro urbano e econômico é a construção da Estrada de Ferro de Sobral-Camocim a partir de 1879 e porto.

Praia do Maceió

Pôr do sol na Praia do Maceió

Beira-mar de Camocim


Fonte: http://www.camocim.ce.gov.br/ e Wikipédia

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Primeiro Engenho de ferro da província do Ceará



Em 4 de abril de 2000, o jornal O POVO, publicou uma reportagem sobre as escavações que um grupo de arqueólogos realizava no sítio Alagadiço Novo, berço do romancista José de Alencar, em Messejana - cidade situada a onze quilômetros do centro de Fortaleza. Esse grupo estava ressuscitando as ruínas do primeiro engenho de cana a vapor do Estado, construído em 1836, pelo então Presidente da Província, José Martiniano Pereira de Alencar¹.


Foto publicada no jornal O POVO mostra o engenho de ferro, no término das escavações

"A equipe do Laboratório de Arqueologia do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - coordenada pelo professor da Pós-Graduação em História, Marcos Albuquerque - veio a convite do arquiteto e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ricardo Bezerra. Ele está à frente de um projeto mais amplo que inclui não somente a prospecção arqueológica, mas também a revitalização do Sítio."

Foto do Jornal  O Povo

"As escavações registram um pedaço importante da história do Ceará. O engenho é uma referência do progresso industrial do Estado, diz o professor Marcos Albuquerque. A obra é fruto do espírito empreendedor do pai de José de Alencar². Em 1836, José Martiniano Pereira de Alencar, na época presidente da Província, encomendou o engenho, que foi assentado pelo francês Gagné, sob a direção do engenheiro João Estevão Seraine. O engenho foi construído em terreno por trás da casa onde vivia a família. O menino José de Alencar tinha, então, sete anos. Mas no ano seguinte, José Martiniano transferiu-se para o Rio de Janeiro - onde foi senador."

Foto do Jornal  O Povo

¹José Martiniano de Alencar - pai de José de Alencar 

José Martiniano de Alencar - o futuro Senador Alencar - nasceu no povoado de Barbalha, então pertencente à cidade do Crato, no Ceará, a 16 de outubro de 1794. Foram seus pais o português José Gonçalves dos Santos e a heroína D. Bárbara Pereira de Alencar - a primeira prisioneira política do Brasil -, por sua participação na Revolução Pernambucana de 1817.
Personalidade marcante na política do Segundo Reinado, o Senador Alencar envolveu-se com toda sua família na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador de 1824. Líder do Partido Liberal, foi um dos deportados para a Europa, em companhia dos Andradas, no governo de D. Pedro I e o primeiro senador escolhido pela Regência Permanente de 1831 - 1835. Em sua residência no Rio de Janeiro, na então Rua do Conde, fundou-se, em 15 de abril de 1840, a Sociedade Promotora da Maioridade do Imperador D. Pedro II ou Clube da Maioridade. "Foi ele quem redigiu os respectivos Estatutos e pôs-se à testa da propaganda da ideia, em pouco vencedora". Presidente por duas vezes da Província do Ceará, residia no Rio de Janeiro, quando faleceu, a 15 de março de 1860.
O Senador Alencar era neto materno do capitão Joaquim Pereira de Alencar e D. Teodora Maria Rodrigues de Alencar, que tiveram entre outros, os filhos: D.Bárbara Pereira de Alencar, o Capitão Leonel Pereira de Alencar e D. Ignácia Pereira de Alencar. Entre seus netos, muitos contraíram matrimônio entre si e, seus descendentes tornaram-se figuras de destaque no cenário nacional. Entre esses: Tristão Gonçalves - presidente da Confederação do Equador no Ceará -, seu filho, o Conselheiro Alencar Araripe e seu neto, o crítico literário Araripe Júnior; o romancista José de Alencar, seu filho, o escritor Mário de Alencar e o seu irmão, o Barão de Alencar; o matemático Otto de Alencar; os descendentes da Viscondessa de Jaguaribe: seu filho, o médico e escritor Domingos Jaguaribe Filho, um dos fundadores da Cidade de Campos do Jordão e seu bisneto, o memorialista Pedro Nava; a escritora Rachel de Queiroz; os médicos Meton da Franca Alencar³ e Meton da Franca Alencar Filho*; o Almirante Alexandrino de Alencar e o Presidente da República Humberto de Alencar Castelo Branco, entre outros. Ricos e de largo prestígio social, os Alencar possuíam verdadeiros feudos sertanejos nos rincões do Vale do Cariri, voltados à criação do gado e ao plantio da cana-de-açúcar. Vencida nas revoluções do Nordeste do Brasil, no início do século XIX, a família Alencar foi perseguida politicamente, por suas intenções republicanas, tendo seus bens confiscados. Afastando-se dessas retaliações, o futuro Senador Alencar trouxe sua parentela para a Vila de Messejana - um dos mais salubres arrabaldes de Fortaleza -, e, em suas terras alagadiças, cultivou a cana-de-açúcar transportada do Cariri. Nas imediações da vila, o Senador Alencar fundou o Sítio Alagadiço Novo. "Batidos pelo infortúnio, os Alencares, conduzidos pelo espírito gregário que os animava, reuniam-se no Alagadiço Novo, em busca da sobrevivência. Eram cerca de 45 almas, entre as quais, alegava José Martiniano, a mãe, cunhados, tios, sobrinhos e mais pessoas, que se lhe têm reunido, pela morte de alguns de seus próximos parentes". Com os resultados animadores dessa empresa açucareira, seus primos instalaram, ali, outros sítios de engenho. A partir de então, "Messejana foi o lugar em que mais se fabricou aguardente e açúcar no Ceará."
No Alagadiço Novo, José Martiniano levantou a casa provincial "mais ou menos abastada para o tempo". "Na casinha rústica do Alagadiço Novo, na ensolarada tarde daquele 1º de maio de 1829, nasce o primogênito. No dia 9 é batizado no sítio e recebe o nome de José (o mesmo do pai), dado pelo padre José da Costa Barros, sendo padrinhos os tios João Franklin de Lima e Maria Brasilina de Alencar. Depois, em família, fica conhecido por Cazuza."

²José de Alencar - romancista e escritor

Em seu retiro, o Senador Alencar construiu, defronte à casinha atijolada, quando na Presidência da Província, a casa grande destinada ao alojamento da tropa de milícias.
"Para criar oportunidades para muitos e marcar o início da arrancada para o progresso agro-pastoril, pela lei 46, de 14 de setembro de 1836, providenciou a aquisição de engenhos, arados, modelos de máquinas de serrar, de descaroçar algodão, descascar café, debulhar milho, espremer e peneirar mandioca, de fazer manteiga. Os engenhos, à proporção que chegavam, iam sendo montados nos sítios já fundados e nos que se iam fundando. Neste acelerar, o município chegou a possuir trinta engenhos, sendo dois a vapor".
Quando o Senador Alencar foi residir no Rio de Janeiro, o Sítio Alagadiço Novo, segundo a reportagem do jornal O POVO, ficou sob a administração de um "Antônio da Fonseca Alencar". Desconheço um Fonseca Alencar, entre os nomes da família Alencar daquela época. Se nos registros colhidos, este nome estiver escrito como Antônio da F. Alencar ou mesmo Antônio da Fca. Alencar, este poderá ser o do Major Antônio da Franca Alencar - primo do Senador Alencar e também de sua esposa Ana Josefina - proprietário do Sítio de engenho Visgueiro, nas proximidades do Alagadiço Novo. O major Antônio da Franca Alencar era pai do médico Meton da Franca Alencar, nascido no referido Sítio Visgueiro em 7 de setembro de 1843 e batizado no Sítio Alagadiço Novo, sendo sua mãe, Praxedes da Franca Alencar, prima legítima do marido e também do Senador Alencar.

³Meton da Franca Alencar
Arquivo Vanius Meton Gadelha Vieira
Foto publicada em seu livro "Ideal Clube - História de uma Sociedade: Memórias, Documentos, Evocações"

Meton de Alencar, no quinto ano acadêmico, do curso de Medicina, no Rio de Janeiro, incorporou-se às forças brasileiras, na Guerra do Paraguai. Nos hospitais de sangue improvisados no meio da luta, desenvolveu com maestria suas habilidades cirúrgicas. Ao final da campanha, recebeu as honras militares de 1º cirurgião do Exército (decreto de 18 de fevereiro de 1871), além da patente de Capitão e da Medalha Comemorativa da Campanha. Voltando para o Ceará, integrou-se à clínica, distinguindo-se como cirurgião. Foi quem primeiro ensaiou no país e "quiçá na América do Sul", a primeira transfusão de sangue, sendo também um dos pioneiros na neurocirurgia brasileira. No Ceará, foi abolicionista militante e deputado na Câmara Geral pelo Partido Liberal.
O memorialista Pedro Nava descreve, em sua vasta obra, a personalidade do dr. Meton de Alencar e de sua descendência, principalmente, seu filho Meton de Alencar Filho, o Moço, médico oftalmologista, pioneiro no transplante de córnea no Ceará, em 1926, e também criador de fórmulas medicinais, ainda de largo uso, atualmente, no seu Estado.

*Meton da Franca Alencar Filho, o "Moço"
Arquivo Vanius Meton Gadelha Vieira
Foto publicada em seu livro "Ideal Clube - História de uma Sociedade: Memórias, Documentos, Evocações"

A mãe de Meton de Alencar (o Sênior), Praxedes de Alencar era irmã de Ana Josefina e da Viscondessa de Jaguaribe, sendo a primeira, mãe, entre outros, do escritor José de Alencar e de Leonel Martiniano de Alencar, Barão de Alencar. Leonel ingressou na carreira diplomática em 1854, ocupando numerosos postos na América e na Europa. Escritor de belo estilo, contava entre suas obras com "Somnambula da Itapuca". A Viscondessa de Jaguaribe, Clodes de Alencar, era esposa do Visconde de Jaguaribe, Domingos José Nogueira Jaguaribe, nascido no Ceará, na cidade de Aracati, a 14 de setembro de 1820, e falecido no Rio de Janeiro, a 5 de junho de 1890. Visconde de Jaguaribe, com grandeza (decreto de 11 de junho de 1888), foi "ministro da Guerra do glorioso Gabinete de 7 de março de 1871, ocupando a Pasta de 15 de maio de 1871 a 20 de abril de 1872."
Após sua recuperação, o primeiro engenho de ferro do Ceará passou a ser, ao lado da Casa de José de Alencar, no bucólico Sítio do Alagadiço Novo, em Messejana - histórico reduto da ilustre família Alencar -, um significativo ponto da formação cultural do Ceará.

Casa onde nasceu o escritor José de Alencar, preservada como atração turística