Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.
Mostrando postagens com marcador Estrada de Ferro de Baturité. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estrada de Ferro de Baturité. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de dezembro de 2012

Baturité



Baturité antiga - Vista parcial da cidade - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

Região habitada por diversas etnias como os Potyguara, Jenipapo, Kanyndé, Choró e Quesito, recebeu a partir do século XVII diversas expedições militares e religiosas. Com a expulsão dos holandeses, a coroa portuguesa iniciou o processo de ocupação definitiva das terras cearenses que intensificou-se através da ocupação missionária pelos Jesuítas, a doação de sesmarias, busca de metais preciosos e a implantação da pecuária do Ceará.

Vista parcial da cidade - Foto mais recente que a primeira - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

Em 1755, Baturité, ou melhor, Missão de Nossa Senhora da Palma, surge neste contexto como uma missão tendo como finalidade aldear os índios da região. Em 1759, com a expulsão dos Jesuítas, a missão foi elevada a condição de Vila com o nome de Monte-Mor o Novo d'América. Em 1791, nesta vila foi reunido aos Kanindé, Jenipapo um contingente de índios oriundos de missões em conflitos, como: os Jucá da Vila de S. Mateus, os Paiacu da Vila de Monte-Mor-o-Velho e da Vila de Portalegre.

 Local em frente a Escola Salesiano. Alunos da Escola Salesiano desfilando - Acervo do Historiador Artur Ricardo

Por causa do clima ameno e da água em abundância, Baturité e outros municípios vizinhos serviram de refúgio para populações sertanejas de cidades como Canindé e Quixadá, que ali se abrigaram durante a Seca dos Três Setes (1777 a 1793). Um marco da presença católica no município é o grupo de igrejas, conventos e mosteiros que ainda resistem ao tempo e alguns deles convertidos em hospedarias nos dias atuais.

Pintura da Avenida Proença - Atual Dr. João Paulino - Acervo do Historiador Artur Ricardo


Em 1824, Manoel Felipe Castelo Branco trouxe do Pará para Baturité, mudas de café, fato que trouxe transformações na atividade econômica e vida social local.

Na metade do século XIX, Baturité tinha como principal atividade econômica a cultura do café, chegando na época a deter 2% de toda a produção brasileira. Há relatos de que o café de Baturité era um dos mais apreciados nas cafeterias francesas. Com o crescimento da cultura do café surge a necessidade de uma via mais rápida de escoamento da produção para o Porto de Fortaleza, que era feita através das precárias estradas da época. Neste contexto, em 1870, um grupo de comerciantes lança a proposta de construir a primeira ferrovia no estado, constituindo juridicamente a Estrada de Ferro de Baturité e um porto em Fortaleza. Em 1882, é inaugurada a Estação Ferroviária de Baturité, pela qual o café foi transportado diretamente ao Porto de Fortaleza. Em 1921, com a expansão da estrada de ferro, Baturité recebe mais uma estação ferroviária, mais precisamente no povoado do Açudinho (hoje Alfredo Dutra).


Procissão Religiosa passando pela avenida Proença - Atual Dr. João Paulino - Acervo do Historiador Artur Ricardo

A cultura do café, entre 1870 até a superprodução e a superoferta de 1929, impulsiona a economia e a vida social de Baturité, bem com a modernização da cidade. A partir do início do século XX, Baturité vivenciou fortemente o movimento religioso da Ação Católica, principalmente com o vigário local Monsenhor Manoel Cândido e seu pupilo Ananias Arruda. Desse movimento católico surgiram vários prédios religiosos na cidade como: 

  • O Colégio Nossa Senhora Auxiliadora (1934)
  • Colégio Salesiano Domingos Sávio (1932);
  • Círculo Operário Católico de Baturité (1924);



 Avenida 7 de Setembro - Acervo do Historiador Artur Ricardo

  • A Escola Apostólica dos Jesuítas (1927)
  • 1882 - Inaugurada a Estação de Baturité da Estrada de Ferro de Baturité (marco no desenvolvimento da cidade);
  • A Central de Abastecimento de Água de Baturité pela firma Catão e Pinto - realização do Major Pedro Catão e do Cel. José Pinto do Carmo (30 de março de 1917);
  • O serviço de luz elétrica de Baturité (2 de junho de 1918), realização de Horácio Dutra. Em 1921 esta empresa foi transferida para o Cel. José Pinto do Carmo;
  • Em 1896 nasceu o Major Antônio Couto Pereira que, ainda jovem, foi morar com alguns familiares em Curitiba e em 1916 filiou-se ao Clube de Futebol Coritiba. Em 1926 foi presidente do clube pela primeira vez. O nome do estádio do time é em homenagem ao ilustre Antônio Couto Pereira. Ele é tio-avô do técnico em edificações e historiador cearense Gustavo Braga.

Praça Waldemar Falcão - Acervo do Historiador Artur Ricardo


O topônimo Baturité apresenta várias hipóteses etimológicas:


  • Para Paulino Nogueira, este vem do decomposto do Tupi BU (sair, rebentar, sair da fonte), TY (água) e ETE (boa) e significa sair água boa, uma alusão às inúmeras fontes de água cristalina que jorram da serra; ou uma corrutela do IBI (terra), TIRA (alta), ETÉ e significa serra;



  • Para José de Alencar, este vem de Baturieté (narceja: uma ave ilustre), que composta por Batuira e Eté, nome que honra o chefe Potyguara e na linguagem figurada significa valente nadador;



  • Para Von Martius vem da corrutela de Epo (por ventura) e ITA-ETË (aço) que significa certo aço;



Local onde seria construído a Escola Apostólica dos Jesuítas  - Acervo do Historiador Artur Ricardo


  • Para Pedro Catão, vem de Batu (monte serra) e Ete (desinência superlativa) e significa verdadeira serra, serra por excelência;



  • Antônio Martins Filho e Raimundo Girão diferenciam-se da versão de Paulino Nogueira apenas nos termos Tira, que seria Itira ou Atira (o monte, o monte), pois na análise fonética YBY, Y representa-se por I ou U, o que resultou para os portugueses IBI ou UBU e de ATYRA resultou ATURA. Compondo ficou IBATURA, BATURA com a queda da vogal inicial átona, fenômeno muito comum na acomodação portuguesa do Tupi. Desta forma BATURA (montão, monte de terra ou serra) e os índios juntaram o sufixo ETÉ (principal, a verdadeira ou real) e ficou BATUETÉ (serra verdadeira ou real). Para estes, a expressão Serra de Baturité é pleonástica, pois Baturité já significa serra.

  
Construção da Escola Apostólica dos Jesuítas  - Acervo do Historiador Artur Ricardo

Suas denominações originais eram Aldeias das Missões, Missão de Nossa Senhora da Palma, Palmas, depois Vila Real Monte-Mor o Novo da América e, desde 1858, Baturité.

Escola Apostólica dos Jesuítas - Acervo do Historiador Artur Ricardo

A cidade possui um clima bastante peculiar para esta região do Brasil. As máximas podem ultrapassar os 35°, chegando aos 37° nos dias mais quentes ou não passando de 30° em dias com muita nebulosidade. No entanto, o que faz a diferença são as mínimas, que podem chegar aos 18° nos meses mais frios (entre junho e agosto), sendo que a média mínima registrada nesse período é de 22°. A variação climática também é bastante expressiva, podendo ocorrer variações de 15° entre o período da manhã e da noite.

Rua 15 de Novembro - Baturité - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

A pluviometria média é de 1.088 mm com chuvas concentradas geralmente no final do ano (em dezembro) e duram até março sendo que neste último mês são registradas as maiores precipitações chegando a ocorrer tempestades com ventos fortes e raios. Porém, como em toda a Região Nordeste, as chuvas também são irregulares podendo ocasionar seca e racionamento de água, como o registrado entre os anos de 1998 e 1999 quando o principal reservatório de abastecimento da cidade, a Barragem Tijuquinha, chegou ao nível zero.

Curso de Esperanto de Baturité - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

Relevo e solos

Localizado no Maciço de Baturité, tem relevo na sua grande parte montanhoso formado de maciços residuais e depressões sertanejas, tendo como a maior elevação localizado na serrota de São Francisco, cerca de 874 metros acima do nível do mar.

Recursos hídricos

O rio Putiú e rio Aracoiaba, juntamente com a Barragem Tijuquinha, são as maiores fontes de recursos hídricos para o abastecimento de água para o município. 
Os riachos como: das Lajes, do Padre, da Panta, da Pedra Aguda, Mucunã, Nilo, Pilar, Salgado, Santa Clara, Sinimbu, Supriano, completam os recursos hídricos deste município e juntamente com o rio Putiú,desaguam suas águas no rio Aracoiaba.

Vegetação

Caatinga arbustiva densa, floresta subcaducifólia tropical, floresta úmida semi-perenofólia, floresta úmida semi-caducifólia, floresta caducifólia e Mata Ciliar. Aqui existe uma APA (Área de Proteção Ambiental).


Vista da casa grande do sítio Bela Vista dos Maciéis, hoje o local deste sítio
        é Aratuba - 1908 - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

Economia

Atualmente a economia de Baturité baseia-se principalmente na exploração do setor terciário da economia (comércio e prestação de serviços), na extração vegetal e em culturas de algodão, banana, arroz, milho, feijão, café e cana-de-açúcar, porém, assim como na maioria dos municípios cearenses (com exceção do café), esta ainda é feita com técnicas agrícolas rudimentares fazendo com que o solo empobreça e a produção seja insignificante em termos nacionais. Ainda assim, Baturité se destaca na sua região sendo um importante centro consumidor e abrigando sede de muitas empresas regionais. Com um comércio forte, base da economia do município, a cidade vem conseguindo muitos avanços na qualidade de vida da população e na modernização da cidade.
Ainda é importante destacar o cultivo do café, que embora tenha diminuído muito após a crise de 29 e outras crises na economia brasileira, vem crescendo, atualmente, utilizando-se a técnica do cultivo sombreado e 100% orgânico. Esse tipo de cultivo fez com que o café baturiteense ganhasse destaque nacional e internacionalmente por ser um produto de alta qualidade e saudável.


Sobrado dos Maciéis localizado próximo a Praça Santa Luzia, no centro.

Turismo

Outra fonte de renda do município é o turismo, com um grande potencial, mais que ainda precisa ser melhor explorado. Baturité possui uma APA (Área de Proteção Ambiental) nos remanescentes de Mata Atlântica existente no município, trilhas, cachoeiras, áreas propícias para prática de esportes de aventura e um grande acervo cultural espalhado por toda a cidade como museus, monumentos e edificações centenárias. 


Antiga estação de Baturité - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

Antiga estação de Baturité - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel
  

Dentre esses podemos destacar:



  • Igreja Matriz;
  • Prédio da Cultura (hoje a sede da Sec. de Saúde);
  • Pelourinho (marco da fundação da cidade);
  • Palácio Entre Rios (antiga cadeia municipal e hoje sede da Prefeitura);
  • Museu Comendador Ananias Arruda;
  • Estrada de Ferro juntamente com a Estação Ferroviária (onde expõe obras de Olavo Dutra Alencar);
  • Via Sacra Pública de Baturité (com 365 degraus);
  • Imagem de Nossa Senhora de Fátima (exposta no alto do Morro da Via Sacra, a maior Imagem da Santa no mundo);
  • Igreja de Santa Luzia (inaugurada em 1879);
  • Antiga Escola Apostólica dos Jesuíta (atualmente conhecida como Mosteiro dos Jesuítas, funciona como casa de retiros, encontros religiosos, congressos, hospedagem e descanso. O prédio lembra um castelo medieval);
  • Mirante do Cruzeiro (magnífica obra de uma Cruz com 25m de altura sobre uma montanha. Monumento recém inaugurado).

Parador dos Jesuitas - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

Estação de Ferro de Baturité - Arquivo Pessoal de Clóvis Acário Maciel

Cultura

Um dos principais eventos culturais da cidade são as Festas de Nossa Senhora da Palma, padroeira do município, que se realiza a partir do dia 15 de agosto e a Festa de Santa Luzia que se realiza a partir de 13 de dezembro. A feira livre, sempre realizada aos sábados, também já é um marco cultural na cidade e reúne feirantes da cidade e de regiões vizinhas. Espalhados pela cidade, principalmente pela região central, encontram-se casarões em estilo colonial construídos em meados do século XIX, época da fartura do café, alguns poucos tombados. Estátuas e bustos de baturiteenses notórios, como Ananias Arruda e Valdemar Falcão, estão expostos em praças que levam seus nomes. A influência da igreja católica na cultura da cidade é bastante expressiva. O monumento erguido à Nossa Senhora de Fátima, trazido de Portugal, pode ser visto de praticamente toda a cidade e muitos se aventuram em chegar lá vencendo seu acesso que possui 365 degraus. A bi-centenária igreja de Nossa Senhora da Palma, construída em 1762 no estilo bizantino com predominação no Barroco, é a única nesse estilo no Brasil e já serviu como depósito de pólvora na época da Confederação do Equador. No entanto, denota-se atualmente, a destruição progressiva de vários casarões e até monumentos históricos para ceder lugar a prédios comerciais. Não existem políticas de conscientização ou para restringir a degradação do patrimônio histórico de Baturité, que findará em breve.


Março/2005 época chuvosa. Nota-se vegetação verdejante e céu nublado. Acervo de Anderdavid

Outubro/2005 época de seca. A vegetação torna-se marrom, o clima quente e seco e o céu com poucas nuvens. Acervo de Anderdavid



Crédito: Wikipédia, Clóvis Acário Maciel e Artur Ricardo/Ana Margarida Furtado Arruda

domingo, 16 de setembro de 2012

Último "Presidente" do Estado do Ceará durante a República Velha (1889-1930) - Dr. Matos Peixoto


Dr. José Carlos de Matos Peixoto - Foto do Arquivo Nirez

Em uma quarta-feira, 12 de março de 1884, nasceu em Iguatú (antiga Telha), no Ceará, José Carlos de Matos Peixoto, filho do advogado provisionado Miguel da Silva Peixoto e da professora (particular) Isabel de Matos Peixoto. Viveu a sua primeira infância na cidade vizinha de Icó, aprendendo a ler, contar e escrever, em casa, com sua mãe. Ainda ali, cursou o primário.
Transferiu-se para Fortaleza, iniciou e concluiu o curso secundário no afamado Ginásio Cearense, do professor Anacleto Queiroz, a quem acompanhou, como docente, em sua viagem a Manaus, quando aquele educador, a convite de Constantino Neri, presidente do Amazonas, foi fundar naquela capital o Instituto Amazonense.
Em 1904, voltou ao ceará, fixando-se em Fortaleza, onde durante alguns anos, ensinou no Instituto de Humanidades, do professor Joaquim Nogueira. Por essa época, matricula-se na Faculdade de Direito do Ceará, sob a direção do Dr. Antonio Pinto Nogueira Acioli, Bacharelando-se em 8 de dezembro de 1909.
Apesar de ser aluno muito esforçado, ainda encontrava tempo para trabalhar como censor de sua antiga escola, o Ginásio Cearense. Advogado recém-formado lecionou, a partir de 1911, Português no instituto de Humanidades; Latim e Português, no Colégio Nossa Senhora do Carmo. Em 1914, foi nomeado catedrático de direito civil da Faculdade de Direito Ceará.
Em 1924, estreou nas letras, publicando A reforma da Constituição Cearense.
Poliglota, exímio latinista, ganhou notoriedade jurídica como advogado civilista e constitucionalista. Dentre seus clientes, merecem menção a South American Company Limited, com sede em Londres e arrendatário da Estrada de Ferro de baturité, e The Ceará Tramway Light and Power, Company Limited.
Esta experiência lhe forneceu subsídio suficiente para, em 1926, publicar o seu segundo trabalho jurídico: A natureza do Contrato de Fornecimento de Energia Elétrica.
O Dr. José Carlos de Matos Peixoto foi eleito membro da Academia Cearense de Letras, ocupante da cadeira número 10, que tem como patrono o filósofo Raimundo de Farias Brito.
Convidado a compor a equipe de trabalho do sobralense Desembargador Presidente do Ceará José Moreira da Rocha, tomou posse da secretaria de interior e justiça em 12 de junho de 1924. Ao secretário José Carlos de Matos Peixoto o povo cearense deve, dentre outra ações:


a)
A nova reforma da Constituição do Estado do Ceará, promulgada em 24 de setembro de 1925, na qual ficou consagrada, numa primazia do Ceará, a instituição do voto secreto no Brasil;
b)
A execução da lei que determinava a escolha dos prefeitos municipais por meio do voto popular;
c)
A instalação do Conselho Penitenciário;
d)
A reforma na Organização Judiciária; e
e)
A melhoria das Colônias Correcionais Agrícolas.

Em 15 de novembro de 1926, assumiu a Presidência da República, o fluminense ex-presidente do Estado de São Paulo (1920-1924), Washington Luis Pereira de Sousa, em viagem pelo país, visitou o Ceará, desentendendo-se com o presidente estadual, Matos Peixoto a propósito de sua intenção de adotar o modelo político de seu antecessor, Artur da Silva Bernardes (1922-1926), com tendência oligárquica, cerceando a liberdade de imprensa e a negativa de anistia aos revolucionários tenentistas exilados.
Acometido de grave enfermidade, o presidente desembargador José Moreira da Rocha transferiu a presidência do estado ao Presidente da Assembléia, Eduardo Henrique Girão, em 19 de maio de 1928. Ato continuo, todo o secretariado entregou o cargo. José Carlos de Matos Peixoto aproveitou, então, para dedicar-se à sua candidatura a presidência do estado.
Eleito Presidente do Ceará, pelo acordo de todos os partidos, o Dr. Matos Peixoto assumiu o cargo, juntamente com seu vice-presidente Demóstenes Alves de Carvalho, em 12 de julho de 1928, um mês e vinte e quatro dias depois de haver deixado a Secretaria de Interior e Justiça do Estado.
O Presidente Matos Peixoto iniciou a sua administração enfrentando as agruras de uma seca parcial que resultou na imigração de 4.128 cearenses pelo Porto de Fortaleza. Em 15 de novembro de 1928 promoveu as eleições municipais do seu estado, cercado das mais eficientes garantias, o direito do voto.
Atento a repressão ao banditismo, sancionou a lei nº 2.673, de 23 de julho de 1928, criando a Secretaria de Polícia e Segurança Pública, melhorando o nível da policia militar, através da cooperação de instrutores do exército, e transformando a guarda civil em guarda cívica, dando aos seus membros o mesmo aperfeiçoamento adotado na policia militar, fazendo-o, porém, com instrutores civis graduados em direito e em medicina.
Em 1929, o caos. Em consequência de uma crise internacional remanescente da I Guerra Mundial, a Bolsa de Nova York quebrou. Os capitais privados aplicados no Brasil, principalmente em indústrias têxteis e oleaginosas, voltaram a seus países de origem. O algodão, a mamona, a oiticica e a cera de carnaúba, sustentáculo da economia cearense, deixaram de ser vendidas no exterior. Imediatamente, o presidente Matos Peixoto encaminhou a Assembléia Legislativa projeto de lei que, votado e aprovado em regime de urgência, resultou na Lei nº 2.722, de 4 de outubro de 1929, criando a Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas e instituindo um fundo especial que permitiu ao Governador concretizar diversas iniciativas úteis ao progresso do Ceará, tais como vários campos de cooperação de algodão e a fazenda de sementes no município de Quixadá.
O presidente Matos Peixoto não se descuidou da saúde pública dos cearenses, construiu e instalou o Abrigo Hospital Demóstenes de Carvalho, destinado ao atendimento aos menores carentes. Em convênio com os municípios, edificou e equipou vários postos de saúde. Em colaboração com Padre Cícero Romão Batista, dotou Juazeiro do Norte de uma enfermaria. Criou o serviço itinerante ferroviário contra a Bouba, em convênio com a Rede Viação Cearense, e o serviço de socorro aos banhistas. Reformou e ampliou o Leprosário Canafístula.
O ensino primário recebeu o incremento de cem novas escolas. E a assistência medica - escolar foi ampliada com o atendimento odontológico.
Em 22 de julho de 1929, faleceu o vice-presidente Demóstenes Alves de Carvalho, havendo sido substituído pelo professor Benedito Augusto Carvalho dos Santos.
Aproximava-se o termino do mandato de Washington Luis Pereira de Souza na Presidência da República. Como forma conciliatória, ele, que era fluminense, de Macaé, apontou para sucedê-lo o paulista Dr. Júlio Prestes de Albuquerque, deputado estadual em 1909, federal em 1924 e presidente do Estado de São Paulo desde 1927, e como vice Vital Henrique Baptista Soares. Os seus opositores, o partido Libertador do Rio Grande do Sul, o partido Democrático de São Paulo, a Parahíba do Norte e tenentistas revolucionários, insatisfeitos com a oligarquia nos estados e a hegemonia dos chefes políticos paulistas e mineiros, reunidos no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, se coligaram, formando a aliança liberal e lançaram a candidatura do gaúcho Dr. Getulio Dornelles Vargas (presidente do Rio Grande do Sul e ex-ministro de Washington Luis), à presidência da república, e do parahibano Dr. João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque presidente da Parahíba), a vice-presidência. Esta decisão oposicionista foi tornada pública em memorável comício na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1929, quando Getúlio, depois de pedir o voto secreto e a direção das mesas eleitorais pela justiça togada, leu a sua plataforma:
1) anistia; 2) amparo irrestrito ao trabalhador; 3) esquecimento de ódio e prevenções.
Contrariamente a serenidade de Getúlio, a ala revolucionária de seu grupo se mostrava disposta a ir as ultimas consequências diante de uma eleição de resultados previamente conhecidos. Foi durante um desses embates acalorados entre parlamentares de facções contrarias que tombou sem vida o deputado Sousa Filho, da bancada pernambucana favorável a vitória do Dr. Júlio Prestes.
Um mês depois, chegou a Fortaleza a primeira caravana da aliança liberal, liderada pelo deputado Augusto de Lima, acolitado por Bruno Lobo, Agripino Nazaré, Alcides Carneiro e outros. Houve repressão policial. Doze dias mais tarde, uma nova comitiva liberal aportou em Fortaleza: Batista Luzardo, Paulo Duarte, Gustavo Capanema e Raul Bittencourt. Foi armado palanque não mais na Praça do Ferreira, como na vez anterior, mas no jardim residencial do professor Morais Correia, na Praça Fernandes Vieira, obstaculando a ação policial. No dia seguinte, os caravaneiros se dirigiram ao Cariri, onde demoraram até o dia 21, quando regressaram a Fortaleza, em direção ao Maranhão.
Em março de 1930, Júlio Prestes foi eleito Presidente da república.
A aliança liberal não se conformou com resultado eleitoral. Em silencio, foi tramada a revanche.
Em 26 de julho do mesmo ano, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Presidente da Parahíba do Norte, foi assassinado em Recife, Pernambuco, pelo Dr. João Dantas, acentuando-se, ainda mais o repúdio ao governo central.
Após 6 meses de confabulações e planos de ação esquematizadas para todo o país, com previsão de supostas reações em cada estado, às 17:30 de uma sexta-feira, 3 de outubro de 1930, foi deflagrada a revolução, com assaltos as unidades militares por grupos armados, altamente treinados para este fim, liderados por homens de escol e determinados ao sacrifício da própria vida pela realização de seus ideais. Em alguns estados, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba do Norte e Pernambuco, houve embates demorados com a perda de oficiais superiores; em outros, como Paraná, Pará, Maranhão, Piauhí e Ceará, os governantes aderiam aos revoltosos ou abandonaram seus postos.
Em 8 de outubro de1930, o presidente Matos Peixoto abandonou a presidência do Ceará, refugiando-se no navio Itanagé. O povo aclamou seu substituto o Dr. Manuel do Nascimento Fernandes Távora.
Às 17:00 do dia 24 de outubro, o presidente Washington Luis, acompanhado do cardeal Dom Sebastião Leme, desceu as escadas do Palácio do Catete (sede do governo central), seguindo ambos de automóvel para o Forte de Copacabana.
No mesmo dia, uma junta governativa constituída pelo general Augusto Tasso Fragoso, general João de Deus Mena Barreto e almirante Isaias de Noronha, assumiu os destinos do Brasil, enquanto o Dr. Getúlio Vargas se deslocava para o Rio de Janeiro.
Em 3 de novembro, o Dr. Getulio Dornelles Vargas tomou posse como chefe do governo provisório: “assumo, provisoriamente, o Governo da República como delegado da Revolução, em nome de Exército, da Marinha e do povo brasileiro”, disse.
No Distrito Federal, ex-presidente Matos Peixoto foi aprovado em concurso público para a cátedra de Direito Romano da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Concomitantemente, ensinava a mesma disciplina na escola de Direito de Niterói. A Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil deu a ele o titulo de “Professor Emérito”.
Foi eleito Deputado Federal. Aproveitando o ramo tempo ocioso, escreveu: Posse e Direitos Pessoais e Recurso Extraordinários (1935), Corpus e Animus na Posse, em direito Romano (1938), Aval e outorga Uxória (1939), A técnica Jurídica de Teixeira de Freitas (1941), Curso de Direito Romano (1943), Progresso Legislativo Pátrio: Aula de Sapiência (1953) e Em defesa de Clovis Bevilacqua (1959).
Dr. Matos Peixoto veio a falecer em 25 de janeiro de 1976 no Rio de Janeiro.



Matéria – Santana Júnior 



BIBLIOGRAFIA

ARAGÃO, R. Batista, Historia do ceará: síntese Didática. Vol. I Fortaleza: imprensa oficial do Ceará,1987.
BARROSO, José Parsifal, Uma história da política do Ceará (1889-1954). Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil S.A, 1984.
Estado do Ceará, terra cearense, Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará, 1925.
GIRÃO, Raimundo, Pequena historia do ceará, Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971.
PINTO, Luis, Synthese histórica da Parahyba(1501-1938). João Pessoa, imprensa oficial da Paraíba, 1938.
TÁVORA, Juarez (Marechal). Uma vida e muitas lutas: Memórias-1- de planície a borda do altiplano vol. I. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do exercito- editora e livraria José Olympio Editora, 1973.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Estrada de Ferro de Baturité - Estações de Mondubim, Maracanaú e Pacatuba



A Estrada de ferro de Baturité foi a primeira ferrovia do Ceará. Iniciou a operação ferroviária em 1873 com o primeiro trecho de pouco mais de 7km entre a Estação Central, em Fortaleza e a localidade de Parangaba. Funcionou com esse nome até 1909.



A EFB foi fruto da sociedade surgida no dia 5 de março de 1870, entre o Senador Tomás Pompeu de Sousa Brasil, Gonçalo Batista Vieira (Barão de Aquiraz), Joaquim da Cunha Freire (Barão de Ibiapaba), o negociante inglês Henrique Brocklehurst e o engenheiro civil José Pompeu de Albuquerque Cavalcante.

O objetivo era o escoamento da produção serrana em Pacatuba e Maranguape para o porto de Fortaleza. Após a assinatura do contrato de construção da ferrovia entre a Companhia e o Governo Provincial do Ceará o projeto passou a ter como ponto final à cidade de Baturité, produtora de café.




A estação central, atualmente Estação Professor João Felipe foi eregida ao lado do antigo Cemitério de São Casimiro. O função de cemitério foi transferido para o Cemitério São João Batista e sob esse foi construído o escritório central e as oficinas.



Os trilhos do primeiro trecho, de 7,20 km, começaram a ser assentados em 1 de julho de 1873, sendo entregue ao tráfego em 14 de setembro de 1873. Apesar de a inauguração deste trecho só ter ocorrido em 29 de novembro do mesmo ano e a estação central foi inaugurada no dia seguinte, 30 de novembro. As estações de Mondubim e Maracanaú foram inauguradas em 14 de janeiro de 1875 e a de Pacatuba em 9 de janeiro de 1876. A situação financeira da companhia ficou ruim durante a seca entre 1877 e 1879 e as obras foram paralisadas. O Governo Imperial, através do Decreto no 6.918, de 1 de junho de 1878, assumindo a parte construída da ferrovia e os direitos da Companhia de prolongar os caminhos de ferro até o município de Baturité. Em 1910 a Estrada de Ferro de Baturité foi somada a Estrada de Ferro de Sobral criando a Rede de Viação Cearense.  


Escritório EFB

Escritório da EFB

A estação de Mondubim


A estação de Mondubim em foto publicada em 1908; à esquerda, tijolos aguardando embarque.


A estação de Mondubim foi aberta em 1875. "Ao seu lado havia uma lagoa onde os índios caçavam e pescavam. Com a chegada da ferrovia de Baturité, inicia-se o bairro do mesmo nome e alavanca-se seu desenvolvimento. Rico em olarias, de lá saíam excelentes tijolos brancos, usados na construção da própria estação" (Ney Robinson Rios Frota, 19/5/2009).


A estação em 1980

Esse prédio foi demolido em 1980 (é difícil justificar a demolição de um prédio centenário...). Uma nova estação foi construída. Serviu também como estação de trens metropolitanos até sua nova demolição em 15 de março de 2009 para as obras do metrô de Fortaleza. Os trens agora passam ali direto sem parar.


O último trem do METROFOR que parou em Mondubim, em 14/3/2009. No dia seguinte iniciou-se a demolição dessa estação com apenas 9 anos de idade, visando as obras do futuro metrô de Fortaleza (Foto Ney R. R. Frota).

A nova estação em março de 2009. À sua frente, à direita, ainda estão os escombros da antiga demolida 29 anos antes.


A Estação de Maracanaú

EFB - Maracanaú

A estação de Maracanaú foi aberta em 1875. Dali saía o ramal para Maranguape, extinto em 1964.

Foto de 1950


A estação de Maracanaú, sem data.


A estação anterior (provavelmente não era a original) foi demolida em 1984. Atualmente a estação serve como estação de trens metropolitanos.



A estação antiga e a nova, talvez em 1984



A estação antiga de Maracanaú ainda de pé e a nova, em frente. Foto provavelmente de 1984. Acervo Câmara Municipal



A estação atual, talvez 1984. A antiga ainda está de pé em frente a ela.



Demolição da estação em 1984

Estação de Pacatuba

A cidade de Pacatuba remonta ao século XVII. O povoado ali formado, no entanto, somente em 1842 foi elevado a sede de distrito. Em 1869 passa a município. "Fato auspicioso para a vida local, evidentemente, ocorreu em 1876, quando, a 9 de janeiro, foi inaugurada a estação da estrada de ferro destinada a unir a zona sul do Estado à Capital" (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XVI, IBGE, 1959). A estação está de pé em 2010 e funciona como cartório. Segundo Rafael Almeida, há no fundo outra estação construída que funcionou ate meados de 2002.


A estação de Pacatuba, vendo-se de sua plataforma a entrada da linha praticamente no meio da mata. A casinha branca ao fundo será a estação citada pelo autor da fotografia como sendo uma outra que funcionou até 2002

A estação em 2010, já desativada há anos. Do lado esquerdo, a Serra de Pacatuba.


x_3b9d281d





Créditos: Livro Vistas do Ceará - 1908, Wikipédia e o site: http://www.estacoesferroviarias.com.br