Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Plácido de Carvalho



Plácido Barbosa de Carvalho, nascido, a 17/01/1873, em Canindé, era filho de Bernardino Plácido de Carvalho e de Alexandrina Barbosa Cordeiro de Carvalho.

Do português Bernardino Plácido de Carvalho se soube, através do depoimento oral de Hélio Pinto Vieira, que era 1º. secretário da “Be
neficência Portuguesa Dous de Fevereiro” em 1872. Dele também se tem notícia que era sócio, em 1880, da firma “Plácido de Carvalho &
Cia.
”, proprietária da fábrica de cigarros “São Sebastião”, localizada na Rua da Palma (atual Rua Major Facundo), bem como de que era proprietário da loja de tecidos "Rocambole”, situada na Rua Formosa (atual Rua Barão do Rio Branco).


Já de Alexandrina Barbosa Cordeiro de Carvalho se sabe que era descendente de tradicional clã de Canindé. Plácido de Carvalho, que iniciara a vida profissional como caixeiro da firma “Barroso, Pinto & Cia.” constitui, em 13/02/1899, a firma individual “Plácido de Carvalho”, que será proprietária de uma loja de modas, situada na Rua Floriano Peixoto, no então nº 47.

Segundo propaganda, publicada no Almanaque do Ceará de 1905, a “Casa Plácido”, que se situa na Rua Major Facundo (no então nº 94), com entrada também pela Rua Formosa (na época, no nº 91), era, em 1904, um “Importante estabelecimento de fazendas, modas, novidades e artigos de alta fantasia”, bem como era especializada “em enxovais completos para batizados e casamentos”, sendo tudo, que nela era vendido, importado diretamente. Ali também é anunciado que os artigos para homens, senhoras e crianças, comercializados na “Casa Plácido”, eram recebidos diretamente do “Chic Parisiense e Fluminense”.



Na mesma propaganda, a “Casa Plácido” torna público que também vende artigos de uso doméstico: “da mais rica a mais modesta mobília, lavatórios, camas para casais, para solteiros e para crianças, tapetes para salas e entradas, esteiras, capachos, espelhos, jarros, cortinados para camas e portas, e cuspideiras”, assim como “bicicletas e tricycles para crianças e mais artigos concernentes ao gênero”.

Em 05/10/1914, é inaugurada a “Fábrica Nacional de Mosaicos e Telhas”pela firma Carvalho & Silva, pertencente a Plácido de Carvalho e Luiz Gonzaga Flávio da Silva. Esse estabelecimento industrial, situado na Rua Vinte e Quatro de Maio, permaneceria como propriedade dessa firma até 1922, quando passa a pertencer exclusivamente a Plácido de Carvalho, como se pode verificar no Almanaque do Ceará daquele ano.

Luiz Gonzaga Flávio da Silva, o outro proprietário do supracitado empreendimento, tornar-se-ia sócio do pai, o construtor Rodolpho Ferreira da Silva, numa nova fábrica de mosaicos a partir de 1926.

Em 1915, Plácido de Carvalho dá início a construção de imponente prédio, de quatro andares, na Praça do Ferreira (lado da Rua Major Facundo). Quando da construção desse prédio, ele é procurado por Luiz Severiano Ribeiro, que lhe propõe o arrendamento da sua parte térrea, onde pretendia instalar um cinema. Em 02/09/1917, era inaugurado o “Cine Theatro Majestic-Palace”, pertencente a firma “Ribeiro & Cia.”, nascida de uma sociedade de Luiz Severiano Ribeiro com Alfredo Salgado, em 1913.

Em 1920, a “Ribeiro & Cia.” arrendaria também os três andares superiores do supracitado prédio e instalaria um hotel denominado de “Majestic-Palace”. Esse hotel, que permaneceria em atividade até 1926, pertenceria a “Ribeiro & Cia.” até 1921, e, após a extinção dessa firma, nesse ano, continuaria a pertencer a firma individual “Luiz Severiano Ribeiro” até seu fechamento.

É oportuno lembrar que a “Ribeiro & Cia.” também instalou salões de bilhar, nesse referido prédio, a partir de 1917, como já fizera, em 1916, no “Cine Riche”.


A parceria de Plácido de Carvalho com Luiz Severiano Ribeiro, que teve início com o arrendamento do prédio do “Majestic” pelo segundo empresário, iria se repetir por duas vezes mais: quando ele constrói o prédio do “Cine Moderno”, também localizado na Praça do Ferreira, e o aluga para Ribeiro, que inaugura o seu cinema, ali instalado, em 07/09/1921, e, quando adquire, por volta de 1933, o prédio do “Cine Luz”, localizado na Praça da Estação e pertencente a “Empresa Cine Luz Ltda.”, e o arrenda para Luiz Severiano, que o reinaugura em 27/06/1933. 


O Cine Luz surgiu em 28 de março de 1931, na Rua General Sampaio 526, esquina com Castro e Silva, na Praça Castro Carreira (da Estação) numa dependência da antiga Fábrica Proença, com o filme “A dama escarlate”, da Columbia Pictures. Pertencia a Bernardino Proença Filho e José Bezerra da Silva. A Foto é de janeiro de 1943, quando estava em cartaz - 'Blackout - Nas Sombras da Noite' (Contraband - Blackout), produção inglesa, de 1940, dirigida por Michael Powell, com Valerie Hobson e Conrad Veidt. O filme foi lançado no circuito Ribeiro no dia 3 de janeiro de 1943. 

Durante a primeira Guerra Mundial, Plácido de Carvalho se casa, em Paris, com Maria Pierina Rossi, nascida em Milão (Itália), em 11/01/1889. Dessa união, não nasceriam descendentes.


Com a chegada de Pierina, ao Ceará, em 1917, o casal passou a residir na Rua Princesa Isabel. Somente em 1920, com a conclusão da construção do “Palacete Plácido de Carvalho”, mudar-se-ia ele para o Outeiro.

Conforme declaração, de 15/06/1921, arquivada na Junta Comercial do Estado do Ceará, a firma “Plácido de Carvalho” declara que atua no “gênero de comércio de fazendas e armarinho”, que se situa na Rua Major Facundo, nº 160, e que o “capital empregado no negócio” é de 200 contos de réis.
Não conseguimos identificar em que ano a “Casa Plácido” sai de atividade. No entanto, a última vez em que ela é arrolada, entre os estabelecimentos comerciais que atuam, em Fortaleza, no “ramo de modas e confecções”, no Almanaque do Ceará, data de 1925.

Com base na Lei nº 2266, de 03/09/1925, que concedia, pelo prazo de 15 anos, isenção de décimas e todos os impostos estaduais, a quem construísse vilas operárias com 100 casas ou mais, o Presidente do Estado, José Moreira da Rocha, elabora a Lei nº 2352, de 14/11/1925, que concede, a Plácido de Carvalho, isenção, por 15 anos, de impostos estaduais, menos os de consumo, para uma Fábrica de Fiação e Tecelagem que ele vier a construir em Fortaleza.

Essa isenção seria relativa à fábrica e seus produtos, ao prédio, no caso de ser próprio e para esse fim especialmente construído, ao escritório e armazéns de depósito dos produtos da fábrica, às casas de moradia de gerentes, mestres e contra mestres, bem como à vila operária
destinada à residência dos operários da fábrica.

Possivelmente para beneficiar Plácido de Carvalho, o Presidente Moreira da Rocha, elaborou a Lei nº 2354, também de 14/11/1925, pela qual é concedida isenção, por 20 anos, de impostos estaduais, sobre a construção e exploração de um grande hotel em Fortaleza.
Tal hotel deveria conter, pelo menos, 40 aposentos higiênicos e confortáveis, devendo o edifício obedecer a uma arquitetura moderna.
Essa isenção começaria a vigorar desde o dia de inauguração do hotel, cuja construção deveria ter início dentro do prazo de 24 meses, a contar da data de publicação da referida lei.

Em 1927, Plácido de Carvalho manda demolir o “Sobrado do Comendador Machado” e, no seu local, dá início a construção do “Excelsior Hotel”, que será inaugurado em 31/12/1931.
Coincidentemente, no ano que tem início a construção do “Excelsior Hotel”, Fortaleza passaria a dispor, a partir de 17/07, de um moderno hotel, o “Palace Hotel”, situado no Passeio Público e pertencente a Éfren Gondim. O “Palace Hotel” se situava no prédio onde
funcionou o “Hotel de France”, que passou por uma reforma após ter sido adquirido, por 80 contos de réis, por José Gentil Alves de Carvalho, dos herdeiros de Dário Teles de Menezes conforme Raimundo Girão.

Segundo propaganda, no Álbum de Fortaleza de 1931, o “Excelsior Hotel” era “servido por elevadores Otis”, tinha “apartamentos, para famílias e cavalheiros, com dormitórios, sala de visita, banheiro e telefone”, todos dotados de “água corrente e mobiliário de 1ª classe”. Dispunha também de “especial cozinha à brasileira e estrangeira, restaurant à La carte, american bar, vasto terraço para dancing, banquete, recepções etc., a 50m de altura, salão de barbearia e manicure e central telefônica ligada a todos os aposentos”.


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Plácido Barbosa de Carvalho faleceria a 03/06/1935, no “Excelsior Hotel”, após padecer, por seis meses de grave enfermidade (O Povo, de 05/06/1935).
Em edição de 08/06/1935, o jornal O Povo traz notícias sobre o testamento deixado por Plácido. Segundo a matéria ali publicada, ele teria deixado para Natali Rossi, seu cunhado, 50 contos de réis; para José Lucas da Silva (construtor), 10 contos; para José Borges dos Santos, três contos; e, para Francisco Lopes (gerente da fábrica de mosaicos), 15 contos.
Para sua irmã, Maria das Mercedes Fernandes Vieira, foi deixada uma pensão vitalícia de 600$000 e partes do prédio da Rua Barão do Rio Branco, nº 810, onde ela já possuía partes.
Para seus sobrinhos-netos, filhos de sua sobrinha e afilhada Denise Vieira Paiva, filha de Maria das Mercedes e Afonso Fernandes Vieira, e casada com o Tenente Gonçalo Paiva, coube os prédios da “Farmácia Oswaldo Cruz”, do “Cine Moderno”, bem como o prédio situado, atualmente, no cruzamento das ruas Alberto Nepomuceno com Rufino de Alencar (que deveriam permanecer inalienáveis e impenhoráveis) e mais 60 contos de réis, destinados à construção de um prédio na cidade do Rio de Janeiro.

Para Zaira Andersen, filha de Pierina e sua enteada, deixou Plácido de Carvalho o “Palacete Iracema” (também conhecido como “Sobrado do Pastor”), localizado na Praça do Ferreira, e um prédio situado na Praia de Iracema (ambos os imóveis gravados com as cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade).

Para Maria Pierina Rossi de Carvalho, sua esposa, além de joias e dinheiro, tocou todos os outros bens móveis e imóveis de sua propriedade, como os prédios do “Cine Majestic” e do “Excelsior Hotel”. No caso dos bens imóveis, todos deveriam atender as condições de não
alienação e não penhorabilidade.

Deixou Plácido, ainda, para a Santa Casa de Misericórdia, 100 contos de réis; para o Asilo de Alienados, 100 contos; para o Colégio da Imaculada Conceição, 100 contos; para o Instituto de Proteção à Infância, 50 contos, e, para a Escola Pio X, 50 contos. O legado deixado para estas instituições estava sob a forma de títulos da dívida pública da União, valendo, cada um, 1:000$000, (todos gravados com as cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade).

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Leia sobre o Palácio do Plácido AQUI


Crédito: Plácido de Carvalho e Luiz Severiano Ribeiro: 
“uma dupla de cinema”
Carlos Negreiros Viana



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Personalidade - Lauro Maia Teles, o cearense que criou o balanceio!


Lauro Maia Teles (Fortaleza, 06/11/1913, Rio de Janeiro - 05/01/1950)

Arquivo Nirez
  
Nascido em Fortaleza, desde cedo se interessou pela música folclórica de sua terra, realizando diversas pesquisa sobre o tema. Foi o primeiro a tentar urbanizar ritmos locais com o lançamento do balanceio ("Marcha do Balanceio", gravada por Joel e Gaúcho, "Tão Fácil, Tão Bom", interpretada pelos Vocalistas Tropicais em meados da década de 40). No começo da década de 40, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde tocou em cassinos da cidade. Sua primeira composição, “Eu Vi um Leão”, de 1942, foi gravada pelo grupo Quatro Ases e Um Curinga, que só viria a fazer sucesso dois anos depois, com outra marcha do músico: “Trem de Ferro”. Com o cunhado Humberto Teixeira, compôs “Só uma Louca Não Vê”, sucesso na voz de Orlando Silva, em 1945. Após sua morte, em 1950, suas músicas continuaram sendo gravadas e fazendo sucesso – Carmélia Alves gravou “Trem ô Lá Lá”, outra parceria com Teixeira, e Raul de Barros, o choro “Faísca”. Até João Gilberto andou gravando suas canções, como em “Trem de Ferro”, interpretada pelo baiano em 1961.



 

Lauro Maia e seu amigo Aleardo Freitas - Arquivo Nirez

Nascido em Fortaleza, Ceará, em 06 de novembro de 1913, ano de transição na vida política cearense, com derrubada de governantes (1912 e 1914) e o surgimento de muitas inovações. Lauro Maia participou intensamente da vida cultural da cidade. No piano da mãe, instrumento indispensável nas casas de classe média daquele tempo, Lauro ensaiou seus primeiros passos como músico e compositor. Foi de sua própria genitora que o garoto recebeu as primeiras aulas de teoria musical. Sua mãe era professora de teoria musical. Ainda com calças curtas, cursava o antigo ginásio, com apenas 13 anos, quando começou a apresentar-se, tocando piano no Cine-Teatro Majestic, em Fortaleza. Mais tarde, com o adoecimento do pianista titular, passou a substituí-lo.

 
Casa onde Lauro Maia nasceu (a da seta) na Avenida Visconde de Cauhype, hoje Avenida da Universidade, nº 1946, essa casa vizinha é a do Colégio Fortaleza, depois Clínica do Dr. Godoy - Arquivo Nirez

Em 1935 começou a trabalhar na Ceará Rádio Clube (1935/1941) dirigindo o programa "Lauro Maia e Seu Ritmo". A rádio era a única emissora de rádio que havia e que divulgava a música brasileira e de fora. Na mesma época, criou juntamente com Paulo Pamplona, Ubiraci de Carvalho, Roberto Fiúza e Antônio Fiúza, o Quinteto Lúpar. A consagração veio em 1937, através de um concurso de música carnavalesca, onde obteve primeiro lugar em duas categorias - marcha e samba - com as músicas Eu Sei O Que É e Eis O Meu Samba . O julgador era ninguém menos do que o já consagrado e exigente Ari Barroso. Em 1938, assumiu a direção artística da rádio e passou a dirigir a Orquestra Jazz PRE-9. Em 1942 compôs o samba Cara de judeu , grito de guerra da Escola de Samba Lauro Maia (1942/1945), que desfilou pela primeira vez, tornando-se grande sucesso em Fortaleza. Em 1943, o grupo Quatro Ases e Um Coringa gravou o xote Fa-Ran-Fun-Fan! e a marcha Trem de Ferro, maior sucesso da sua carreira e que seria regravada em 1961, dois anos após sua morte, também com grande sucesso, por João Gilberto. Ainda em 1943, Orlando Silva gravou o samba Febre de Amor. Em 1944, o Quatro Ases e Um Coringa gravou a marcha Palminha de Guiné. Ainda nessa época, freqüentou a faculdade de Direito vindo a abandoná-la mais tarde para fixar-se definitivamente no Rio de Janeiro.

 
Arquivo Nirez

Em 1945, casado com Djanira Teixeira, irmã de Humberto Teixeira, transferiu-se em definitivo para o Rio de Janeiro, para viver exclusivamente de suas composições, já consagradas na época pelos maiores nomes da música. Passou a se apresentar em casas noturnas e no Cassino da Urca. Embora o forte dele não fosse letra, pois era mais músico que letrista, a maior mudança que poderia acontecer ao chegar ao Rio foi aliar-se ao cunhado, Humberto Teixeira. Logo que chegaram, a mulher de Lauro Maia naturalmente entrou em contato com o irmão Humberto, e eles, parentes e compositores, acabaram se conhecendo no Rio. Foi aí que Humberto passou a burilar as letras do Lauro Maia, modificou, melhorou muito as composições. Muitas foram corrigidas ou adaptadas. Ficaram muito amigos e Humberto Teixeira se tornou seu maior parceiro. Lauro Maia transferiu-se para o rio com um novo ritmo na bagagem para ser lançado no mercado fonográfico. Ele trazia o balanceio (Eu Vou Até de Manhã), uma mistura dos ritmos típicos do nordeste com a marchinha carioca. O sucesso foi muito grande. No carnaval seguinte Lauro Maia fez uma adaptação da música para o ritmo carnavalesco, e quando fez a adaptação botou também o nome do Humberto como compositor. Humberto só viu quando a música já estava gravada. Humberto contava que sempre deixou bem claro que a música não era dele, Lauro é que havia feito uma gentileza, uma parceria graciosa. Em compensação, muitas músicas de Lauro Maia foram lançadas por iniciativa do Humberto Teixeira, colocando letra. E em todas, mesmo naquelas lançadas após o falecimento de Lauro Maia, que Humberto Teixeira tinha as partituras e poderia lançar como se fossem só dele, ele sempre respeitou o nome do Lauro Maia. Foi a parceria mais profícua. Depois, Lauro conheceu Carlos Barroso, fez musica com vários outros parceiros, como também fazia sozinho. Mas era bem menos. Lançava três, quatro músicas com Humberto Teixeira, pra uma que lançava só, ou com outro parceiro.



 
Ainda em 1945, foi contratado pela Rádio Tupi. No mesmo ano, Orlando Silva gravou outro sucesso de sua autoria em parceria com Humberto Teixeira, Samba de Roça.

No ano seguinte, a dupla teria outra composição gravada, desta vez por Joel e Gaúcho, A Marcha do Balanceio. Suas composições, a partir do lançamento de Marcha do Balanceio, gravada por Joel e Gaúcho, ficariam marcadas por esse novo ritmo. Em 1946, Ciro Monteiro gravou o samba Deus Me Perdoe, parceria com Humberto Teixeira, e os Vocalistas Tropicais gravaram o balanceio Tão Fácil, Tão Bom. O primeiro é considerado uma das obras primas do seu repertório, por boa parte da crítica. No mesmo ano, retornou à Fortaleza por motivos de doença, lá permanecendo por dois anos. Em 1948, voltou para o Rio de Janeiro. Em 1950, Carmélia Alves gravou o baião Trem O Lá Lá, da sua parceria com Humberto Teixeira. No mesmo ano, Stellinha Egg gravou da mesma dupla o baião Catolê e Raul de Barros o choro Faísca.


 

Lauro e seu amigo Euclides Santana - Arquivo Nirez

Luiz Gonzaga, atraído pelo balanceio, chegou a propor formar parceria com Lauro Maia, mas este, porém, indicou seu cunhado Humberto Teixeira. O balanceio foi considerado de difícil execução para os percussionistas. Foi através de Lauro Maia que nasceu a dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e o baião tomou conta do mundo. Lauro Maia mesmo, nunca tocou baião. Não era a praia dele, pois ele não tinha conhecido a manifestação original do baião em suas pesquisas. Lauro achava que o balanceio era mais interessante. E é quase o mesmo do baião. A diferença só é o que eles chamam de ritmo quebrado. Depois que Lauro Maia morreu, teve algumas de suas músicas lançadas como baião por Humberto Teixeira.

Após sua morte, em 1950, suas músicas continuaram sendo gravadas e fazendo sucesso. Os que melhor interpretaram suas obras foram os conjuntos cearenses Vocalistas Tropicais e Quatro Ases e Um Coringa.

Lauro Maia foi um compositor versátil, eclético, que não se prendeu a radicalismos bairristas nem aos apelos externos. Fez a fusão do carioca com o cearense, do romântico com o jocoso, do clássico com o banal, produzindo peças da mais legítima música popular brasileira. Música, porque era catedrático em teoria e em sensibilidade; popular, porque atingia a massa; e brasileira porque sabia fazer cheirar à terra tudo o que criava. Pesquisador incansável e estudioso diligente, procurou adaptar os ritmos populares aos sons urbanos, encantando o Brasil com sambas, balanceios, baiões, batuques e miudinhos. Gostava muito de explorar o folclore. Teve vários casos de músicas influenciadas pela cultura popular, músicas regionais, e outras que fez adaptações. Cantava muito o trem, a estação, regionalidades. Faleceu prematuramente no dia 05 de janeiro de 1950, com 36 anos e dois meses, vítima de tuberculose, no Rio de Janeiro.


 
Arquivo Nirez

Embora fosse uma celebridade em sua época, Lauro Maia estaria completamente esquecido nos dias de hoje, se não fosse o louvável empenho do compositor Calé Alencar e do pesquisador Nirez no sentido de resgatar a sua obra para a posteridade. Em sua homenagem, Fortaleza lhe presenteou com uma rua.

Imagem Google Earth

Em 1993 foi apresentado no Teatro José de Alencar em Fortaleza o show "Lauro Maia - 80 anos", em sua homenagem, com o lançamento de um CD com composições de sua autoria interpretadas, entre outros, por Vocalistas Tropicais, Gilberto Milfont, Falcão, Fagner e Ednardo.




Para a maioria das pessoas, o nome de Lauro Maia talvez não se associe, imediatamente, a música. Afinal, entre tantos e tantos autores, quem seria mais este compositor de obra restrita a uma época de nossa MPB! Entretanto, se for lembrado que há 30 anos, em seu terceiro elepê na Odeon, o baiano João Gilberto incluiu uma deliciosa canção chamada "Trem de Ferro", talvez a memória se avive e ao menos os que tem maior interesse pela nossa cultura popular se liguem a esse compositor cearense, que morreu ainda jovem e cuja obra mereceu o mais completo levantamento que só um estudioso e pesquisador apaixonado como Miguel Ângelo de Azevedo - o Nirez poderia fazer. "O Balanceio de Lauro Maia" (Secretaria da Cultura, Turismo e Desporto do Ceará, 107 páginas, 19 ilustrações, 1991), acrescenta-se a bibliografia de nossa MPB. 


Lauro Maia, embora tendo vivido a maior parte de sua vida em Fortaleza tem ao menos duas ligações com o Paraná. Seu filho, Lauro, 45 anos, casado com Vilma, paranaense de Londrina, mora naquela cidade, onde nasceram os filhos Tatiana (1977) e Lauro Maia Telles Neto (1979). A cantora Stelinha Egg, a nossa vocalista que mais se projetou nacionalmente, há 41 anos, gravou postumamente uma das músicas de Lauro "Catolê", criada sobre motivos populares da região de Cariri. Humberto Teixeira (1916-1979), cunhado e o principal parceiro de Lauro Maia, fez algumas alterações sobre a canção original entregando-a ao maestro Lindolfo Gaya (1921-1987), que acompanhou a Stelinha, sua esposa, na gravação feita pela Capitol em 1950 (posteriormente a Sinter reeditaria o mesmo 78 rpm). 


Sobre o Livro

Nirez não se limitou apenas a fazer a sua biografia: estudou cada uma das músicas, comentou as letras, fez observações interessantíssimas. Também a época em que Lauro viveu - desde o ano de seu nascimento - é rememorada. No Rio de Janeiro, para onde foi em 1945 - quando já haviam sido aprovadas sete de suas músicas (uma delas por Orlando Silva, "Eu Via a Chica Boa"), Lauro conheceu o seu cunhado, Humberto Teixeira, nascendo uma grande amizade e parceria, entre as quais dois sucessos carnavalescos - "Só uma Louca não Vê" e, especialmente, "Deus me Perdoe" (1946, na voz de Ciro Monteiro). 


Trabalhando como pianista na editora dos irmãos Vitale, atuou também em cassinos e algumas rádios. Criador de ritmos - o "balanceio" seria sua marca registrada - Lauro poderia ter sido parceiro de Luiz Gonzaga (1912-1989). Conta Nirez: - "Quando começou a lançar os ritmos no Nordeste como o balanceado, a ligeira e o miudinho, o cantor, acordeonista e compositor Luiz Gonzaga que também vinha lançando ritmos nordestinos como o xamego e o calango, tentou com ele fazer parceria no baião, mas Lauro, avesso a responsabilidade junto a outras pessoas, pois gostava de compor só, ou com Humberto Teixeira que burilava suas peças, encaminhou Gonzaga a Humberto, como advogado com escritório montado na Avenida Calógeras. E foi assim que nasceu o baião urbanizado". Se não tivesse sido modesto, talvez Lauro Maia não seria hoje um nome quase esquecido. Felizmente, Nirez o retirou deste quase anonimato!!!




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Fontes: Nirez, Clique Music, Aramis Millarch (Estado do Paraná) e Viva Terra

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Delmiro Gouveia: O rei dos sertões

Comprando e vendendo couro de bode, ele enriqueceu. Criou a maior fábrica de linhas do Nordeste e fez inimigos até na Inglaterra. Introduziu a luz elétrica na região e morreu sozinho, baleado na varanda de sua casa.

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, mais conhecido como Delmiro Gouveia, nasceu em Ipu, Ceará, em 5 de junho de 1863 em um Brasil que somente 25 anos depois decretaria a libertação dos escravos. Com apenas 5 anos, ficou órfão de pai. Delmiro pai morreu alvejado durante a Guerra do Paraguai, depois de se alistar no Exército brasileiro. Com a notícia, a mãe, uma pernambucana de batismo, o levou para o Recife, onde ela sobreviveu como empregada doméstica e da venda de bolos e doces. Dez anos depois, o menino viveu seu pior momento, tornando-se também órfão pelo lado materno.
Delmiro Gouveia faleceu em Pedra, Alagoas, em 10 de outubro de 1917. 
Ele foi um dos pioneiros da industrialização do país, e do aproveitamento do seu potencial hidroelétrico, tendo construído a primeira usina hidroelétrica do Brasil.



Nasceu na Fazenda Boa Vista, no município cearense de Ipu, sendo filho natural do cearense Delmiro Porfírio de Farias e da pernambucana Leonila Flora da Cruz Gouveia. Sua família transferiu-se em 1868 para o estado de Pernambuco, onde se estabeleceu na cidade de Goiana, mudando-se para o Recife em 1872.

Com a morte de sua mãe teve que começar a trabalhar aos 15 anos de idade, em 1878, inicialmente como cobrador da Brazilian Street Railways Company no trem urbano, denominado maxambomba. Posteriormente chegou a Chefe da Estação de Caxangá, no Recife. Foi despachante em armazém de algodão.


Em 1883 foi ao interior de Pernambuco, interessado no comércio de peles de cabras e de ovelhas, que passou a negociar, tendo obtido grande sucesso. Em 1886 estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, por comissão, para o imigrante suéco Herman Theodor Lundgren (Casas Pernambucanas) e para outras empresas especilizadas nesse comércio, como a Levy & Cia. Trabalhava também por conta própria. Em 1896 fundou a empresa Delmiro Gouveia & Cia e passou a alijar seus concorrentes do mercado, empregando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Lampião nasceu para o cangaço, padre Cícero para ser “santo” e Delmiro Gouveia para o trabalho. Embora menos popular, o último personagem dessa trindade consagrada pelos nordestinos era tão poderoso que fez do próprio padim Ciço garoto-propaganda de seus produtos e teve o famoso cangaceiro no seu quadro de empregados. Quer mais?



Ele saiu da miséria absoluta para disputar com os ingleses o domínio do mercado de linhas de costura e fios de malha na América Latina, fez do couro de bode o que havia de mais chique na moda de Nova York um século antes de os brasileiros pronunciarem a palavra “fashion” e fundou o mercado que é reconhecido como o primeiro shopping center do Brasil. Seu nome era trabalho, ele fez a transição do coronelismo rural para a burguesia industrializada no Nordeste, mas ainda escandalizou a sociedade do início do século passado ao raptar e casar com uma lolita de 16 aninhos, filha de uma grande autoridade da República.

Recife - Mercado Coelho Cintra - Mercado do Derby (funcionou onde hoje fica o quartel-general da Polícia Militar. Foi inaugurado em 1898. Era uma espécie de precursor dos atuais shoppings.) Crédito da foto

Diferentemente de Cícero e Lampião, sua morte é um mistério até hoje. Quem matou Delmiro? Os concorrentes, os coronéis da oligarquia, algum pai insatisfeito com sua fama de conquistador de ninfetas? Ninguém sabe.



Principais realizações

Em 1899, inspirado pela Feira Internacional de Chicago de 1893, inaugurou no Recife o Derby, um moderno centro comercial e de lazer, que pode ser considerado o primeiro shopping center do Brasil. Esse empreendimento foi um grande sucesso e motivo de orgulho para o Recife, e chegou a atrair multidões estimadas em mais de 8 mil pessoas, até que foi deliberadamente incendiado em 2 de janeiro de 1900 pela polícia de Pernambuco, por orientação do Conselheiro Rosa e Silva, que era feroz inimigo político de Delmiro, e a mando do então governador Sigismundo Gonçalves, fiel rocista.

O incêndio, as dívidas com os investimentos – tanto no shopping quanto em uma usina de açúcar – e a recessão econômica imposta pela gestão Campos Sales praticamente puseram abaixo o império do self-made man do sertão. Para completar, o infortúnio no amor. Boêmio e colecionador de amantes – a lenda recifense reza que ele chegou a uma dezena fixa ao mesmo tempo –, destruiu o casamento com Anunciada nesse mesmo momento em que experimentava a decadência do patrimônio. Para completar a desgraça, Rosa e Silva ainda mandou prendê-lo, acusado de tocar fogo no próprio mercado.
Foi solto dias depois, graças a um habeas-corpus.


Após o incêndio, ateado por razões políticas no Derby, e também em virtude de ter-se apaixonado por, e depois raptado, uma filha natural de 16 anos do então governador de Pernambuco, seu arqui-inimigo político, Delmiro concluiu que sua vida corria perigo no Recife e transferiu-se, em 1903, para Pedra, em Alagoas, uma povoação perdida no coração do sertão, mas de localização estratégica para seu comércio, na Microrregião Alagoana do Sertão do São Francisco, fazendo fronteira com Pernambuco, Sergipe e Bahia, e hoje denominada Delmiro Gouveia em sua homenagem. Delmiro comprou uma fazenda em Pedra, às margens da Ferrovia Paulo Afonso, onde centralizou seu lucrativo comércio de peles e construiu currais, açude, sua residência, e prédios para abrigar um curtume.

Planejando construir ali uma fábrica de linhas de costura - que até então eram importadas da Inglaterra, as conhecidas Linhas Corrente, que monopolizavam o mercado brasileiro - e apelando para ideais nacionalistas, nativistas e cívicos então em voga, conseguiu do governo de Alagoas concessões que incluiam o direito à posse de terras devolutas, isenção de impostos para a futura fábrica, e permisssão para captar energia da cachoeira de Paulo Afonso, além de recursos governamentais para ajudar na construção de 520 quilometros de estradas ligando Pedra a outras localidades. A partir de 1912 iniciou a construção da fábrica de linhas e da Vila Operária da Pedra, com mais de 200 casas de alvenaria.  Em 26 de janeiro de 1913 inaugurou a primeira hidroelétrica do Brasil com potência de 1.500 HP na queda de Angiquinho. Em 1914 iniciou as atividades da nova fábrica sob a razão social Companhia Agro Fabril Mercantil, produzindo as linhas com nome comercial "Estrela" para o Brasil, e "Barrilejo" para o resto da América Latina. Com preços muito abaixo das "Linhas Corrente", produzidas na Inglaterra pela Machine Cotton, que até então monopolizava o mercado de linhas de costura em toda a América Latina, logo dominou o mercado brasileiro, e amplas fatias dos mercados latino americanos.

O sucesso da empresa - que em 1916 já produzia mais de 500.000 carretéis de linha por dia - chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, Delmiro Gouveia entrou em conflito com vários coronéis da região, o que provavelmente, segundo a maioria dos historiadores, ocasionou seu misterioso assassinato à bala. Outros historiadores - apoiados no conceito de Direito Romano qui prodest? - a que isto serviu? a quem isto aproveitou? - incluem a Machine Cottton no rol dos suspeitos. Seus herdeiros, não resistindo às pressões da Machine Cotton, venderam a fábrica à empresa inglesa, detentora na América Latina da marca "Linhas Corrente", que mandou destruir as máquinas, demolir os prédios, e lançar os maquinários e escombros no rio São Francisco, livrando-se assim de uma incômoda concorrência.



Como em Macondo, a cidade fantástica de Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, Delmiro assustou os matutos sertanejos com as primeiras pedras de gelo de que se tem notícia na região, depois de ligar o Nordeste na tomada ao inaugurar a primeira hidrelétrica no rio São Francisco, em 1913. O primeiro automóvel que andou por ali metendo medo em todo mundo também era seu. Inspirado em suas viagens aos Estados Unidos e à Europa, onde ia vender couro, foi um pioneiro de deixar qualquer self-made man sem fôlego: levou a jornada de oito horas para o Nordeste feudal, a primeira creche, um código de higiene, lições de ecologia, a proibição do uso de armas, as primeiras noções de irrigação... Tudo isso no meio da caatinga e do atraso do mundo que o cercava.


Frontispício da Companhia Agro Fabril Mercantil, produtora da linha Estrela, na Pedra, Alagoas. Foto Osael, Recife Crédito da foto

Mas o homem que levou a revolução industrial para o sertão estava com os dias contados. Às 21h do dia 10 de outubro de 1917, lia as notícias da guerra nos jornais, sob a lâmpada elétrica do alpendre da sua casa, quando foi alvejado por três tiros de rifle de pistoleiros. Não se sabe ao certo até hoje quem encomendou o crime. Os oligarcas incomodados com o poderio de Delmiro? Os concorrentes comerciais? “E o que se vê, em 1917, naquele tenebroso 10 de outubro, é nada menos que a morte do futuro pelas piores energias do passado”, diz o historiador Frederico Pernambucano de Mello, do Recife, um dos grandes estudiosos do assunto no país.

A ironia é que graças à luz elétrica, plantada ali por Delmiro, foi possível a emboscada noturna, o que não ocorria até então. O “rei dos sertões” morreu iluminado pela sua própria “invenção”.



Usina Agiquinho hoje Crédito da foto

Delmiro deu serviço até ao jovem Lampião

Antes de entrar para o cangaço, Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938), o Lampião, ganhava a vida trabalhando para Delmiro Gouveia. Sujeito pacato, incapaz de matar uma mosca, o jovem Virgulino, entre os 17 e os 19 anos, prestava serviços como almocreve, profissional que transportava em lombo de burro mercadorias pela caatinga afora. Conduzia grandes cargas de couro de bode da Bahia e Pernambuco para a fazenda Pedra, hoje município de Delmiro Gouveia, a 300 quilômetros de Maceió. Era um serviço duro, herdado de tradição familiar, que rendia por mês pouco dinheiro, algo em torno de dois salários mínimos de hoje, e um estrago na saúde. Mas a experiência como desbravador das veredas e quebradas do interior do Nordeste seria bastante útil tempos depois, já nos anos 20 do século passado. Virgulino deixou a fama de bom menino para virar cangaceiro, ramo de vida no qual fez fortuna, como comprova o historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor de Guerreiros do Sol, o principal livro sobre o cangaço no Brasil.Morto por pistoleiros em uma emboscada, no ano de 1917, Delmiro não viu seu ex-empregado construir fama e tornar-se um mito no sertão, o que seguramente condenaria. Na vila de Pedra, sob o seu comando, era proibido o uso de armas de fogo, mesmo que “inocentes” espingardas de chumbo para a caça de aves, ainda hoje muito comuns no sertão.



Monumento erguido no local de sua morte Crédito da foto

Cronologia


  • 1863 – Nasce Delmiro, no Distrito de Santo Izidio, que na epoca era Ipu, mas hoje e Pires Ferreira.
  • 1868 – Transferência para Pernambuco
  • 1883 – Compra e exportação de peles
  • 1886 – Ramo de couros
  • 1896 – Casa Delmiro Gouveia e Cia
  • 1898 – Construção do mercado modelo no Dérbi (Recife)
  • 1903 – Escolhe a vida da Pedra (280 km de Maceió, capital de Alagoas), atual Delmiro Gouveia.
  • 1910 – Aproveitamento da cachoeira de Paulo Afonso
  • 1912 – Cia Agro Fabril Mercantil e construção da Vila Operária Padrão
  • 1913 – Energia hidrelétrica da queda de Angiquinho, Cachoeira em Paulo Afonso.
  • 1914 – Fabrica Estrela de linhas para costura
  • 1917 – Morre assassinado aos 54 anos.



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Créditos: http://guiadoestudante.abril.com.br e Wikipédia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Crato - O "Oásis do Sertão"


Foto do arquivo do Blog do Crato

As terras as margens do rio Jaguaribe-Mirim (e seus afluentes) e da Chapada do Araripe eram habitadas por diversas etnias indígenas, dentre elas os Kariri, Aquijiró, Guariú, Xocó, Quipapaú e tantas outras, antes da chegada das entradas e/ou missões religiosas dos portugueses, italianos, baianos, paraibanos e sergipanos. Entradas dos Sertões de Dentro e a Missão Capuchinha com a expulsão dos neerlandeses do nordeste brasileiro, os portugueses e outros brasileiros puderam adentrar e explorar melhor a terra do Siará Grande.

Acredita-se que primeira penetração no território do Cariri aconteceu durante século XVII, com a bandeira dos irmãos Lobato Lira. Desta bandeira, participaram dois religiosos: um padre secular e um frade capuchinho, que ganharam a confiança dos índios kariri e conseguiram aldeá-los. Estes exploradores subiram o leito do Jaguaribe-Mirim e instalaram nos arredores da cachoeira dos Karirys (cachoeira de Missão Velha).

Acervo de Lucia Maria de Oliveira Castro P. Tavares. Fotografias doadas pelo Padre Lauro Gonçalves Pita

Tempos depois, o frei capuchinho Carlos Maria de Ferrara organizou, às margens do rio Itaitera (água que corre entre pedras), o maior e mais importante aldeamento de silvícolas na região. Este recebeu o nome de "Missão do Miranda", em homenagem a um dos chefes da tribo batizado com esse nome. Mais tarde, também aparecem as denominações "Miranda" e "Cariris Novos". A Missão do Miranda, sob a administração dos capuchinhos, prosperou, devido à fertilidade do solo e abundância de água, que possibilitaram o cultivo da cana-de-açúcar, mandioca e cereais. Manuel Carneiro da Cunha e Manuel Rodrigues Ariosto requereram, através da lei de sesmaria, a posse das terras adjacentes ao Rio Salgado, fato que culminou na elevação da missão a povoação.

Foto do arquivo do Blog do Crato

A primeira manifestação de apoio eclesiástico aconteceu em terras doadas pelo capitão-mor Domingos Álvares de Matos e sua mulher, Maria Ferreira da Silva. Essa doação localizava-se, inicialmente, em terras encravadas a dois quilômetros a sudeste da povoação, transferindo-se, em data posterior, para a margem direita do rio Granjeiro. Os trabalhos da primitiva Igreja, dedicada a Nossa Senhora da Penha de França, tiveram início em 1745, tendo como responsável, o frei Carlos Maria de Ferrara e seu companheiro frei Fidélis de Sigmaringa. Em 1762, foi criada a Paróquia, na aldeia do Miranda, sob a invocação de Nossa Senhora da Penha.

Foto do arquivo do Blog do Crato

A edificação desse primitivo templo revela o atraso de sua época, considerando sua estrutura como as paredes de taipa, piso de barro batido e coberta de palhas, tendo ainda os caibros e ripas trançados de cipós. A permanência desses religiosos, no que se chamou de Missão do Miranda, estendeu-se por espaço de dez anos.

Acervo de Lucia Maria de Oliveira Castro P. Tavares. Fotografias doadas pelo Padre Lauro Gonçalves Pita

A freguesia criou-se por provisão de março do ano de 1762 e inaugurou-se a 4 de janeiro de 1768, tendo como seu primeiro vigário o padre Manuel Teixeira de Morais. Com o desgaste do tempo, a estrutura física entra em deterioração, situação que levou o padre Antônio Lopes de Macedo Júnior, pároco da Freguesia de Nossa Senhora da Penha, a endereçar requerimento à Junta do Real Erário, solicitando fundos necessários à construção da capela-mor ou igreja matriz. Atendido o seu pedido, iniciaram-se os trabalhos cuja conclusão data de 1817, constando os atos inaugurais de 3 de maio do mesmo ano.

Acervo de Lucia Maria de Oliveira Castro P. Tavares. Fotografias doadas pelo Padre Lauro Gonçalves Pita

A povoação de Miranda elevou-se à categoria de vila em 16 de dezembro de 1762, tendo sido instalada em 21 de junho de 1764 como Vila Real do Crato, no século XVIII, constituindo um dos mais importantes núcleos de povoamento na época colonial no interior do Nordeste. Foi tornada cidade pela Lei Provincial nº 628, de 17 de outubro de 1853.

Acervo de Lucia Maria de Oliveira Castro P. Tavares. Fotografias doadas pelo Padre Lauro Gonçalves Pita

O topônimo Crato vem do latim curatus, que significa padre ou designação de lugares com condições de tornar-se paróquia, podendo ser uma alusão a:

- A vila portuguesa de Crato, no Distrito de Portalegre, região Alentejo e sub-região do Alto Alentejo;
- Curato de São Fidélis de Sigiarina, que corrompeu-se depois para Curato de São Fidélis, Cutato, Crato.

Já o topônimo Mirada é uma alusão ao um dos chefes da tribo do Kariri, batizado com esse nome.

Sua denominação original era Missão do Miranda, depois Missão dos Cariris Novos, Aldeia do Brejo Grande e Vila Real do Crato e, desde 1842, Crato.


Acervo de Lucia Maria de Oliveira Castro P. Tavares. Fotografias doadas pelo Padre Lauro Gonçalves Pita

Século XIX: influências de Pernambuco 

No século XIX, já habitavam na vila do Crato famílias que enviavam seus filhos para estudar em Recife, capital da província de Pernambuco. Foi por lá que muitos entraram em contato com os ideais de independência e adoção do regime republicano no país. Assim, José Martiniano de Alencar, subdiácono e estudante do Seminário de Olinda, deflagrou o movimento republicano no conservador Vale do Cariri, a ter o Crato como palco principal. Repercutindo os ideais da Revolução Pernambucana de 1817, Martiniano "proclama" a independência do Brasil no púlpito da matriz da cidade em 3 de maio de 1817. Leandro Bezerra Monteiro, o mais importante proprietário rural do Cariri, católico e monarquista, pôs fim ao intento republicano. Os revolucionários foram presos e enviados para as masmorras de Fortaleza e posteriormente para as de Salvador, na Bahia. Entre os prisioneiros estavam Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e Dona Bárbara de Alencar, irmão e mãe de José Martiniano. Recebem a anistia pela autoridade real posteriormente.

Acervo de Lucia Maria de Oliveira Castro P. Tavares. Fotografias doadas pelo Padre Lauro Gonçalves Pita

Em 1824 eclode em Pernambuco a Confederação do Equador. Tristão Gonçalves de Alencar Araripe mais uma vez adere ao movimento e é aclamado pelos rebeldes Presidente da Província do Ceará. Em 31 de outubro de 1825 morre em combate com forças contrárias ao movimento. Após tais acontecimentos, em Crato, assim como no Cariri, muitos se dividem entre monarquistas e republicanos. Entre os primeiros estava Joaquim Pinto Madeira, chefe político da Vila de Jardim e Capitão de Ordença que prendera os revolucionários, entre eles Tristão Gonçalves de Alencar Araripe . Com a renúncia de D. Pedro I, inimigos do monarquista aproveitam para se vingar e Pinto Madeira em sua defesa arma dois mil jagunços com a ajuda do vigário de Jardim, padre Antônio Manuel de Sousa. Invadem o Crato em 1832 para derrotar os inimigos políticos. Apesar de vitoriosos no começo, Pinto Madeira e Antônio Manuel sofrem reveses e, finalmente presos, são enviados ao Recife e Maranhão. Retorna ao Crato em 1834 e é condenado a forca, sentença posteriormente comutada para fuzilamento, em face do réu ter alegado sua patente militar de Coronel. Tanto Tristão Gonçalves quanto Pinto Madeira dão nome a rua e bairro, respectivamente, na cidade nos dias de hoje. 

Acervo de Lucia Maria de Oliveira Castro P. Tavares. Fotografias doadas pelo Padre Lauro Gonçalves Pita

Segunda metade do século XIX: Criação da Diocese, Caldeirão e outras mudanças 

No início do século XX, a cidade dividiu com o recém criado município de Juazeiro do Norte a liderança política do vale do Cariri. Joaseiro, como era conhecido, era uma localidade pertencente à Crato e seu processo de autonomia política seria encabeçado por, entre outros, padre Cícero Romão Batista. Em 20 de outubro de 1914, é criada a Diocese de Crato pelo papa Bento XV através da Bula "Catholicae Ecclesiae". A Igreja Católica foi responsável pelo progresso material e social de Crato inicialmente, pois aí fundou o Seminário menor de São José (primeiro do Interior cearense), a pioneira cooperativa de crédito (Banco do Cariri), escolas, hospitais e a Faculdade de Filosofia de Crato, embrião da atual Universidade Regional do Cariri fundada no ano de 1986. Ainda em 1914, Crato foi palco de confrontos da Sedição de Juazeiro, levante que levaria à deposição do Governador Marcos Franco Rabelo.


Açude dos Gonçalves - IBGE

Em 1926, o Crato ligou-se a Fortaleza, através da inauguração da estação de trem do Crato, o ponto final da extensão da Estrada de Ferro de Baturité, que teve início a partir de 1910. Durante a seca de 1932, o Crato é um dos locais onde é instalado pelo governo estadual um dos Campos de Concentração no Ceará ou mais conhecido como os Currais do Governo. Os flagelados da seca que procuravam a ajuda do padre Cícero foram então alojados no sítio da localidade de Buriti. O campo do concentração do Crato foi um episódio marcante na História do Ceará. 

Babaçual na cidade do Crato - IBGE

Com o fim de canudos, o beato José Lourenço Gomes da Silva vem morar em Crato e, com o aval do Padre Cícero, funda a irmandade da Santa Cruz do Deserto. A primeira base desta comunidade localizava-se no Sítio Baixa Dantas. Em 1926 a irmandade sai deste sítio e vai para o Caldeirão dos Jesuítas. O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, um experimento sócio-religioso que incomodou as principais forças regionais da época, teve o seu fim em 1937 e entrou para a História do Ceará como um massacre no qual, pela primeira vez História do Brasil, aviões foram usados como objetos de arma.

Babaçual na cidade do Crato - IBGE

O município, atualmente, mantém um padrão de vida significativo se comparado com algumas cidades não muito distantes da região do Cariri. Seu último e atual bispo, o ítalo-brasileiro Dom Fernando Panico, deu início ao processo de reabilitação do Padre Cícero, abrindo, assim, uma possibilidade para que o sacerdote seja oficialmente beatificado e, futuramente, canonizado pela Igreja Católica. 

Babaçual na cidade do Crato - IBGE

Economia

A economia local é baseada na agricultura de feijão, milho, mandioca, arroz, monocultura de algodão, cana-de-açúcar, castanha de caju, hortaliças, banana, abacate e diversas frutas. Na pecuária extensiva destaca-se criação de bovinos, ovinos, caprinos, suínos e de aves. O extrativismo vegetal também estimula a economia local com a extração de madeiras diversas para lenha e construção de cercas, uso em padarias e fabricação de carvão vegetal; atividades com babaçu, oiticica e carnaúba.

O artesanato, também é uma outra fonte de renda, de redes e bordados é bastante difundido no município. A mineração gera fonte de renda através da extração de rochas ornamentais, rochas para cantaria, brita, fachadas e usos diversos na construção civil. Bem com a extração da areia, argila (utilizada no fábrico de telhas e tijolos) e de rocha calcária (calcinada para obtenção de cal e gipsita). A piscicultura desenvolve-se nos córregos e açudes. Registram-se ainda nas terras do Crato a ocorrência de gipsita, utilizado na fabricação de cimento Portland, gesso e na correção de solos salinos, e chumbo. No parque industrial do Crato localizam-se 95 indústrias.



Babaçual na cidade do Crato - IBGE

A cidade do Crato em termos econômicos, constitui-se numa cidade com expressiva importância regional. Destacando-se pela tradicional função de comercialização de produtos rurais, provenientes do desenvolvimento da agricultura no sopé dos vales irrigados da região do Cariri. Nesta área, destaca-se a famosa Expocrato, feira agropecuária que inclui também shows com bandas e cantores famosos e atrai milhares de visitantes à cidade todo mês de julho. A cidade também comercializa produtos industriais (alumínio, calçados, cerâmica, aguardente) para os demais centros urbanos do Ceará.

A cidade conta com seis agências bancárias e, conforme o IBGE, o PIB da cidade era de 343 642 000 reais em 2004. A principal atividade econômica da cidade é o setor de comércio, cerâmica vermelha e serviços, que, segundo dados de 2002, é responsável por 68,8% do PIB municipal. Ainda pelos mesmos dados, a indústria responde por 27,6% do PIB e o setor agropecuário, embora bastante destacado na cidade graças à famosa feira agropecuária da Expocrato, é responsável por apenas 3,6%. Em 2005 o PIB de Crato foi R$ 116.122.000 maior que no ano anterior, totalizando o valor de R$ 459 764 000. O setor de comércio e serviços continua a ser o maior empregador da cidade, a verificar-se a presença de lojas de rede regional e nacional. Exite uma parcela significativa da população dedicada à prestação de serviços.



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