Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Copa Suburbana





Décadas de cinquenta e sessenta. Comum os times da primeira divisão do Campeonato Cearense treinarem com equipes da periferia.

Não raro, atletas daquele nível, também atuavam em partidas de agremiações amadoras. Saudosistas, talvez, das origens esportivas.

O Usina Ceará Atlético Clube iniciou atividades no subúrbio. Precisamente, na Avenida Bezerra de Menezes, em Otávio Bonfim, integrado por trabalhadores da Indústria Têxtil Siqueira Gurgel.


Fábrica Siqueira Gurgel

Tinha no azul e no branco as cores oficiais. Por símbolo, adotou o desenho estilizado de uma fábrica, com três chaminés fumegantes e, ao fundo, uma bola com gomos, característica da época.



Usina Ceará Atlético Clube , vice-campeão de 1957


Fundado em 1949, destacou-se rápido no cenário futebolístico da Capital. Fez-se campeão da “Copa Suburbana de 1950”. Alçou, então, a segunda divisão e conquistou o título do certame um ano depois.

1953 datou seu ingresso no futebol oficial do Estado. Empolgou a torcida como vitorioso do Torneio Início de 1954. Duas vezes sagrou-se vice-bicampeão estadual. Anos de 1956 e 1957, bem como 1961 e 1962.

Encerrou, saudosamente, suas atividades no esporte em 1964.

Testemunhei, em domingueira ensolarada, no final de 1955, jogo-treino do Usina Ceará. Adversário, o 5 de Julho Futebol Clube, do bairro Demócrito Rocha, que venceu por 1 x 0. Incrível e quase impossível. Tento do quarentão Tâna. De pênalti. Último minuto da peleja. Bicão de derrubar parede. Sorte de o goleiro fabril ter-se jogado para o lado contrário da trave. Glória atlética única do “véi” em toda sua vida.

Sem tempo e preservando contusões nos jogadores, o Usina não se esforçou para reverter o escore. Zerou.


Geraldo Duarte

terça-feira, 25 de março de 2014

João Cordeiro - Um abolicionista Cearense


João Cordeiro nasceu em Santana do Acaraú, no dia 31 de agosto de 1932, falecendo em Fortaleza, a 12 de maio de 1931 aos 88 anos.
Foi Senador da República, amigo íntimo de Floriano Peixoto. Figura máxima do abolicionismo no Ceará. Político de corajosas atitudes e de enorme prestigio junto aos poderes constituídos.

Era filho de João Cordeiro da Costa e Floriana Angélica da Vera Cruz, foi considerado nas notas de Eusébio de Sousa deixadas e publicadas na Revista do Instituto do Ceará do ano de 1945 o seguinte: “invicto General da Companhia da Abolição”, foi centro gravitacional redentora do Ceará.

Considerado temperamental quando necessariamente teria que agir, não medindo esforços e nem contava o que era preciso fazer.
Tinha uma linha de conduta que até hoje não conseguimos definir, devido o seu direcionamento a tudo e a todos.
Foram vários os conceitos a sua pessoa inclusive considerando o seu Cérebro como daqueles que não raciocinava dificuldade. Vencia tudo e muito rapidamente.

Nas suas diferentes funções exercidas ao longo de sua existência, ora estava alto, mas dominantemente decidido e decidindo, superando sempre as dificuldades com o seu altruísmo.

João Cordeiro o Abolicionista, não podemos eximir das páginas de qualquer obra que venha falar de abolição, o nome de João Cordeiro; como também o republicanismo do Ceará pois deverá constar em qualquer compendio histórico. Era o Cearense inquieto e integral nos atos como também no caráter.

João Cordeiro, nas memórias que escreveu, ao correr do lápis, esclarece que foi convidado por alguns sócios da Perseverança e Porvir para fundarem uma sociedade que se ocupasse da propaganda e da abolição dos escravizados. Aceitou o convite com grande entusiasmo e com os rapazes da perseverança convocou para Palacete da Assembléia da Província, uma reunião dos abolicionistas para a fundação de uma associação, que instalou com o nome de Cearense Libertadora. Compareceu grande número de abolicionista e ele, João Cordeiro, foi aclamado Presidente e, tomando posse do cargo, deu por instalada a sociedade e nomeou uma comissão para organizar os estatutos.


Dias depois, reuniram-se os associados para ouvir a leitura destes e aprova-los mas, houve longa discussão e, para corta-la, Cordeiro declarou os estatutos que acabara de ser lido como inconveniente, não se relacionando com o pensamento do abolicionismo, nós queremos uma sociedade carbonaria, sem ligações com o governo que se ocupe da libertação dos escravos por todos os meios ao alcance dos nossos recursos pecuniários que nos convém devem ser simplesmente estes: -

· “Art 1° - Libertar escravos seja por que meio for”.
· Art. 2° - “Todos por um e um por todos”.

Dissolveu-se a reunião, ficando apenas duas dúzias de abolicionistas dispostos à luta que em resultado se deu à Libertação dosEscravos no Ceará.

A ideia triunfou e se formou um grupo de resistência que prosseguiu na luta, sendo de justiça destacar nomes de um punhado desse núcleo: João Cordeiro, Antônio Bezerra, Padre Frota, Justiniano de Serpa e outros. “E adianta: “Eram estes os tais libertadores, frase de mofa para traduzir a insignificância da força que pretendia demolir a torre” Malakoff do escravismo.”

Não parece certo que os nomes indicados por Isac do Amaral sejam os que ficaram na hora decisiva do juramento pedido por João Cordeiro, mas a verdade é que todos eles não saem do agitado palco em que se encena o complicado drama do extermínio da escravatura.

O grupo arrojado da Libertadora não mais sossegou nem parou. Sem demora fundaram um jornal comandado por João Cordeiro “destinado à propaganda e interesse dos abolicionistas” e cujo primeiro número circulou no dia 1°de janeiro seguinte ao da fundação da sociedade. Chamaram o Jornal de, “O Libertador” e adotaram o lema de Jesus – “Ama ao teu próximo como a ti mesmo”.

No seu apostolado, “O Libertador” não restringe as duas esferas de ação. Levanta o escravo e coloca o homem ao lado do homem. Sopeia o algoz e liberta a vitima. Tritura o orgulho do enfatuado e eleva o mérito real do filho do povo. E no vasto domínio da mentalidade humana, todo assunto lhe é próprio. Marcha com seu século, tem o mesmo movimento, e a luta faz a sua profissão de fé. Ou vencer ou morrer.

Foi assim a participação que chamamos de efetiva de João Cordeiro, que culminou a libertação dos escravos no Ceará com grandes pompas, com uma programação que constou de números literários, musicais e artísticos de um modo geral.


Ipu, CE, 03 de setembro 2001

Francisco de Assis Martins





sábado, 22 de março de 2014

Doutor Batérico


Rua Floriano Peixoto - Arquivo Fortaleza Nobre

"Rua Floriano Peixoto. Foto Ideal, propriedade do senhor Raimundo do Vale.
Defronte, com o cartaz “Vende-se”, estava à joia. Jeep Willys, 1951, todo original. Parecia saído da fábrica, mesmo passada uma vintena. Adquiri-o.

No lado direito do painel, em plaqueta de alumínio, cravada, o registro do fabricante. Willys-Overland Motors, Inc. e as características do veículo.

Mais tarde, soube que a documentação registrava aquele ano porque fora o da data de venda pelo representante local. Em verdade, o fabrico teria sido entre 1942 e 1945, com base nas informações técnicas da plaquinha.

O jipinho foi um todo alegria. Parceiro de pescarias e passeios. Onde estacionava, surgiam curiosos com propostas de compra.

Certo dia, velocímetro e odômetro pararam de funcionar. Por contar milhas e não quilômetros, aparelho idêntico inexistia no mercado. Indicaram-me alguém que o poderia consertar. Então, conheci o Doutor Batérico*.

Em pequena oficina, na rua Meton de Alencar (Foto ao lado), reparava tais componentes e baterias.
Estatura mediana, alvacento, meio gordo e bem humorado. Dizendo que não via igual há muito, retirou-o do encaixe e desmontou-o, carinhosamente, na bancada.

Durante o trabalho, não parou de contar lorotas. Mesclando-as, sempre, com fatos e pessoas reais.

Pianista amador do programa radiofônico local, do passado, “A Hora da Saudade – Coisas que o Tempo Levou”, usou sua arte para fanfarronar. Dizia-se amigo de Mussolini, Franco e Stalin. E, ao primeiro, haver ensinado alguns artifícios pianísticos. Isso, sem jamais ter saído de Fortaleza. E, graças a Deus, nenhum daqueles sanguinários ditadores terem pisado na terrinha.

Jurava manter contatos com extraterrestres, inclusive, a convite deles, ter visitado a Lua, Vênus, Marte e cercanias estelares.

Garantia que um ex-comandante da Base Aérea acordara-o, em alta madrugada, para secretamente ir até aquela Unidade Militar e reparar a pane ocorrida em um disco voador visitante. Solução imediata. Logo a nave deu-se ao cosmo.

Repentinamente, parou o serviço, olhou-me e, vendo-me fardado, falou: “Tenente, o alto comando das Forças Armadas encomendou-me e eu estou montando um instrumento, de várias utilidades. Uma, das muitas, faz soldados tornarem-se invisíveis.".

Ante a um leve sorriso meu, veio dele o complemento: “Você não acredita, né? Pois, desde sua chegada, uma dúzia de testadores da minha invenção já entrou e saiu daqui.”.

Dr. Batérico fez-se personagem popular, famoso e querido em nossa Capital, devido à capacidade profissional e as absurdas e jocosas histórias que contava de forma compenetrada.

Chamava-se José Afonso Lima. Faleceu em 22 de julho de 2000, aos 95 anos de idade, vítima de hemorragia digestiva. Está sepultado no Cemitério São João Batista.

Jamais me esqueci daquela alegre manhã. Nem de outras façanhas daquele gozador bem humorado, narradas pela imprensa.

Ah! quanto ao meu também inesquecível “Truck ¼ Ton 4x4”, o pequeno herói da Segunda Grande Guerra? Tantos somaram nossos feitos que, se escritos, facilmente, comporiam incontáveis páginas de volumoso livro."

Geraldo Duarte 
 (Advogado, administrador e dicionarista).


* Em 22 de julho de 2000, morre, em Fortaleza, vítima de hemorragia digestiva, aos 95 anos de idade, José Afonso Lima, o conhecido Dr. Batérico, pianista da antiga Hora da Saudade, depois Coisas que o Tempo Levou e tinha uma oficina de recuperação de baterias na Rua Meton de Alencar.
Era famoso também por suas mentiras que contava, principalmente nos dias 1º de abril.
Foi sepultado no Cemitério de São João Batista. (Cronologia Ilustrada de Fortaleza de Miguel Ângelo de Azevedo).

Memória

Histórias dos anos 50


"No programa Noites Cearenses, produzido e apresentado por Augusto Borges, o entrevistado era o Doutor Batérico, famoso por suas histórias curiosas, como aquela do cajueiro que estava tão velho, tão velho e caducando, que em vez de caju, estava dando manga...

No programa ele se reportava a uma viagem que fizera ao Planeta Vênus e, quando exibia uma camisa comprada lá e ia dizer seu nome, o Augusto conseguiu uma fórmula para impedir:

- Sim, doutor Batérico, mas a nave voltou sã e salva?

O doutor Batérico, como o maior contador de histórias do Norte e Nordeste (tudo aqui que é melhor é do Norte e Nordeste, não é mesmo?), tinha uma capacidade incrível de improvisação, e, nessa qualidade, deu logo a resposta para o Borges, que ele entendeu mal ou quis se fazer de mal-entendido:

- Fundiu-se, doutor Batérico?
- Não, Augusto, f... mesmo!”


Do livro “Senhoras e Senhores” de Narcélio Limaverde


quarta-feira, 19 de março de 2014

Maestro Lisboa


Colégio Lourenço Filho - Arquivo Fortaleza Nobre

"Antônio Francisco Lisboa¹, nosso professor de Canto Orfeônico no Colégio Lourenço Filho, fez-se exemplo de superação às dificuldades vivenciais.

Contava-nos, por incentivo, sua vida. “Negro, feio, pobre e sem futuro tornei-me, na juventude, um sério problema para minha mãe, viúva e muito sofrida.”. Passava o dia pelas ruas e, numa dessas caminhadas sem rumo, foi apreendido e levado à Instituição Santo Antônio do Pitaguari, em Maracanaú.

Mais conhecido como Santo Antônio do Buraco, o internato público correcional era considerado rigoroso pelos internos e pela população. Falavam da aplicação de severa disciplina e obrigação de aprendizagens várias.

Ali, Lisboa, como ficou conhecido, alfabetizou-se e concluiu o Curso Primário. Em igual período, dedicou-se aos estudos da música.

Com a idade de dezesseis anos, encaminhado à Escola de Aprendizes Marinheiros, iniciou seu serviço militar na área da musicalidade.

De praça a oficial, no posto de 2º tenente, comandou a Banda de Música da EAM de nossa Capital.

Extra expediente daquela unidade naval lecionava sua arte nos principais estabelecimentos de ensino fortalezenses.

Jaques Klein e Eleazar de Carvalho ingressaram na carreira musical como alunos do maestro. Eleazar, por seu apoio, inclusive junto à Marinha, recebeu da Força, no Rio de Janeiro, suporte em prol de seu êxito nacional e internacional.

Quando de vindas a Fortaleza, a primeira visita fazia-se ao velho marinheiro. Certa feita, do exterior trouxe um diapasão, confeccionado em ouro e prata, como reconhecimento ao sempre mentor.

Aqui, merecedora homenagem ao digno e inesquecível mestre."

Geraldo Duarte 
(Advogado, Administrador e Dicionarista).

¹ "Em 19 de maio de 1974, morre, aos 87 anos de idade, o maestro professor Antônio Francisco Lisboa, oficial da Marinha de Guerra, professor de canto orfeônico no Colégio Castelo Branco, Colégio Lourenço Filho, Colégio São José e Colégio 7 de Setembro e em vários outros estabelecimentos de ensino do Ceará (o autor destas linhas assistiu suas aulas no Instituto Waldemar Falcão de Romão Nogueira Filgueira Sampaio).Foi sepultado no Cemitério de São João Batista no dia seguinte.
Hoje é nome de rua na Lagoa Redonda.
Era pai do locutor e cantor José Lisboa.
"   Nirez


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Vereador classista


Nos pleitos municipais antigos, comum era o apelo dos candidatos para conseguir votos em suas classes profissionais ou atividades sociais. Durante as campanhas, intitulavam-se candidatos dos motoristas, professores, ferroviários, garçons, estudantes, radialistas e de atividades outras.

Passadas as eleições, fragorosamente derrotados, constatavam não ter recebido sufrágios dos colegas de profissão.

Bom lembrar a existência da máxima defendente de que toda regra possui exceção. O princípio ocorreu, pelo menos uma vez, em 1958, na Capital.

Tudo começou no Salão Guanabara, barbearia das mais conceituadas e frequentadas, localizada na rua Pedro Pereira, quase esquinando com a da Assunção. O estabelecimento, contando seis artífices, entre eles o proprietário, mestre Zé, e o secretário da Associação dos Barbeiros e Cabeleireiros do Ceará, Vicente Fon-fon, fez-se abrigo de uma ideia original. Lançariam um candidato a vereador, pertencente aos quadros da ABCC. Durante o ano eleitoral realizariam um trabalho diário, com dois colegas de cada barbearia visitando as demais, do centro e bairros de Fortaleza e, em fins de semana, as residências dos colegas. A féria do dia de trabalho dos escalados para a campanha vinha do rateio proporcional feito entre os demais trabalhadores de seus salões. Aos fregueses seria comunicada a existência do candidato, entretanto, sem insistência de pedido de voto, pois associados e seus familiares somariam mais de 2.000 sufrágios. Elegeriam o indicado, tranquilamente, por um partido de legenda menor.

Plano aprovado. O escolhido representante da categoria, integrante da Associação, filiou-se ao Partido Republicano Trabalhista (PRT). Concorreu à vereança, obteve aproximados 1.300 votos e foi eleito.

Na eleição seguinte, para o mandato de 1962 a 1966, esquecido dos iguais, não se reelegeu. A inexistência do maciço apoio da classe causou a derrota.

Candidatos têm profissões, mas tentando representá-las, não obtêm êxitos por exclusividade de voto classista. Salvo ocorra uma segunda exceção.

Geraldo Duarte 
(Advogado, administrador e dicionarista).

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Médico Importado

Jovenildo grelou os olhos e esticou os ouvidos. Premiu com força a tecla de aumento de som do controle do televisor. Zefinha, sua mulher, cochilante, meteu dos pés e gritou irritada: “que zuada é essa home de Deus?”.

“Mulhé! O Brasil arrivirou. O gunverno vai trazê médico das estranja pru sertão! Vai dá pelos peito dum peba gordo!”.

Dia amanheceu com Jove na porta da casa do mais esclarecido cidadão do povoado. Professor Felisberto.

O mestre disse conhecer a notícia. Programa Mais Médicos. Em pausado linguajar explicou detalhes ao agricultor.

A solução não era simples. Ali, naquele grotão, não havia posto de saúde, aparelhamento, enfermeira, atendente, auxiliares, medicamentos, nem outras exigências mínimas para o objetivado.

De que serviria a presença de um profissional da medicina? Mesmo que os tais doutores, originários de países vários, falassem a língua praticada em nossa Pátria, nos compreendessem e fossem compreendidos, entenderiam os regionalismos? Precisariam de intérpretes? Inclusive, com conhecimentos folclóricos ou populares?

Complementou citando consulentes queixosos de “amarelão, amojamento, antoje, arroto choco, azedume, berruga, deitar lombriga, coceira entre o ventoso e o penoso, comichão, curuba, dor do comprido que desce pro redondo, espinhela caída, formigado, friviação ardida no mucumbu, nó na tripa, pilôra, coceira na tripa gaiteira, tremelique, vento preso e centenas de outros termos do Dicionário de Medicina Popular, de João Conrado e Olimar Filho.


No dizer do velho e sempre replicado refrão de Colorau, lá dos Inhamuns, “Tá muito difícil, tá muito difícil!”.


Geraldo Duarte
 (Advogado, administrador e dicionarista)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Dr. Godofredo Maciel



Advogado e político cearense.Intendente de Fortaleza nos governos;Justiniano de Serpa (1920), e Moreira da Rocha (12 de julho de 1924 a 12 de julho de 1928).
Nasceu em Baturité a 08 de setembro de 1883.
Filho do Cel. Raymundo Maciel e D. Emília Barbosa Maciel.
Estudou no Gymnásio Cearense,(continuidade de estudos feito no Seminário de Fortaleza),a época dirigido pelo afamado professor Anacleto de Queiroz. Depois de cursar o secundário no Lyceu do Ceará, matricula-se na Faculdade de Direito do Ceará. Nesse ínterim consegue excelente desempenho intelectual; redator da 'Reforma',sócio-efetivo do 'Centro Literário' e colaborador da Revista 'Praça do Ferreira'. Foi ainda redator do 'Unitário' e colaborador do 'Jornal do Ceará', dirigidos por Cel. João Brígido e Waldemiro Cavalcante. Depois de ter feito o primeiro ano do curso de direito na faculdade do "dono do Ceará" (Pinto Accióly),segue para o Rio, então capital federal, onde em 1908 torna-se bacharéu em sciências jurídicas e sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro. Orador eloquente e tribuno nato,é convidado a representar a turma de bacharelandos a primeiro de janeiro de 1909, na solenidade de colação de grau. Permanece no Rio até 1910 ao tempo em que advoga ao lado de Cândido de Oliveira. Nesse ano o Presidente Hermes da Fonseca nomeia-o intendente do Alto Purus. Aliás há um fato interessante na História do Brasil com respeito aos bacharelandos e bacharéis em direito e o sistema político, pelo menos até 1930, quando foi criada a OAB. A primeira geração de advogados brasileiros formou-se em Portugal,e foi responsável pela elaboração da primeira Constituição do recém formado estado do Brasil,a de 1824. Segundo Joaquim Nabuco "as faculdades de direito eram ante-salas da câmara", porque forneciam quadros para a organização política do país. Estabeleceu-se um cursus honorum; o jovem bacharelando/bacharéu era nomeado promotor de justiça/juiz substituto/juiz de direito e cargos assemelhados. Em seguida à deputado das assembléias provinciais e a assembléia geral, mais tarde à presidente da província. Depois da independência do Brasil? (07 de setembro de 1822),foram criadas as faculdades de direito de Recife e São Paulo. Pois não existe país sem lei, e as leis até então eram portuguesas.(FIGUEIREDO, Luciano.Nossa História. Ano I-nº6,abril de 2004-Editora Fundação Biblioteca Nacional, pág.85, párs.1 ao 9). Se os historiadores costumam dividir a História do Brasil-República Velha (1889 a 1930),em dois períodos: República da Espada e República das oligarquias, mas bem que esse segundo período poderia ser a 'República dos Bacharéis'.(O autor).

Importantes praças faziam parte do bucólico cenário urbano da Cidade de Fortaleza de 1928,com seus absurdos cerca de 80.000 habitantes: Praça do Ferreira,onde desembocavam as grandes artérias comerciais da capital e de onde partiam as linhas de bondes, praça em parte embelezada pelo governo municipal em questão. Praça Castro Carreira (Estação), Praça Gal.Tibúrcio em frente ao então Palácio do governo (Palácio da Luz), hoje sede da Academia Cearense de Letras. E o famoso Passeio Público,o mais belo logradouro da cidade e célebre por ter sido o local onde foram executados quando da Revolução do Equador-1825, os 'republicanos': Francisco Miguel Pereira Ibiapina/Luis Ignácio de Azevedo Bolão e Feliciano José da Silva Carapinima. A cidade, segundo o historiador Dr.Guilherme Studart - Barão de Studart "aformosou-se a olhos vistos; com o abandono dos antigos estylos de edificação e o seu movimento se accentúa dia-a-dia,sendo o número de seus automóveis de mais de 300". A bucólica Cidade de Fortaleza nos idos do segundo governo Godofredo Maciel, nos é motivo de orgulho e admiração. Objeto de estudo para: pesquisadores, historiadores e memorialistas. Base formada para que hoje a capital dos cearenses viesse a ser a quinta maior do país.Como homenagem ao trabalho prestado ao povo fortalezense, hoje leva o nome de importante logradouro público da capital a do nobre advogado - Dr.Godofredo Maciel. Bibliografia - SAVASTANO, N.Terra Cearense, pág.110,párs 1-45.

Foi respeitado a nomenclatura textual da época. 

Foto e Texto: Santana Júnior

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sobral - Especial 240 Anos


Praça Dr. José Saboia, cruzamento da Rua Domingos Olímpio com Avenida Dom José - Arquivo Fotos em Preto e Branco

Ao município que hoje conta com quase 200 mil habitantes, tendo se tornado pólo trabalhista e universitário-nossa querida Sobral (teve seus fundamentos nas terras da antiga Fazenda caiçara), e que se tornou Vila à 05 de julho de 1773, portanto completando 240 anos;(por ordem do Governador de Pernambuco Manuel da Cunha Menezes, em sessão Extraordinária na Câmara Municipal, recebe o lugarejo o nome de Vila Distinta e Real de Sobral).
Durante sua rica história nesses 240 anos não tem somente na Família Ferreira Gomes, (mandatários dos destinos do estado), nem no 'reinado' do Bispo-Conde Dom José Tupinambá da Frota (que queria transformar Sobral na Roma do semi-árido), expoentes máximos. 
Considero a fase áurea da História de Sobral ao longo de seus 240 anos as 6 primeiras décadas do século findante;onde debutavam nos palcos do poder estadual, tanto à nível político/econômico/religioso e jurídico figuras como: Engenheiro João Thomé de Saboia e Silva/Desembargador José Moreira da Rocha/Dr. José Saboya de Albuquerque/Dr.Plínio Pompeu de Saboia Magalhães/Francisco de Almeida Monte-Chico Monte/Dom José Tupinambá da Frota e seu poderoso tio D. Jerônimo Thomé da Silva (à época Arcebispo Primaz do Brasil).
Coincidência ou não, mas nesse período encontrava-se em pleno funcionamento o Porto de Camocim e sua extensão beneficiária da elite sobralense, a Estrada de Ferro de Sobral. 

ESTRADA DE FERRO DE SOBRAL


Final do século XIX, o Nordeste era assolado por secas arrasadoras (infelizmente isso acontece até hoje), e para diminuir o flagelo que recaíra sobre os sertanejos da Região Norte do Ceará, V. Majestade - o Imperador D. Pedro II manda construir a Estrada de Ferro de Sobral. Transcorria a grande seca que assolou o Ceará em 1877/78. 
O Conselho de Estado tendo à frente o Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas - João Lins Vieira e Cansanção e Sinimbu  propõe ao governo imperial iniciação de uma linha férrea ligando o Porto de Camocim à Cidade de Sobral, empregando nesse trabalho a população inativa devido à seca. Por Decreto de 01 de junho de 1878, o governo imperial autoriza a construção dessa importante linha férrea. À partir da Estrada de Ferro de Sobral (Camocim-Sobral e Sobral-Ipú), passara a futura 'Princesa do Norte' à usufruir grandemente do movimento do Porto de Camocim; fazendo o escoamento de mercadorias e o tráfego de pessoas, vindas ou com destino ao mercado europeu, em primazia à Fortaleza/Recife e Rio de Janeiro. Segundo Giovanna Saboya - Pró Reitora do curso de História da UVA, a elite sobralense- à essa época-início do século XX, costumava se banquetear com mercadorias vindas do 'velho mundo', em recepções nos seus sobradões de mobiliário europeu. Nas mesas eram encontrados produtos como: salmão, lagosta, camarão americano, cavala francesa, azeite doce, vinhos do Porto, conhaque francês e diversas iguarias. 
(Revista Cidade Universitária, Camocim- História de trabalho, lutas e realizações. Pág. 28, parágrafos 32 a 39/pág. 30, parágrafos 8 ao 16.) 

O Porto do Mucuripe ainda era um sonho distante alentado em pranchetas de burocratas da capital federal -Rio. Sua efetiva construção veio à ser uma realidade no governo do 'sanguinário-lecista'- interventor federal Professor Menezes Pimentel (A 20 de outubro de 1951), o navio cargueiro"Mormacred", da Cia Moore Mac Curmack Line, inaugura de fato aquele porto marítimo. 
(FILHO, Almino Cavalcante Rocha - Cadernos Sobralenses, As Viações, Pág. 21 e 22, parágrafos 4-7).

O assoreamento do Porto de Camocim (evitando que navios de grande calado aportassem), marcou o início da 'decadência' sobralense no cenário político e econômico do estado.

Texto: Santana Júnior


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Achilô



Quem conheceu o saudoso empresário Geraldo Borges Pereira muitos causos dele ouviu. De sua terra natal, Cariús, e da que o adotou, Senador Pompeu (Foto ao lado). Quanto a Fortaleza, dizia ser lugar de muitas histórias para escutar, jamais para recontar. Nunca me explicou o motivo.

Repetia possuir quatro manias. Jogar gamão, fazer palavras cruzadas, ter o Fusca como carro predileto e comer sarapatel. Não trocava o besouro por veículo nenhum. Quando o irmão Marcone procurava demonstrar a insegurança e desconforto do carrinho, ele o convidava a mudar o disco.
Bom de garfo gostava dos pratos requintados das cozinhas nacional e internacional, entretanto, houvesse um sarapatel, descartaria os outros.

Hóspede nosso em Brasília, preparei-lhe uma surpresa. Levei-o a um modesto restaurante, antiga casa de madeira dos tempos da construção da Belacap, na barragem do Lago Paranoá. A pedida foi sarapatel. Segundo Geraldo, o melhor que comeu em sua vida.


A conversa até pode agradar, mas o papo é “achilô”.

Contou-me que, em Cariús  existia um comerciante que desconfiava até da própria sombra. Documento que possuísse mais de uma via, lia e relia todas. Errasse com um cheque, riscava muitas vezes a assinatura e os demais escritos, rasgava-o até não mais conseguir e, depois, colocava os pedacinhos num recipiente e ateava fogo. Pessoa irritadiça, quando de mau humor, bradava: “achilô, achilô!”. Ninguém sabia o significado.

Certa feita, exasperou-se com o pároco e bradou o termo.

De pronto, o vigário respondeu: “Respeite-me! ‘Achilô’ jamais! Você, em confissão, disse-me o significado e mamãe é pessoa honrada!”.

Geraldo Duarte 
(Advogado, administrador e dicionarista)