Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Acopiara


Prefeitura de Acopiara - Crédito da foto

O povoamento da Região compreendida nos limites atual do município de Acopiara começou no século XVIII com a concessão em 4 de julho de 1719, de uma sesmaria pelo Capitão-Mor Salvador Alves da Silva, ao Alferes Antonio Vieira Pita, sua petição foi feita pelo Escrivão das Datas, Manoel de Miranda, Salvador Alves da Silva, "Cavalheiro professo da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, Capitão Mayor da Capitania do Ceará Grande", que achou por bem conceder todas as terras pedidas, com todas as suas águas, campos, matas, testados logradouros e animais úteis que se acharam dentro daquelas terras.

Após a concessão feita pelo Capitão-mor Salvador Alves da Silva ao Alferes Antonio Vieira Pitta, foram chegando os primeiros povos como da família Pereira da Silva, para habitarem Acopiara. Por se tratar de excelentes terras de ribeira, foram as primeiras famílias afluindo à zona e fixando-se visando as melhores propriedades, através de uma agricultura bastante compensadora.



Teatro de Acopiara - Crédito da foto

No entanto, a família Pereira da Silva, tendo em vista algumas partes do solo ser pedregoso denominaram a localidade de "OS LAGES", passando ser o nome daquele povoado que ali fora fundado.

Com a inauguração da Estação Ferroviária Rede Viação Cearense, em 10 de julho de 1910, Lages passou a ter um maior desenvolvimento superando logo os núcleos de Bom Sucesso e São José, que mais adiante vieram se chamar respectivamente Trussu e Quincoê. Através de Ato Administrativo do Brasil, em 1911, o Distrito de Lages figurava ligado ao Município de Iguatu. Através do recenseamento Geral de 1920, Lages foi desmembrada de Iguatu e elevada a categoria de município em 28 de setembro de 1921, através da Lei Nº 1.875, onde governou Celso de Oliveira Castro até 3 de outubro de 1930, o primeiro Prefeito.



Rio Quincoê - Crédito da foto

Sua instalação se deu em 14 de janeiro de 1922, ficando o Município constituído de três Distritos: Lages, Quincoê e Trussu, recebendo os dois últimos esses nomes porque por ali passava os riachos que deram origem ao nome.



Igreja matriz de Acopiara - Crédito da foto

Com a criação do Município, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira, o 1º Bispo do Crato, criou a Paróquia de Lages, isto acontecendo em meados do mês de outubro de 1921. Com a sua fundação a Paróquia era ligada ao Bispo do Crato, e recebeu como Padroeira Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, sendo nomeado o Primeiro Vigário Padre Leopoldo Rolim. A Igreja Matriz representa um dos mais belos templos do Interior do Estado, ainda naquela época, o seu teto era coberto por uma pintura retratando o céu, com as nuvens e estrelas.



Praça em Acopiara - Crédito da foto

Depois de ser Lages, passou a se chamar Afonso Pena em 1933, que era uma homenagem ao estadista brasileiro de origem mineira, em 30 de dezembro de 1943, através do Decreto Lei Nº 1.114, "Lages" passou a ser Acopiara, palavra Tupi, que significa o que cultiva a terra, o lavrador ou o agricultor, nome que preserva até hoje, e depois de ter vários filhos ilustres como prefeitos desta terra, mas a seca ainda castiga a boa gente desta terra fazendo com que muitas pessoas deixem sua terra natal e procurem outros centros, abandonando o lugar onde, certamente, já tiveram vários momentos felizes com suas famílias.

Como em muitas cidades do interior do Ceará, Acopiara tem em sua produção agrícola, a maior fonte de renda, muito embora, pode-se verificar que a agricultura se apresente ainda na sua maioria como de subsistência de pequenos produtores. Destaque para o ramo aviário, que nos últimos anos cresceu, sendo um dos maiores da região tendo bastante visibilidade através da grande expansão da granja Herbster.



Cachoeira Montemo - Crédito da foto

Destaca-se em Acopiara, no ramo industrial, a Empresa Antonio Rufino e Cia Ltda., que explora o ramo Algodoeiro. Acopiara, na década de 70, foi o segundo produtor de algodão do Estado do Ceará, mas as constantes secas, bem como a inserção do bicudo em suas lavouras, contribuíram para que sua produção fosse bastante reduzida. Destacam-se ainda no ramo industrial, as indústrias de Sabão e a refinaria de óleo de propriedade do espolio de Francisco Alves Sobrinho. Acopiara também dispõe de boa estrutura no ramo de cerâmicas, com boa produção de tijolos e telhas. No setor comercial, existe boa variedade de lojas de vestuário, do comercio mercantil de Alimentos e de lojas de eletrodomésticos, com destaque para a Empresa MOVELETRO, que se expandiu por toda a região.


Cidade de Acopiara - Crédito da foto

O Protagonismo do Coronel Chico Guilherme no Desenvolvimento de Acopiara


Francisco Guilherme Holanda Lima, mais conhecido por Chico Guilherme, nasceu em 15 de março de 1890, no sítio Salva Vidas na cidade de Quixeramobim no Estado do Ceará. Filho de Antonio Guilherme Holanda, um nobre empresário holandês que veio para o Brasil em um navio negreiro e ao aportar no Recife em Pernambuco seguiu para o Ceará e escolheu a cidade de Quixeramobim, onde fixou residência tornando proprietário da Fazenda Salva Vidas, onde conheceu sua esposa a senhora Teodelina Gomes Lima, dessa união nasceram 18 filhos, dentre eles Francisco Guilherme Holanda Lima. (O Vovô Chico Guilherme).

Em 1910, ao completar 20 anos, Chico Guilherme, com o mesmo espírito empreendedor do pai, desembarcou de trem em Lajes, hoje Acopiara, e comprou bastantes terrenos, tempos depois em um leilão na comarca de Iguatu “arrematou todo o terreno chamado Lajes” (ou seja, podemos dizer que Ele foi dono de Acopiara). Em um desses terrenos construiu e abriu a primeira loja de tecidos do então povoado com o nome Casa São Francisco, tornando-se assim o primeiro empresário do local, loja essa que ficava na rua conhecida antigamente como Beco do aperto, onde funcionou o Mercantil de seu Alcebíades, hoje Rua Manoel Ferreira Lima, lado sul do atual Mercado Central.

Em 23 de setembro de 1911, Francisco Guilherme Holanda Lima, casou-se com a senhora Almerinda Gurgel Valente, que após o casamento passou a assinar o nome Almerinda Gurgel de Lima, depois ficou conhecida carinhosamente como D. Neném, “Tia Neném” e Vovó Neném.


Almerinda era filha de Henrique Gurgel do Amaral Valente, o “vovô do Rio” e Joana Gondim Valente. Dessa união nasceram 14 filhos: Teodelina, Antônio Guilherme, Pedro Guilherme, Adelaide, José Guilherme, Maria, Rosmarie, Madalena, Terezinha, Luiz Guilherme, Francisco Guilherme (I), Francisco Guilherme (II), Joana (Janete) e Raimundo Guilherme. (este ultimo, meu pai).

Com o espírito empreendedor, Chico Guilherme abriu a primeira indústria de compra, venda e beneficiamento de algodão, a Usina São Francisco, localizava-se na Rua Santo Dumont com Cazuzinha Marques. Que mais tarde se transformou na Exportadora Cearense, vendida ao seu cunhado Francisco Gurgel Valente e depois vendida ao saudoso Chico Sobrinho – Pai do atual Prefeito Antônio Almeida Neto, que se chamava Usina de Algodão e Óleo São Francisco, e hoje, no novo local da referida usina, funciona uma Fabrica de Sabão e a Usina Ric Bil.

Com os negócios prosperando, vovô Chico, tornou-se proprietário de várias fazendas de gado, plantio de algodão e outras lavouras, escolhendo, dentre elas, o sítio Catanduva como ultima morada, e imediatamente como empresário e fazendeiro recebeu o título de Coronel.

No desejo de ver o progresso chegar a esta cidade o então Coronel Chico Guilherme entregou seus terrenos (de mão beijada) com gratuidade e estratégica para que a cidade se desenvolvesse de forma harmoniosa, simpática e acolhedora.

Doou um de seus terrenos para a construção da residência do primeiro Juiz de Direito de Lajes o senhor Quintinho Cunha. Foi o Juiz Quintino Cunha quem sugeriu ao vovô Chico a dar à filha que nascera em 1923, o nome de Rosmarie, hoje viva e aqui presente, mãe da Dra. Rosa – 1ª Dama do Município de Acopiara. Por isso a tia Rosmarie foi escolhida para receber, representando seu pai Francisco Guilherme Holanda Lima, essa tão justa comenda.



Doou o terreno para a construção da Praça da Matriz, da Igreja Matriz Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, da Casa Paroquial, do Centro Social, do Cemitério.

Doou ainda os terrenos para a construção dos Correios, da Teleceará, do Clube Social de Acopiara, do Prédio da Associação Comercial, Hoje ONG Raízes, da Praça dos Leões, hoje o Pólo de Lazer.

Doou também o prédio para a construção da Coletoria Municipal, Hoje Secretaria Municipal de Administração e Finanças, doou terreno para a construção do Grupo Escolar Pe. João Antônio...

...Doou terrenos ainda para construções de vários prédios comerciais na Rua Marechal Deodoro, dentre outras ruas, e ainda doou terrenos para construções de várias casas residências na Avenida Cazuzinha Marques, onde esta era conhecida, na sua época, como “Rua dos Guilhermes”, pois, era nessa Avenida que ficava a residência oficial do casal, precisamente a mansão de nº. 160, que foi demolida e hoje funciona o Mercantil Albuquerque.

Por fim, meus caros empresários e familiares aqui presentes, Francisco Guilherme Holanda Lima, não exerceu mandato político, TALVEZ SEJA POR ISSO, QUE ATÉ A PRESENTE DATA NÃO TEM NADA EM ACOPIARA COM O NOME DELE! Mas Ele foi a “alma viva” do progresso de Acopiara. Era conservador, mas não reacionário. Fidalgo, cordato, educado, fino, nobre nas atitudes. Dizer que pertencia à nobreza é uma injustiça, se tomarmos o conceito europeu e clássico de nobreza. Era burguês, sim, mas não era arrogante nem prepotente. Era manso. Não era culto, mas ético, educado, empreendedor, cidadão informado e atualizado com o mundo que o cercava, digo, até, a frente do seu tempo.

“Impossível é andar em Acopiara sem que não tenha de pisar em terra dada, de mão beijada, à comunidade pelo Coronel Chico Guilherme!” (Waldir Sombra).

Idalmi Pinho Guilherme



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Fonte: http://www.acopiara.ce.gov.br e http://www.informegeracao.com

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Rodolfo Teófilo - Um grande filantropo cearense de alma e coração



Médico sanitarista, intelectual, industrial e divulgador científico nascido em Salvador, Estado da Bahia, de extremo espírito público e inventivo, inventor da cajuína¹, não só do produto, como também do nome. Cedo ficou órfão, tendo de trabalhar como caixeiro e suportar humilhações, veio para o Ceará com apenas 15 dias de idade. Formou-se em Farmácia pela Faculdade de Medicina da Bahia, empreendeu uma batalha pessoal contra a varíola, lutando contra o medo da vacina, sem recursos, em tempo de seca, fome, da migração em massa e em péssimas condições de higiene. Sem apoio do poder público, enfrentou praticamente sozinho, em duas oportunidades, epidemias de varíola que vitimou milhares de pessoas em Fortaleza e interior do Ceará, no final do século XIX e início do século XX. Montado em um cavalo, cuidou sozinho da vacinação em massa pelos bairros pobres de Fortaleza durante os três primeiros anos do século XX. A cólera vitimou quase um terço dos seis mil habitantes de Maranguape, cidade nas cercanias de Fortaleza (1862) e no final da década seguinte (1878), a varíola matou um quinto da população da capital cearense. Vacinou próximo de duas mil pessoas (1902), não sendo registrado nenhum caso de varíola na capital cearense naquele ano. Obstinado ainda encontrou tempo para escrever 28 livros, aderir à causa abolicionista e militante na Padaria Espiritual, uma espécie de agremiação literária que, pelo comportamento irreverente de seus membros, antecipou o modernismo no Brasil. Faleceu em Fortaleza em 2 de julho de 1932 aos 79 anos.



Filho do Dr. Marcos José Teófilo, médico, e de D. Antônia Josefina Sarmento Teófilo. Nasceu em Salvador (BA), a 6 de maio de 1853, e faleceu em Fortaleza, no dia 2 de julho de 1932. Foi romancista, contista, naturalista, historiador e político. Passou quase toda sua vida no Ceará exercendo atividades de escritor e cientista, merecendo por isso ser considerado cearense, como era seu desejo. 

Pobre e órfão, foi educado pelo Barão de Aratanha que o matriculou no Ateneu Cearense, contudo, deixou os estudos para ser caixeiro viajante. Formado farmacêutico, em 1875, pela Faculdade de Medicina da Bahia, estabeleceu-se no Ceará, desenvolvendo logo o pendor para o cientificismo característico na sua obra. Diplomado, dirigiu uma farmácia em Pacatuba, depois na capital. Foi mais tarde professor de ciências naturais na Escola Normal e membro de diversas sociedades culturais. Sua obra ficou marcada pelo exagero em que é mostrada a seca no nordeste e os tipos flagelados caracterizados com excesso.

Depois de assistir o descaso da administração pública frente à grande epidemia de varíola de 1878 no Ceará, Rodolfo Marcos Teófilo decide iniciar uma campanha de vacinação contra a doença. Aprendeu a fabricar a vacina e, em 1901, usando para isso seus próprios recursos financeiros, passou a vacinar o povo com ajuda de sua mulher e um criado. Os únicos limites à sua filantropia foram a falta de recursos e infra-estrutura, problemas que tentou contornar criando uma pequena industria, cujos lucros foram utilizados para a construção de seu instituto vacínico – “Vacinogênio Rodolpho Teophilo”. Conforme seus próprios relatos, andava pelos subúrbios, de casa em casa, de palhoça em palhoça, vacinando as pessoas. Somente mais tarde criaria a Liga Cearense Contra a Varíola, contando então com voluntários em praticamente todo o interior do estado na luta contra a doença².


Um homem contra um poderoso vírus - O Poder e a Peste

Rodolfo Teófilo teve como um dos principais feitos em vida ter combatido a varíola praticamente sozinho, percorrendo a periferia, convencendo as pessoas a se vacinarem de casa em casa.


 
Morro do Moinho - Rodolfo Teófilo vacinando a população contra a varíola - Arquivo Nirez

O pai de Rodolfo Teófilo, Dr. Marcos José Teófilo, que residia em Aracati, foi chamado com urgência pelo governo da capital para fazer parte de uma comissão de combate a febre amarela, cuja epidemia se alastrava no ano de 1852. Em um jornal da época, o médico José Lourenço afirmou que a peste teria acometido 8 dos 15 mil habitantes da cidade, atingindo tanto a periferia quanto a parte nobre da cidade.

A comissão seria formada por ele e pelos únicos dois médicos que existiam então em Fortaleza, justamente o Dr. José Lourenço e Dr. Castro Carreiro, que era homeopata, e foi mais tarde senador do império. A área que Marcos José ficou responsável foi a que ia de Maranguape a Baturité, enquanto os outros dois ficaram com a capital e seus arredores e o litoral, respectivamente, enquanto o restante do interior ficou à míngua.

Até então existiam duas teorias para explicar o contágio pela doença. A primeira atribuía sua transmissão a um ‘’veneno invisível e contagioso’’, recomendando por isso o isolamento dos doentes. Já a outra teoria dizia que a doença era causada pelos ‘’miasmas’’, substâncias que pairavam no ar e eram resultado de matérias orgânicas animais e vegetais em putrefação. Recomendava, assim, o aterramento de pântanos, mangues e fios de água a céu aberto.

O Dr. Marcos José via sentido nas duas hipóteses, principalmente na segunda, pois havia observado que o número de casos da doença eram bem maior no período chuvoso. Ele não conseguiu, porém, convencer o Presidente da província de sua tese, que, por aproximação, estava correta. Somente em 1881, o cientista cubano Carlos J. Finlay descobriu que a transmissão da febre amarela se dava por meio da picada do mosquito Aedes Aegypti, que coloca seus ovos em água parada. A tese, porém, foi desacreditada, tendo sido comprovado somente em 1901, por cientistas americanos.


Finalmente, em 6 de maio de 1853, nascia, em Salvador, Rodolfo Teófilo. Os pais levaram-lhe para nascer na capital baiana pelas melhores condições de assistência que oferecia ao parto, já que a cidade possuía a essa altura a melhor Escola de Medicina do país. Além disso, foi lá que Marcos José se formou, tendo, portanto inúmeros colegas que poderiam lhe prestar assistência, pois a saúde de Josefina era frágil. Passado pouco mais de um mês do nascimento de seu primogênito, eles já estavam de volta ao Ceará.

Josefina, entretanto, acabou falecendo em 1857, de causa desconhecida. Deixou o primogênito Rodolfo órfão, além de duas meninas, Flora e Florisbela. Marcos José casou pouco tempo depois com a cunhada Guilhermina, que lhe deu mais três filhos: Afonso, Júlia e Laura.

Em seu romance Violação, Rodolfo dá pistas de uma possível quinta irmã. Ele narra o episódio de um nascimento em uma família atingida pela epidemia de cólera, o qual Lira Neto julga possivelmente ser autobiográfico.


 

Em 1862, durante a epidemia da doença em Fortaleza, todos na casa do futuro farmacêutico caíram doentes. Até mesmo Guilhermina, que estava grávida e acabou entrando em trabalho de parto ainda acometida pelo cólera. Rodolfo era o único que não tinha ficado doente, e teve que cuidar sozinho de toda a família. Sua pequena irmã, entretanto, acabou falecendo pouco depois de nascer e ele, aos nove anos, teve que cuidar do enterro da menina. No livro Violação, o escritor Rodolfo Teófilo narra as agruras pelas quais o menino passou, tendo que atravessar a cidade deserta por causa da epidemia e encontrar os montes de cadáveres se aglomerando no cemitério da cidade, porque o número gigantesco de mortes diárias não dava mais tempo para as devidas cerimônias.

O restante da família sobreviveu à peste, mas seu pai acabou falecendo dois anos depois, em 1864. Rodolfo, aos onze anos de idade, foi estudar como aluno interno no Atheneu Cearense, sendo bancado pelo marido da tia Maria do Carmo Teófilo, o senhor José Antônio da Costa e Silva.

Ele ganha destaque na turma, e aos treze anos começa a dar aulas no colégio em troca de uma bolsa de estudos. Nesse período foi colega de Capistrano de Abreu, do qual se aproximou bastante, além de ter sido contemporâneo de Domingos Olímpio, Paula Ney e Rocha Lima.

Aos quinze anos, entretanto, sobrecarregado por ter que ensinar e estudar ao mesmo tempo, seu rendimento cai e acaba sendo reprovado no exame para a última série. O tio cansa de lhe sustentar e força-lhe a interromper os estudos para ir trabalhar no estabelecimento comercial de José Francisco da Silva Albano, futuro Barão de Aratanha.

Rodolfo trabalhava o dia todo, e durante o primeiro ano não recebeu salário algum, apenas um lugar para comer e para dormir. Nessa época de apaixonou pela filha do presidente da província, informação novamente tirada de um de seus romances, O Caixeiro, o qual também se acredita autobiográfico. O romance nunca chegou a se concretizar.


  

Enquanto isso ele começou a estudar no período da noite com o Dr. Arcelino Queiroz, um dos donos do Colégio Praxedes & Queiroz, se preparando com sacrifício para prestar exames para alguma Universidade.

No ano de 1869, cai enfermo e volta a morar com a família. Se recupera Recupera-se em Pacatuba, na casa de um amigo da família que futuramente ainda lhe ajudaria muito, o Dr. Henrique Gonçalves da Justa. Ao voltar para o trabalho de caixeiro, começa a produzir, sozinho, nos fundos da loja, um tipo de tinta para marcar sacas de algodão. O produto faz sucesso, desbancando o único concorrente da cidade, e Rodolfo consegue juntar alguns trocados.

Com esse dinheiro e mais uma subvenção de quinhentos mil reis anuais, conseguida com a Assembléia Provincial através do amigo Henrique da Justa, foi para Recife prestar o exame de línguas para adentrar o curso de Farmácia na Faculdade de Medicina de Salvador. O ano era 1871. Enquanto se prepara para a prova, trabalha como amanuense no Hospital Militar de Recife. Foi só quando foi se matricular na faculdade, já na Bahia, que descobriu que não era cearense de nascença, mas sim baiano. Isso porque em sua certidão de nascimento não constava local de nascimento. Ao ouvir o nome de Marcos José enquanto Rodolfo preenchia seu cadastro de filiação, um antigo professor da instituição se surpreendeu e lhe deu as boas vindas, contando finalmente a história de seu nascimento. Apesar disso, posteriormente, em seu livro de memórias posterior, Rodolfo Teófilo escreveu ‘’Sou cearense porque quero’’.

Foi na faculdade que teve contato com as teorias positivistas, as quais viam a miscigenação do povo brasileiro como a principal causa de nossos problemas sociais e de saúde pública, ou seja, das epidemias e casos de demência à criminalidade.

Formado farmacêutico, retorna ao Ceará em 1877. Primeiramente se instala em uma das principais ruas de 
Pacatuba, mas logo se muda para Fortaleza, abrindo uma farmácia na Rua da Palma, hoje Major Facundo, nº 80 com o apoio de Henrique da Justa.

Com os negócios progredindo, se casou com Raimunda Cabral³, e passou a se destacar na província cearense pelos seus dons de cientista e sanitarista, essencialmente quanto a epidemia da varíola e da cobra cascavel. 


Nessa época, por causa de uma grande seca, a cidade começa a se apinhar de retirantes. Conta-se que dos 130 mil habitantes à época, 110 mil eram retirantes. Abrigados parcamente em barracos e galpões, tem-se as condições insalubres necessárias para a proliferação dos mais variados tipos de doença.

 

Contratado pelo governo para fornecer medicamentos para mais essa peste, Rodolfo Teófilo percorria pessoalmente os alojamentos dos retirantes para medicar os sertanejos. Quando às doenças que já existiam se somou a varíola, porém, o caos foi completo. A população mais humilde não confiava na vacinação, acreditavam que se tratava de ‘’coisa do cão’’. Apesar de tudo, tinham até certa razão na desconfiança, porque a vacina, trazida do Rio de Janeiro, constantemente causava graves efeitos colaterais, como úlceras de caráter silfílico e tumores.

Em outubro de 1878 foram registrados 5 mil casos de varíola na cidade, com 590 óbitos. Em novembro, o número chegou a 40 mil, com 9.721 mortos segundo a contagem oficial. O dia 10 de dezembro foi o mais dramático de toda a peste, com o registro de 1004 cadáveres terem chegado ao Cemitério da Lagoa Funda, episódio conhecido como ‘’noite dos mil mortos’’. De setembro a dezembro foram registradas no mesmo cemitério a chegada de 24.889 mortos.


Obras

Sua experiência com a seca, fome e sendo sanitarista, Rodolfo Teófilo expõe em suas obras literárias e muitas vezes não foi compreendido pelo que pôs em seus escritos, sendo descritivo demais nas mazelas que a população estava sofrendo. Contudo, vale salientar que era uma característica da época, escola do Naturalismo, entrar em mínimos detalhes naturais e patológicos, como também a influência que o autor teve de sua formação acadêmica.

1878 - Compêndio de Botânica Elementar, Rio de Janeiro;
1884 - História da Sêca no Ceará, 1877-1880, Fortaleza;
1890 - A Fome4, romance, Pôrto;
1888 - Monografia da Mucunã, Fortaleza;
1889 - Ciências Naturais em Contos, Fortaleza;
(?) Campesinas, poesias, Fortaleza;
1895 - Os Brilhantes, romance, Fortaleza, dois volumes;
1897 - Maria Ritta, romance, Fortaleza;
1899 - Paroara, romance, Ed. Louis C. cholowieçki, Fortaleza;
1898 - Botânica Elementar (Com Garcia Redondo), São Paulo;
1899 - Violação, novela;
1905 e 1910 - Varíola e Vacinação no Ceará, compêndio;
1905 - Violência;
1910 - O Cunduru, coletânea;
1912 - Memórias de um engrossador, Lisboa;
1913 - Telesias, versos;
1913 - Lyra Rústica, versos;
1914 - Libertação do Ceará;
1922 - O Reino de Kiato, romance, São Paulo, Monteiro Lobato & Co;
1922 - A Sedição de Juazeiro;
1922 - Sêca de 1915;
1922 - Sêca de 1919;
1924 - Os Meus Zoilos, artigos;
1927 - O Caixeiro;
1931 - Coberta de Tacos, artigos


Fatos Históricos

 13 de março de 1925 - O escritor Rodolfo Teófilo no artigo ‘A carestia da vida’, publicado no ‘Correio do Ceará’, profliga a Criminosa exportação de gêneros alimentícios.
19 de outubro de 1931 - Iniciando uma Semana Antí-Alcoólica, o vespertino ‘Correio do Ceará’ anuncia que vai publicar, da próxima edição em diante, uma série de artigos do escritor Rodolfo Teófilo. 

 21 de julho de 1932 - Falece, aos 76 anos e em Fortaleza, D. Flora Teófilo, irmã do escritor Rodolfo Teófilo, falecido no dia 2 do corrente. 

 06 de maio de 1953 - As entidades culturais do Estado comemoram a passagem do 1.° centenário do nascimento do escritor Rodolfo Teófilo, destacando-se entre as solenidades realizadas a sessão magna na Casa de Juvenal Galeno.


¹Em 1928 a revista Fanfarra exibia uma caricatura de Teófilo perfilado junto a várias de suas obras e uma garrafa de cajuína, acompanhada da seguinte legenda: “Mestre Rodolfo afamado e valente publicista que hoje faz o apostolado da campanha anti-alcoolista. Se lhe permitisse o fado seu Rodolfo intemerato transformaria esse estado no feliz Reino de Kiato”.

²Por causa disso, foi perseguido durante o governo de Antônio Pinto Nogueira Accioli, do qual era opositor, acusado de desmoralizar a autoridade que estava totalmente alheia ao sofrimento do povo cearense. Rodolfo Teófilo foi humilhado nos jornais e demitido do Liceu do Ceará.

Nos anos seguintes à sua demissão do Liceu (1905), Rodolfo Teófilo teve uma queda nos rendimentos e provavelmente passou por algum tipo de privação financeira, afinal continuava às suas próprias expensas as atividades de produção da vacina. Tal situação teria feito que ele voltasse a investir com mais afinco em suas atividades de industrial.

Entre os anos de 1905 e 1910 ele aumentaria consideravelmente a quantidade de reclames comerciais envolvendo seus produtos, anunciando-os nas páginas do Jornal do Ceará, onde divulgava também seus livros. O periódico anunciava vários de seus preparos farmacêuticos como “xarope anti-reumático”, “peitoral de angico”, “vinho de jurubeba”, “nervino Teófilo”, o “elixir de Santo Inácio”, além da famosa criação, a “cajuína”.

Tomou parte dos movimentos literários do Ceará, tendo pertencido, desde 1894, à Padaria Espiritual, entidade de fins literários e artísticos que se fundara em Fortaleza, dois anos antes, com o nome de "padeiro" Marcos Serrano.

Rodolfo no centro da foto

Foi membro fundador da Academia Cearense de Letras. É considerado um dos principais expoentes da literatura regional-naturalista do Brasil e um dos maiores nomes da literatura do Ceará. Em sua homenagem, o Centro Acadêmico de Farmácia da Universidade Federal do Ceará tem o seu nome.

³D. Raimunda Cabral Teófilo, esposa do escritor Rodolfo Teófilo, faleceu no dia 24 de dezembro de 1928.

4Seu romance de estréia e o primeiro romance cearense publicado em forma de livro, pois até então os romances eram publicados através de folhetins. Era uma história sobre uma das piores secas da história do Ceará (1877-1879), descrevendo a fome e a sede que os retirantes passavam, a morte das pessoas e também a exploração delas pelos aproveitadores da seca. A Fome foi um livro essencialmente de protesto contra a seca, a fome e o descaso das autoridades. Perseverante em tudo que começava, foi um abnegado lutador e não desistia das coisas e também não era de se calar diante das injustiças e dos descasos das autoridades públicas do Ceará. Por isso, em muitas vezes, não foi bem visto por alguns poderosos e sofreu injustas perseguições, principalmente por parte da Oligarquia dos Acioly.

Também por causa de suas aventuras amorosas foi descriminado pela sociedade da capital alencarina, principalmente devido ao seu envolvimento com uma mulher casada. Faleceu em Fortaleza, aos 79 anos.

     

Rodolfo Teófilo também virou nome de bairro em Fortaleza:


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 Fonte: Seara Wiki, Wikipédia, Batalhas da Memória: A escrita militante de Rodolfo Teófilo de Isac Ferreira do Vale Neto, http://www.dec.ufcg.edu.br e Portal da história do Ceará



sábado, 21 de janeiro de 2012

Plácido de Carvalho



Plácido Barbosa de Carvalho, nascido, a 17/01/1873, em Canindé, era filho de Bernardino Plácido de Carvalho e de Alexandrina Barbosa Cordeiro de Carvalho.

Do português Bernardino Plácido de Carvalho se soube, através do depoimento oral de Hélio Pinto Vieira, que era 1º. secretário da “Be
neficência Portuguesa Dous de Fevereiro” em 1872. Dele também se tem notícia que era sócio, em 1880, da firma “Plácido de Carvalho &
Cia.
”, proprietária da fábrica de cigarros “São Sebastião”, localizada na Rua da Palma (atual Rua Major Facundo), bem como de que era proprietário da loja de tecidos "Rocambole”, situada na Rua Formosa (atual Rua Barão do Rio Branco).


Já de Alexandrina Barbosa Cordeiro de Carvalho se sabe que era descendente de tradicional clã de Canindé. Plácido de Carvalho, que iniciara a vida profissional como caixeiro da firma “Barroso, Pinto & Cia.” constitui, em 13/02/1899, a firma individual “Plácido de Carvalho”, que será proprietária de uma loja de modas, situada na Rua Floriano Peixoto, no então nº 47.

Segundo propaganda, publicada no Almanaque do Ceará de 1905, a “Casa Plácido”, que se situa na Rua Major Facundo (no então nº 94), com entrada também pela Rua Formosa (na época, no nº 91), era, em 1904, um “Importante estabelecimento de fazendas, modas, novidades e artigos de alta fantasia”, bem como era especializada “em enxovais completos para batizados e casamentos”, sendo tudo, que nela era vendido, importado diretamente. Ali também é anunciado que os artigos para homens, senhoras e crianças, comercializados na “Casa Plácido”, eram recebidos diretamente do “Chic Parisiense e Fluminense”.



Na mesma propaganda, a “Casa Plácido” torna público que também vende artigos de uso doméstico: “da mais rica a mais modesta mobília, lavatórios, camas para casais, para solteiros e para crianças, tapetes para salas e entradas, esteiras, capachos, espelhos, jarros, cortinados para camas e portas, e cuspideiras”, assim como “bicicletas e tricycles para crianças e mais artigos concernentes ao gênero”.

Em 05/10/1914, é inaugurada a “Fábrica Nacional de Mosaicos e Telhas”pela firma Carvalho & Silva, pertencente a Plácido de Carvalho e Luiz Gonzaga Flávio da Silva. Esse estabelecimento industrial, situado na Rua Vinte e Quatro de Maio, permaneceria como propriedade dessa firma até 1922, quando passa a pertencer exclusivamente a Plácido de Carvalho, como se pode verificar no Almanaque do Ceará daquele ano.

Luiz Gonzaga Flávio da Silva, o outro proprietário do supracitado empreendimento, tornar-se-ia sócio do pai, o construtor Rodolpho Ferreira da Silva, numa nova fábrica de mosaicos a partir de 1926.

Em 1915, Plácido de Carvalho dá início a construção de imponente prédio, de quatro andares, na Praça do Ferreira (lado da Rua Major Facundo). Quando da construção desse prédio, ele é procurado por Luiz Severiano Ribeiro, que lhe propõe o arrendamento da sua parte térrea, onde pretendia instalar um cinema. Em 02/09/1917, era inaugurado o “Cine Theatro Majestic-Palace”, pertencente a firma “Ribeiro & Cia.”, nascida de uma sociedade de Luiz Severiano Ribeiro com Alfredo Salgado, em 1913.

Em 1920, a “Ribeiro & Cia.” arrendaria também os três andares superiores do supracitado prédio e instalaria um hotel denominado de “Majestic-Palace”. Esse hotel, que permaneceria em atividade até 1926, pertenceria a “Ribeiro & Cia.” até 1921, e, após a extinção dessa firma, nesse ano, continuaria a pertencer a firma individual “Luiz Severiano Ribeiro” até seu fechamento.

É oportuno lembrar que a “Ribeiro & Cia.” também instalou salões de bilhar, nesse referido prédio, a partir de 1917, como já fizera, em 1916, no “Cine Riche”.


A parceria de Plácido de Carvalho com Luiz Severiano Ribeiro, que teve início com o arrendamento do prédio do “Majestic” pelo segundo empresário, iria se repetir por duas vezes mais: quando ele constrói o prédio do “Cine Moderno”, também localizado na Praça do Ferreira, e o aluga para Ribeiro, que inaugura o seu cinema, ali instalado, em 07/09/1921, e, quando adquire, por volta de 1933, o prédio do “Cine Luz”, localizado na Praça da Estação e pertencente a “Empresa Cine Luz Ltda.”, e o arrenda para Luiz Severiano, que o reinaugura em 27/06/1933. 


O Cine Luz surgiu em 28 de março de 1931, na Rua General Sampaio 526, esquina com Castro e Silva, na Praça Castro Carreira (da Estação) numa dependência da antiga Fábrica Proença, com o filme “A dama escarlate”, da Columbia Pictures. Pertencia a Bernardino Proença Filho e José Bezerra da Silva. A Foto é de janeiro de 1943, quando estava em cartaz - 'Blackout - Nas Sombras da Noite' (Contraband - Blackout), produção inglesa, de 1940, dirigida por Michael Powell, com Valerie Hobson e Conrad Veidt. O filme foi lançado no circuito Ribeiro no dia 3 de janeiro de 1943. 

Durante a primeira Guerra Mundial, Plácido de Carvalho se casa, em Paris, com Maria Pierina Rossi, nascida em Milão (Itália), em 11/01/1889. Dessa união, não nasceriam descendentes.


Com a chegada de Pierina, ao Ceará, em 1917, o casal passou a residir na Rua Princesa Isabel. Somente em 1920, com a conclusão da construção do “Palacete Plácido de Carvalho”, mudar-se-ia ele para o Outeiro.

Conforme declaração, de 15/06/1921, arquivada na Junta Comercial do Estado do Ceará, a firma “Plácido de Carvalho” declara que atua no “gênero de comércio de fazendas e armarinho”, que se situa na Rua Major Facundo, nº 160, e que o “capital empregado no negócio” é de 200 contos de réis.
Não conseguimos identificar em que ano a “Casa Plácido” sai de atividade. No entanto, a última vez em que ela é arrolada, entre os estabelecimentos comerciais que atuam, em Fortaleza, no “ramo de modas e confecções”, no Almanaque do Ceará, data de 1925.

Com base na Lei nº 2266, de 03/09/1925, que concedia, pelo prazo de 15 anos, isenção de décimas e todos os impostos estaduais, a quem construísse vilas operárias com 100 casas ou mais, o Presidente do Estado, José Moreira da Rocha, elabora a Lei nº 2352, de 14/11/1925, que concede, a Plácido de Carvalho, isenção, por 15 anos, de impostos estaduais, menos os de consumo, para uma Fábrica de Fiação e Tecelagem que ele vier a construir em Fortaleza.

Essa isenção seria relativa à fábrica e seus produtos, ao prédio, no caso de ser próprio e para esse fim especialmente construído, ao escritório e armazéns de depósito dos produtos da fábrica, às casas de moradia de gerentes, mestres e contra mestres, bem como à vila operária
destinada à residência dos operários da fábrica.

Possivelmente para beneficiar Plácido de Carvalho, o Presidente Moreira da Rocha, elaborou a Lei nº 2354, também de 14/11/1925, pela qual é concedida isenção, por 20 anos, de impostos estaduais, sobre a construção e exploração de um grande hotel em Fortaleza.
Tal hotel deveria conter, pelo menos, 40 aposentos higiênicos e confortáveis, devendo o edifício obedecer a uma arquitetura moderna.
Essa isenção começaria a vigorar desde o dia de inauguração do hotel, cuja construção deveria ter início dentro do prazo de 24 meses, a contar da data de publicação da referida lei.

Em 1927, Plácido de Carvalho manda demolir o “Sobrado do Comendador Machado” e, no seu local, dá início a construção do “Excelsior Hotel”, que será inaugurado em 31/12/1931.
Coincidentemente, no ano que tem início a construção do “Excelsior Hotel”, Fortaleza passaria a dispor, a partir de 17/07, de um moderno hotel, o “Palace Hotel”, situado no Passeio Público e pertencente a Éfren Gondim. O “Palace Hotel” se situava no prédio onde
funcionou o “Hotel de France”, que passou por uma reforma após ter sido adquirido, por 80 contos de réis, por José Gentil Alves de Carvalho, dos herdeiros de Dário Teles de Menezes conforme Raimundo Girão.

Segundo propaganda, no Álbum de Fortaleza de 1931, o “Excelsior Hotel” era “servido por elevadores Otis”, tinha “apartamentos, para famílias e cavalheiros, com dormitórios, sala de visita, banheiro e telefone”, todos dotados de “água corrente e mobiliário de 1ª classe”. Dispunha também de “especial cozinha à brasileira e estrangeira, restaurant à La carte, american bar, vasto terraço para dancing, banquete, recepções etc., a 50m de altura, salão de barbearia e manicure e central telefônica ligada a todos os aposentos”.


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Plácido Barbosa de Carvalho faleceria a 03/06/1935, no “Excelsior Hotel”, após padecer, por seis meses de grave enfermidade (O Povo, de 05/06/1935).
Em edição de 08/06/1935, o jornal O Povo traz notícias sobre o testamento deixado por Plácido. Segundo a matéria ali publicada, ele teria deixado para Natali Rossi, seu cunhado, 50 contos de réis; para José Lucas da Silva (construtor), 10 contos; para José Borges dos Santos, três contos; e, para Francisco Lopes (gerente da fábrica de mosaicos), 15 contos.
Para sua irmã, Maria das Mercedes Fernandes Vieira, foi deixada uma pensão vitalícia de 600$000 e partes do prédio da Rua Barão do Rio Branco, nº 810, onde ela já possuía partes.
Para seus sobrinhos-netos, filhos de sua sobrinha e afilhada Denise Vieira Paiva, filha de Maria das Mercedes e Afonso Fernandes Vieira, e casada com o Tenente Gonçalo Paiva, coube os prédios da “Farmácia Oswaldo Cruz”, do “Cine Moderno”, bem como o prédio situado, atualmente, no cruzamento das ruas Alberto Nepomuceno com Rufino de Alencar (que deveriam permanecer inalienáveis e impenhoráveis) e mais 60 contos de réis, destinados à construção de um prédio na cidade do Rio de Janeiro.

Para Zaira Andersen, filha de Pierina e sua enteada, deixou Plácido de Carvalho o “Palacete Iracema” (também conhecido como “Sobrado do Pastor”), localizado na Praça do Ferreira, e um prédio situado na Praia de Iracema (ambos os imóveis gravados com as cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade).

Para Maria Pierina Rossi de Carvalho, sua esposa, além de joias e dinheiro, tocou todos os outros bens móveis e imóveis de sua propriedade, como os prédios do “Cine Majestic” e do “Excelsior Hotel”. No caso dos bens imóveis, todos deveriam atender as condições de não
alienação e não penhorabilidade.

Deixou Plácido, ainda, para a Santa Casa de Misericórdia, 100 contos de réis; para o Asilo de Alienados, 100 contos; para o Colégio da Imaculada Conceição, 100 contos; para o Instituto de Proteção à Infância, 50 contos, e, para a Escola Pio X, 50 contos. O legado deixado para estas instituições estava sob a forma de títulos da dívida pública da União, valendo, cada um, 1:000$000, (todos gravados com as cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade).

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Leia sobre o Palácio do Plácido AQUI


Crédito: Plácido de Carvalho e Luiz Severiano Ribeiro: 
“uma dupla de cinema”
Carlos Negreiros Viana



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Personalidade - Lauro Maia Teles, o cearense que criou o balanceio!


Lauro Maia Teles (Fortaleza, 06/11/1913, Rio de Janeiro - 05/01/1950)

Arquivo Nirez
  
Nascido em Fortaleza, desde cedo se interessou pela música folclórica de sua terra, realizando diversas pesquisa sobre o tema. Foi o primeiro a tentar urbanizar ritmos locais com o lançamento do balanceio ("Marcha do Balanceio", gravada por Joel e Gaúcho, "Tão Fácil, Tão Bom", interpretada pelos Vocalistas Tropicais em meados da década de 40). No começo da década de 40, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde tocou em cassinos da cidade. Sua primeira composição, “Eu Vi um Leão”, de 1942, foi gravada pelo grupo Quatro Ases e Um Curinga, que só viria a fazer sucesso dois anos depois, com outra marcha do músico: “Trem de Ferro”. Com o cunhado Humberto Teixeira, compôs “Só uma Louca Não Vê”, sucesso na voz de Orlando Silva, em 1945. Após sua morte, em 1950, suas músicas continuaram sendo gravadas e fazendo sucesso – Carmélia Alves gravou “Trem ô Lá Lá”, outra parceria com Teixeira, e Raul de Barros, o choro “Faísca”. Até João Gilberto andou gravando suas canções, como em “Trem de Ferro”, interpretada pelo baiano em 1961.



 

Lauro Maia e seu amigo Aleardo Freitas - Arquivo Nirez

Nascido em Fortaleza, Ceará, em 06 de novembro de 1913, ano de transição na vida política cearense, com derrubada de governantes (1912 e 1914) e o surgimento de muitas inovações. Lauro Maia participou intensamente da vida cultural da cidade. No piano da mãe, instrumento indispensável nas casas de classe média daquele tempo, Lauro ensaiou seus primeiros passos como músico e compositor. Foi de sua própria genitora que o garoto recebeu as primeiras aulas de teoria musical. Sua mãe era professora de teoria musical. Ainda com calças curtas, cursava o antigo ginásio, com apenas 13 anos, quando começou a apresentar-se, tocando piano no Cine-Teatro Majestic, em Fortaleza. Mais tarde, com o adoecimento do pianista titular, passou a substituí-lo.

 
Casa onde Lauro Maia nasceu (a da seta) na Avenida Visconde de Cauhype, hoje Avenida da Universidade, nº 1946, essa casa vizinha é a do Colégio Fortaleza, depois Clínica do Dr. Godoy - Arquivo Nirez

Em 1935 começou a trabalhar na Ceará Rádio Clube (1935/1941) dirigindo o programa "Lauro Maia e Seu Ritmo". A rádio era a única emissora de rádio que havia e que divulgava a música brasileira e de fora. Na mesma época, criou juntamente com Paulo Pamplona, Ubiraci de Carvalho, Roberto Fiúza e Antônio Fiúza, o Quinteto Lúpar. A consagração veio em 1937, através de um concurso de música carnavalesca, onde obteve primeiro lugar em duas categorias - marcha e samba - com as músicas Eu Sei O Que É e Eis O Meu Samba . O julgador era ninguém menos do que o já consagrado e exigente Ari Barroso. Em 1938, assumiu a direção artística da rádio e passou a dirigir a Orquestra Jazz PRE-9. Em 1942 compôs o samba Cara de judeu , grito de guerra da Escola de Samba Lauro Maia (1942/1945), que desfilou pela primeira vez, tornando-se grande sucesso em Fortaleza. Em 1943, o grupo Quatro Ases e Um Coringa gravou o xote Fa-Ran-Fun-Fan! e a marcha Trem de Ferro, maior sucesso da sua carreira e que seria regravada em 1961, dois anos após sua morte, também com grande sucesso, por João Gilberto. Ainda em 1943, Orlando Silva gravou o samba Febre de Amor. Em 1944, o Quatro Ases e Um Coringa gravou a marcha Palminha de Guiné. Ainda nessa época, freqüentou a faculdade de Direito vindo a abandoná-la mais tarde para fixar-se definitivamente no Rio de Janeiro.

 
Arquivo Nirez

Em 1945, casado com Djanira Teixeira, irmã de Humberto Teixeira, transferiu-se em definitivo para o Rio de Janeiro, para viver exclusivamente de suas composições, já consagradas na época pelos maiores nomes da música. Passou a se apresentar em casas noturnas e no Cassino da Urca. Embora o forte dele não fosse letra, pois era mais músico que letrista, a maior mudança que poderia acontecer ao chegar ao Rio foi aliar-se ao cunhado, Humberto Teixeira. Logo que chegaram, a mulher de Lauro Maia naturalmente entrou em contato com o irmão Humberto, e eles, parentes e compositores, acabaram se conhecendo no Rio. Foi aí que Humberto passou a burilar as letras do Lauro Maia, modificou, melhorou muito as composições. Muitas foram corrigidas ou adaptadas. Ficaram muito amigos e Humberto Teixeira se tornou seu maior parceiro. Lauro Maia transferiu-se para o rio com um novo ritmo na bagagem para ser lançado no mercado fonográfico. Ele trazia o balanceio (Eu Vou Até de Manhã), uma mistura dos ritmos típicos do nordeste com a marchinha carioca. O sucesso foi muito grande. No carnaval seguinte Lauro Maia fez uma adaptação da música para o ritmo carnavalesco, e quando fez a adaptação botou também o nome do Humberto como compositor. Humberto só viu quando a música já estava gravada. Humberto contava que sempre deixou bem claro que a música não era dele, Lauro é que havia feito uma gentileza, uma parceria graciosa. Em compensação, muitas músicas de Lauro Maia foram lançadas por iniciativa do Humberto Teixeira, colocando letra. E em todas, mesmo naquelas lançadas após o falecimento de Lauro Maia, que Humberto Teixeira tinha as partituras e poderia lançar como se fossem só dele, ele sempre respeitou o nome do Lauro Maia. Foi a parceria mais profícua. Depois, Lauro conheceu Carlos Barroso, fez musica com vários outros parceiros, como também fazia sozinho. Mas era bem menos. Lançava três, quatro músicas com Humberto Teixeira, pra uma que lançava só, ou com outro parceiro.



 
Ainda em 1945, foi contratado pela Rádio Tupi. No mesmo ano, Orlando Silva gravou outro sucesso de sua autoria em parceria com Humberto Teixeira, Samba de Roça.

No ano seguinte, a dupla teria outra composição gravada, desta vez por Joel e Gaúcho, A Marcha do Balanceio. Suas composições, a partir do lançamento de Marcha do Balanceio, gravada por Joel e Gaúcho, ficariam marcadas por esse novo ritmo. Em 1946, Ciro Monteiro gravou o samba Deus Me Perdoe, parceria com Humberto Teixeira, e os Vocalistas Tropicais gravaram o balanceio Tão Fácil, Tão Bom. O primeiro é considerado uma das obras primas do seu repertório, por boa parte da crítica. No mesmo ano, retornou à Fortaleza por motivos de doença, lá permanecendo por dois anos. Em 1948, voltou para o Rio de Janeiro. Em 1950, Carmélia Alves gravou o baião Trem O Lá Lá, da sua parceria com Humberto Teixeira. No mesmo ano, Stellinha Egg gravou da mesma dupla o baião Catolê e Raul de Barros o choro Faísca.


 

Lauro e seu amigo Euclides Santana - Arquivo Nirez

Luiz Gonzaga, atraído pelo balanceio, chegou a propor formar parceria com Lauro Maia, mas este, porém, indicou seu cunhado Humberto Teixeira. O balanceio foi considerado de difícil execução para os percussionistas. Foi através de Lauro Maia que nasceu a dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e o baião tomou conta do mundo. Lauro Maia mesmo, nunca tocou baião. Não era a praia dele, pois ele não tinha conhecido a manifestação original do baião em suas pesquisas. Lauro achava que o balanceio era mais interessante. E é quase o mesmo do baião. A diferença só é o que eles chamam de ritmo quebrado. Depois que Lauro Maia morreu, teve algumas de suas músicas lançadas como baião por Humberto Teixeira.

Após sua morte, em 1950, suas músicas continuaram sendo gravadas e fazendo sucesso. Os que melhor interpretaram suas obras foram os conjuntos cearenses Vocalistas Tropicais e Quatro Ases e Um Coringa.

Lauro Maia foi um compositor versátil, eclético, que não se prendeu a radicalismos bairristas nem aos apelos externos. Fez a fusão do carioca com o cearense, do romântico com o jocoso, do clássico com o banal, produzindo peças da mais legítima música popular brasileira. Música, porque era catedrático em teoria e em sensibilidade; popular, porque atingia a massa; e brasileira porque sabia fazer cheirar à terra tudo o que criava. Pesquisador incansável e estudioso diligente, procurou adaptar os ritmos populares aos sons urbanos, encantando o Brasil com sambas, balanceios, baiões, batuques e miudinhos. Gostava muito de explorar o folclore. Teve vários casos de músicas influenciadas pela cultura popular, músicas regionais, e outras que fez adaptações. Cantava muito o trem, a estação, regionalidades. Faleceu prematuramente no dia 05 de janeiro de 1950, com 36 anos e dois meses, vítima de tuberculose, no Rio de Janeiro.


 
Arquivo Nirez

Embora fosse uma celebridade em sua época, Lauro Maia estaria completamente esquecido nos dias de hoje, se não fosse o louvável empenho do compositor Calé Alencar e do pesquisador Nirez no sentido de resgatar a sua obra para a posteridade. Em sua homenagem, Fortaleza lhe presenteou com uma rua.

Imagem Google Earth

Em 1993 foi apresentado no Teatro José de Alencar em Fortaleza o show "Lauro Maia - 80 anos", em sua homenagem, com o lançamento de um CD com composições de sua autoria interpretadas, entre outros, por Vocalistas Tropicais, Gilberto Milfont, Falcão, Fagner e Ednardo.




Para a maioria das pessoas, o nome de Lauro Maia talvez não se associe, imediatamente, a música. Afinal, entre tantos e tantos autores, quem seria mais este compositor de obra restrita a uma época de nossa MPB! Entretanto, se for lembrado que há 30 anos, em seu terceiro elepê na Odeon, o baiano João Gilberto incluiu uma deliciosa canção chamada "Trem de Ferro", talvez a memória se avive e ao menos os que tem maior interesse pela nossa cultura popular se liguem a esse compositor cearense, que morreu ainda jovem e cuja obra mereceu o mais completo levantamento que só um estudioso e pesquisador apaixonado como Miguel Ângelo de Azevedo - o Nirez poderia fazer. "O Balanceio de Lauro Maia" (Secretaria da Cultura, Turismo e Desporto do Ceará, 107 páginas, 19 ilustrações, 1991), acrescenta-se a bibliografia de nossa MPB. 


Lauro Maia, embora tendo vivido a maior parte de sua vida em Fortaleza tem ao menos duas ligações com o Paraná. Seu filho, Lauro, 45 anos, casado com Vilma, paranaense de Londrina, mora naquela cidade, onde nasceram os filhos Tatiana (1977) e Lauro Maia Telles Neto (1979). A cantora Stelinha Egg, a nossa vocalista que mais se projetou nacionalmente, há 41 anos, gravou postumamente uma das músicas de Lauro "Catolê", criada sobre motivos populares da região de Cariri. Humberto Teixeira (1916-1979), cunhado e o principal parceiro de Lauro Maia, fez algumas alterações sobre a canção original entregando-a ao maestro Lindolfo Gaya (1921-1987), que acompanhou a Stelinha, sua esposa, na gravação feita pela Capitol em 1950 (posteriormente a Sinter reeditaria o mesmo 78 rpm). 


Sobre o Livro

Nirez não se limitou apenas a fazer a sua biografia: estudou cada uma das músicas, comentou as letras, fez observações interessantíssimas. Também a época em que Lauro viveu - desde o ano de seu nascimento - é rememorada. No Rio de Janeiro, para onde foi em 1945 - quando já haviam sido aprovadas sete de suas músicas (uma delas por Orlando Silva, "Eu Via a Chica Boa"), Lauro conheceu o seu cunhado, Humberto Teixeira, nascendo uma grande amizade e parceria, entre as quais dois sucessos carnavalescos - "Só uma Louca não Vê" e, especialmente, "Deus me Perdoe" (1946, na voz de Ciro Monteiro). 


Trabalhando como pianista na editora dos irmãos Vitale, atuou também em cassinos e algumas rádios. Criador de ritmos - o "balanceio" seria sua marca registrada - Lauro poderia ter sido parceiro de Luiz Gonzaga (1912-1989). Conta Nirez: - "Quando começou a lançar os ritmos no Nordeste como o balanceado, a ligeira e o miudinho, o cantor, acordeonista e compositor Luiz Gonzaga que também vinha lançando ritmos nordestinos como o xamego e o calango, tentou com ele fazer parceria no baião, mas Lauro, avesso a responsabilidade junto a outras pessoas, pois gostava de compor só, ou com Humberto Teixeira que burilava suas peças, encaminhou Gonzaga a Humberto, como advogado com escritório montado na Avenida Calógeras. E foi assim que nasceu o baião urbanizado". Se não tivesse sido modesto, talvez Lauro Maia não seria hoje um nome quase esquecido. Felizmente, Nirez o retirou deste quase anonimato!!!




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Fontes: Nirez, Clique Music, Aramis Millarch (Estado do Paraná) e Viva Terra