Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Raízes do Coronelismo no Brasil e a revolução de 30




A pedido de Padre Cícero Romão Batista, primeiro Prefeito de Juazeiro do Norte (na verdade ele foi intendente-nomeado), reúnem-se nesta cidade, em outubro de 1911, chefes políticos de 17 Municípios do Ceará, para instituírem o que ficaria conhecido como o “Pacto dos Coronéis”.
Visava o referido pacto além de outros objetivos os de dar sustentação política no estado ao homem considerado o “dono do Ceará”, Antonio Pinto Nogueira Acióli.

Desse encontro resultou o episódio conhecido como sedição de Juazeiro, quando os Jagunços de Floro Bartolomeu (Braço Militar de Padre Cícero), invadem Fortaleza em 14 de março de 1914 e derrubam o Presidente do Estado, instituído pela política das Salvações, Coronel Marcos Franco Rabelo.

Fora justamente para fazer contra-ponto ao poder dos “Coronéis”, principalmente no Nordeste (e habilmente usados pelo senador gaúcho Pinheiro Machado), que o Presidente Hermes da Fonseca instituiu a “Política das Salvações”, que consistia na troca de comando nos estados, de velhos oligarcas por indicados pelo Presidente.

Na década de 30, dos 1800, o então ministro da Justiça, Padre Diogo Antônio Feijó criou a “Guarda Nacional”; para manter a ordem no país, defender o latifúndio e a monarquia escravista. Formada principalmente por membros da elite agrária, tendo sua maior patente de comando a de “Coronel”. Devido o preço das patentes vendidas pelo governo ser muito alto, só os grandes fazendeiros podiam comprar, e consequentemente ser considerados, “Coronéis”.

Isso aumentou o poder dos latifundiários brasileiros, pois lhes dava o direito de ter sob seu comando uma força militar particular. Estava formada assim a base para o coronelismo no Brasil, evidenciado sobremaneira no Nordeste e principalmente durante a República Velha, (1889 – 1930).

 

Crédito da fotomontagem: Educacimba

Em consequência das humilhações dos “Coronéis” imposta ao povo nordestino, alguns migraram para lugares como Belo Monte, mais conhecido como Arraial de Canudos, que em 1893 reunem-se, em volta de Antônio Conselheiro, milhares de nordestinos enfrentando a fúria da recém proclamada República, e a desconfiança da Igreja Católica, (sendo posteriormente dizimados por forças da União), ou se juntavam a bandos armados como os de Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, imortalizado no filme de Ariano Suassuna, o Auto da Compadecida).

Grandes e pequenos latifundiários (donos de terras improdutivas), os “Coronéis” foram auxílio indispensável à manutenção de poder pelas oligarquias, locais, estaduais e federais, quando eles mesmos não se confundiam com tais. Comprometiam-se com a eleição de determinado candidato, usando para angariar favores e vantagens os votos de seu “curral eleitoral”, (os chamados “Votos de Cabresto”, pois os eleitores votavam em quem o seu chefe, o Coronel, mandava, ou assinava a cédula de votação sem saber às vezes nem em quem estava votando).

Quanto ao voto, na primeira constituição brasileira outorgada, (ou imposta ao povo), em março de 1824 estipulava que o voto seria censitário, ou seja, para votar ou ser candidato o cidadão deveria ter determinada renda anual.

Exemplo:

Para votar o “cidadão” teria de ter renda anual de cem mil reis.
Para ser Deputado Federal a renda estipulada era de Quatrocentos mil reis.
Para ser Senador a quantia estipulada era de Oitocentos mil reis.

Já na primeira constituição republicana ficou estabelecido que o voto não mais seria censitário, passando a ser universal. Todo “cidadão” maior de 21 anos podia votar, (excluindo-se mulheres, analfabetos, mendigos...).

Mas, o voto ainda não era secreto, podendo ser, como era ,manipulado pelos “Coronéis”.

Em luta pela hegemonia política do estado da Paraíba encontrava-se o então Presidente do Estado, sobrinho do ex-Presidente da República Epitácio Pessoa, Dr. João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, ao grupo do “Coronel” Pereira Lima, chefe político da Cidade de São José de Princesa. Fato que confirmava o poder dos “coronéis” no sertão do Nordeste e que culminou tragicamente, em 26 de Julho de 1930, no Recife com a morte do Advogado e Presidente do Estado Dr. João Pessoa. Assassinado na confeitaria Glória pelo também advogado simpatizante do “Coronel” Pereira Lima, Dr. João Dantas.

Foi o assassinato de Dr. João Pessoa o estopim da “Revolução de 30”, a qual completa 82 anos, marco divisor na história política do Brasil...

Santana Junior

"Na campanha política de 2012, (prefeitos e vereadores), muito tem se falado de "coronéis", principalmente acusações mútuas entre a maior "oligarquia"do estado hoje: Família Ferreira Gomes e a Prefeita de Fortaleza, Luiziane Lins. Mas, como começou no Brasil a história do coronelismo? Porque foi tão marcante ao ponto de se traçarem paralelos até hoje? Esse é um artigo de autoria nossa, espero que os meus diletos amigos gostem. Dedicatória especial ao Adriano Duarte e a Leila Nobre (Fortaleza Nobre).



Agradeço ao amigo Santana Júnior, texto maravilhoso!



domingo, 2 de setembro de 2012

Uruburetama



Por se tratar de uma cidade histórica, Uruburetama apresenta nas histórias contadas por antigos, diversos mistérios. Um desses mistérios relata uma peste que assolou a cidade provavelmente no fim do século XIX ou começo do século XX, não sabendo-se ainda a data precisa. Conta-se da morte de milhares tendo o antigo cemitério não comportado tantos corpos. Esses corpos tiveram de ser enterrados numa vala comum em algum lugar da Serra do Junqueira, nos arredores da sede municipal, não sabendo-se a localização precisa dessa vala. Relata-se que foi dessa época a realocação dos corpos do antigo cemitério, ao redor da Igreja de São João de Uruburetama, para o atual cemitério, após os moradores perceberem a necessidade de um novo cemitério.


Chamou-se inicialmente Serra dos Corvos, Arraial, São João da Uruburetama, São João do Arraial e Arraial. Suas origens, pelo menos no que se refere ao período inteiramente indígena, remontam ao início do Século XVII, consignando-se as primeiras referências em janeiro de 1607, quando por essa montanha erma transitaram os padres Francisco Pinto e Luiz Figueira. Seriam as terras, segundo refere o padre Figueira, aquelas nas quais deveriam estar reunidas todas as pragas do Brasil. Em termos de colonização  essas origens se modificam, passando a oferecer referências cujos registros datam do Século XVIII.


O município situa-se na antiga sesmaria concedida ao capitão-mor Bento Coelho de Morais, em 19 de novembro de 1720.
Essas terras foram doadas ao padre Estevão Velho Cabral de Melo para patrimônio sacerdotal por Manuel Pereira Pinto, tenente-coronel, que as recebera de herança do capitão-mor Bento Coelho de Morais, seu sogro.
Em 1761, surgiu, pela primeira vez, o topônimo "Sítio Arraial", num documento em que o padre Estevão revertia as terras aos seus doadores, reservando para si apenas um quarto de légua.
Em 1878, os padres João Francisco Dias Nogueira e José Tomaz de Albuquerque concluíram a atual igreja matriz graças a doações do povo.
Em 1º de agosto de 1890, pelo Decreto 34, o povoado foi elevado a vila com o topônimo de São João do Arraial. Porém, no ano seguinte, por termo judicial, o município foi extinto e anexado aos municípios de São Francisco (atual Itapajé) e Itapipoca.
Em 28 de julho de 1899, através da Lei 526, o município foi restaurado com a denominação de São João de Uruburetama.
A vila foi elevada à categoria de cidade com a denominação de Arraial em 1931, em virtude do Decreto Estadual 262, de 28 de julho de 1931. No entanto, essa denominação foi substituída pela de Uruburetama em 1938. Na época, o município compunha-se dos distritos: Uruburetama (sede), Curu (atual São Luís do Curu), Natavidade (Cemoaba), Riachuelo (atual Umirim) e Tururu, todos independentes atualmente.
Atualmente o município compõe-se dos distritos da Sede, Santa Luzia, Itacolomy, Retiro, Severino, Canto Escuro, Bananal e Tamboatá.


Os primeiros indícios de evolução política provêm da criação do Distrito da Paz, evento que tem apoio a Lei nº 1.277, de 18 de setembro de 1869, a primitiva denominação. Havia como advento da Lei nº 1.362, de 5 de setembro de 1874, transferindo-a para a jurisdição de São Francisco (Itapajé). Em Lei nº 1.771, de 19 de novembro de 1879, dá-se o retorno do juizado para o Termo de Imperatriz. Retorna ao Termo de São Francisco, conforme Dec-Lei nº 17, de 11 de abril de 1890, criando-se no ano seguinte o próprio Termo Judiciário (1891).
A elevação do povoado a categoria de Vila provêm do Dec-Lei nº 34, de 1º de agosto de 1890, tendo sido instalado a 19  do mesmo mês e ano.

Igreja Matriz  - Gustavo Elienay

Igreja Matriz em Uruburetama - Foto de Fco Edson Mendonça

As primeiras manifestações de apoio eclesial provêm de documento firmado por Pedro José do Monte, datado de 23 de junho de 1824, doando de suas terras trezentas braças em quadro, para construção da capela, cujo orago teria como padroeiro São João Batista. Esse primitivo nicho permaneceu inalterado, pelo menos até que a 31 de agosto de 1843, por decisão do padre Luiz Antônio da Rocha Lima, vigário da Freguesia de São Bento de Amontada, concede-se licença a Manuel Barbosa para angariar donativos em benefício da construção de nova capela. Essa Segunda capela, cuja finalidade seria reconstruir o primitivo templo, adaptando-o igualmente ao assentamento da Igreja-Matriz, logrou-se alcançar o sucesso programado.

Sua população, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2010, é de 19 765 pessoas.

"Uruburetama" é uma palavra tupi que significa "terra dos urubus", através da junção dos termos uru'bu ("urubu") e retama ("terra").


Fontes: http://www.ceara.com.br e Wikipédia


domingo, 29 de julho de 2012

José de Alencar - O querido Cazuza




José Martiniano de Alencar nasceu em Messejana (na época Mecejana), no dia 1º de maio de 1829.

Filho do padre e ilustre senador do império, José Martiniano Pereira de Alencar, irmão do diplomata Leonel Martiniano de Alencar (Barão de Alencar), e pai de Augusto Cochrane de Alencar. José de Alencar nasceu
de uma união ilícita e particular do padre com a prima Ana Josefina de Alencar. Quando criança e adolescente, era tratado em família por Cazuza, mais tarde, adulto, ficou conhecido nacionalmente como José de Alencar, um dos maiores escritores românticos do Brasil.
Foi casado com Georgiana Cochrane*, filha de um médico inglês, teve seis filhos (Augusto, Clarisse, Ceci, Elisa, Mário e Adélia). Para eles, deixou a propriedade em Fortaleza. Para a literatura nacional, o olhar encapelado e indagador..


Quando José de Alencar nasceu, Mecejana era um município vizinho a Fortaleza. A família transferiu-se para a capital do Império do Brasil, Rio de Janeiro, pois José Martiniano Pereira de Alencar, assumiu o cargo de senador do Rio de Janeiro em 1830 e José de Alencar, então com onze anos, foi matriculado no Colégio de Instrução Elementar. Em 1844, matriculou-se nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São Paulo, começando o curso de Direito em 1846. Fundou, na época, a revista Ensaios Literários, onde publicou o artigo 'Questões de estilo'. Formou-se em direito, em 1850, e, em 1854, estreou como folhetinista no Correio Mercantil. Em 1856 publica o primeiro romance, Cinco Minutos, seguido de A Viuvinha em 1857. Mas é com O Guarani em (1857) que alcançará notoriedade. Estes romances foram publicados todos em jornais e só depois em livros.



183 anos sem José de Alencar

O Brasil tem que cara? No princípio eram índios, depois brancos colonizadores, que além da força bruta e de outra língua, trouxeram negros escravos. Da mistura, surgiram caboclos, mulatos, cafuzos e pardos. Hoje somos também nortistas e sulistas; urbanóides e matutos; descendentes, radicados, assentados: brasileiros, enfim.

Se com o tempo esse mosaico revelou alguma forma, foram necessárias mãos que ordenassem suas peças. Entre as mais notórias destacaram-se as do escritor cearense José de Alencar. De pena em punho, Alencar escreveu obras importantes como “O Guarani”, “Iracema”, “O Gaúcho”, “O Sertanejo” e várias outras que não apenas consolidaram a estética romântica no Brasil, mas, em última análise, contribuíram significativamente para a construção de uma identidade nacional.




Tomando para si a ambiciosa tarefa de desenhar um amplo panorama da realidade no Brasil, o escritor resgatou de forma pioneira temas e motivos locais, desde costumes da sociedade burguesa do Rio de Janeiro (onde morou boa parte da vida) até cenários e personagens indianistas e regionais, descritos com vocabulário e sintaxe típicos do país, em oposição ao estilo lusitano vigente na época.

Nascido em um sítio em Messejana, em 01 de maio de 1829, José Martiniano de Alencar foi fruto da união proibida entre seu pai homônimo (então padre e deputado pela província do Ceará) e a prima deste, Ana Josefina de Alencar - “por fragilidade humana", como o próprio declarou no testamento. Dos oito filhos, foi o primogênito, apelidado de Cazuza (que significa “moleque”). Depois dos primeiros anos da infância, mudou-se definitivamente com a família para o Rio de Janeiro, onde Alencar, o pai, assumiu posição no Senado. Em 1944, o jovem transfere-se para São Paulo, para cursar a Faculdade de Direito daquele Estado. Introvertido, mantinha-se alheio à rotina boêmia vivida pelos colegas do curso preparatório, entre eles um que também ficaria famoso: Álvares de Azevedo.




O escritor José de Alencar consolidou a estética romântica no Brasil e contribuiu significativamente para a construção de uma identidade nacional




Tinha 17 anos incompletos quando matriculou-se na Faculdade, já ostentando a característica barba cerrada, que acentuava ainda mais seu semblante taciturno. Na Academia, conheceu clássicos da literatura mundial e seus autores, entre filósofos, poetas, romancistas e tratadistas da retórica e da política. Devora tudo com a avidez dos grandes, consolidando uma base de conhecimentos fundamental para sua trajetória literária - está sempre conciliada com a prática jurídica, a qual nunca abandonou.


Em 1847 o pai Senador, muito doente, voltou ao Ceará, assistido pelo filho. Na ocasião, o jovem Alencar conheceu os primeiros sintomas da tuberculose, mazela que o acompanharia por 30 anos. O reencontro com a terra natal trouxe recordações de infância e fixou perenemente na memória do escritor a paisagem local. É esse cenário nordestino que aparece em um de seus romances mais importantes: Iracema. A estréia na literatura ocorreu pelas vias do jornalismo, quando se inicia como folhetinista no Correio Mercantil. Às crônicas seguiram-se suas primeiras obras: Cinco Minutos (1856) e A Viuvinha (1857) - ambos romances urbanos. Mas é com O Guarani , também lançado em 1857, que José de Alencar alcança notoriedade definitiva.




Ao passo que o índio Peri encarna o arquétipo do herói romântico - incorruptível, bom, belo e justo -, sua possível união amorosa com a jovem branca Cecília, sugerida ao final do livro, representa a miscigenação fundadora de toda a sociedade brasileira. Mas não é preciso ir tão longe para explicar o sucesso de público da obra. Antes de mais nada, trata-se de uma história de amor, permeada de aventura e transcorrida em cenário selvagem e exótico. Ao lado dos romances “Iracema” (a virgem dos lábios de mel que inspirou duas esculturas em Fortaleza) e “Ubirajara”, “O Guarani” responde pela inaugura da temática indianista na produção de Alencar.


Os romances alencarinos podem ser divididos ainda em outras três grandes temáticas: Urbano, que continuou sendo explorado em obras como “Lucíola”, “Senhora” e “Diva”; Histórico, no qual se encaixam trabalhos como “As Minas de Prata” e “A Guerra dos Mascates”; e Regionalista, com “O Gaúcho”, “O Sertanejo” e outros. Escreveu ainda algumas peças de teatro. Simultaneamente à carreira literária, Alencar permaneceu atuante no jornalismo e, posteriormente, na política - áreas em que se destacou pela personalidade polêmica (nesta última, porém, do lado Conservador, ao contrário de seu pai).


Crítico implacável da censura e defensor ferrenho de uma cultura nacional, não poupou sequer Dom Pedro II. Em um episódio famoso, Alencar ataca duramente a abordagem à temática indianista feita no poema épico “A Confederação dos Tamoios”, de Gonçalves de Magalhães, que lança mão de um personagem índio para tecer loas à dinastia monárquica portuguesa. O lançamento do livro havia sido integralmente apoiado pelo Imperador, que por tabela não escapou às alfinetadas de Alencar.

A rixa perdurou durante toda a vida política de Alencar, iniciada em 1861 (quando foi eleito Deputado Geral pelo Ceará, reelegendo-se outras três vezes). Chegou ao cargo de Ministro da Justiça (1868) e só não foi Senador, no ano seguinte, porque teve o nome vetado por Pedro II. Na biografia “O Inimigo do Rei”, escrita pelo jornalista Lira Neto, uma passagem deixa clara a dimensão da querela. Por ocasião da morte** de Alencar, em 1877, vítima de tuberculose, o monarca chega a soltar algumas palavras elogiosas ao talento do escritor, porém sem perder a provocação final: “mas ele era também um homenzinho bem malcriado!”.

Muito embora não haja maior atestado de credibilidade moral do que o insulto do próprio Imperador, mais certeiras foram as palavras do colega Machado de Assis, citando uma passagem de “Iracema”: “(...) a posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro, e que ao contrário da que emudeceu na novela, repete e repetirá o nome da linda tabajara e do seu imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra”.


*A vida amorosa



Aos 25 anos, Alencar apaixonou-se pela jovem Chiquinha Nogueira da Gama, herdeira de uma das grandes fortunas da época. Mas o interesse da moça era outro: um rapaz carioca também muito rico. Desprezado, custou muito ao altivo Alencar recuperar-se do orgulho ferido. Somente aos 35 anos ele iria experimentar, na vida real, a plenitude amorosa que tão bem soube inventar para o final de muitos dos seus romances. Desta vez, paixão correspondida, namoro e casamento rápidos. A moça era Georgiana Cochrane, filha de um rico inglês. Conheceram-se no bairro da Tijuca, para onde o escritor se retirara a fim de se recuperar de uma das crises de tuberculose. Casaram-se em 20 de junho de 1864. Muitos críticos vêem no romance Sonhos d'ouro, de 1872, algumas passagens que consideram inspiradas na felicidade conjugal que Alencar parece ter experimentado ao lado de Georgiana.


**A Morte


Em 1876, Alencar leiloou tudo o que tinha e foi com Georgiana e os seis filhos para a Europa, em busca de tratamento para sua saúde precária. Tinha programado uma estada de dois anos. Durante oito meses visitou a Inglaterra, a França e Portugal. Seu estado de saúde se agravou e, muito mais cedo do que esperava, voltou ao Brasil.

A pesar de tudo, ainda havia tempo para atacar D. Pedro II. Alencar editou alguns números do semanário 'O Protesto' durante os meses de janeiro, fevereiro e março de 1877. Nesse jornal, o escritor deixou vazar todo o seu antigo ressentimento pelo imperador, que não o havia indicado para o Senado em 1869.

Mas nem só de desavenças vivia o periódico. Foi nele que Alencar iniciou a publicação do romance Exhomem - em que se mostraria contrário ao celibato clerical, assunto muito discutido na época. Escondido sob o pseudônimo Synerius, o escritor faz questão de explicar o título do romance Exhomem: "Literalmente exprime o que já foi homem".

Alencar não teve tempo de passar do quinto capítulo da obra que lhe teria garantido o lugar de primeiro escritor do Realismo brasileiro. Em 12 de dezembro de 1877, morre no Rio de Janeiro, aos 48 anos, sucumbido pela tuberculose (doença que o acompanhara por cerca de 30 anos). Ao saber de sua morte, o imperador D. Pedro II teria se manifestado assim: "Era um homenzinho teimoso''. Mais sábias seriam as palavras de Machado de Assis, ao escrever seis anos depois: "... José de Alencar escreveu as páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura. O futuro não se engana'' .


Créditos: Diário do Nordeste, Culturabrasil.pro.br e Jornal da Poesia

sábado, 21 de julho de 2012

Velho chefe índio




Férias escolares. Início da década de cinquenta. Estada em Caucaia, na residência dos tios Joanito e Clarice. Rua Coronel Correia, número 406, vizinha à casa do tenente Edson da Mota Correia, amigo daqueles meus familiares.
Aventura sensacional para qualquer moleque de então.
Idas à Bodega do Seu Alves, casado com Dona Odete e pai de Maria de Nazaré, comprar broa, bulim, quebra-queixo, mariola enrolada em palha de bananeira, suspiro, filhó e demais guloseimas.
Visitas a Seu Petrônio, tabelião, com morada e cartório no destacado casarão na entrada da cidade, para ouvi das histórias de sua terra natal, Uruburetama. Nelas, até Lampião, desejoso de invadir o município, não o fez por temer os uruburetamenses.
Artista na marcenaria e por todos requisitado, Seu João, marido de Dona Neném, presenteou-me com a miniatura de ônibus, confeccionado em madeira e flandre, cópia dos verdadeiros da Empresa Vitória que, até hoje, atende aos caucaienses.

Manhã cedo, a chocalhada das tropas de jumentos dos carvoeiros, vendendo carvão e lenha de porta em porta, alvoroçava a meninada. Com permissão dos tangedores, os jegues já aliviados da carga davam-nos montaria. Desde a Cancela de Fiscalização de Trânsito, o então popular “Pau-do-guarda”, até o final da via principal.
Emoção maior coube a dois fatos outros. Somente vistos em filmes do faroeste e, ali, realidade. Um Rifle Winchester 44, conhecido como “Papo Amarelo”, pertencente ao tenente Edson e índios verdadeiros da Tribo Tapeba.
Diariamente, alguns nativos daquela aldeia vinham ao Mercado Público.
À frente do grupo, um idoso, postura e passos firmes, comandava-o. Estatura mediana, porte atlético, cabelos esbranquiçados, tez queimada pelo Sol, olhar sereno e tranquilo. Uma espécie de cocar, com faixa de palha colorida, envolvia-lhe a cabeça e fixava algumas penas multicores. Somavam-se a ele os colares elaborados com sementes de plantas e dentes de animais e duas listras paralelas, em cores amarela e vermelha, pintadas na face, desde o centro de uma bochecha até ao da outra.
O grupo mercadejava caranguejos, mocororó - bebida fermentada de caju que produziam, frutas e artefatos de palha de carnaúba, como abanadores para fogões e fogareiros, cestos, urus, esteiras, vassouras, espanadores e demais utensílios caseiros usados à época, que confeccionavam.
Por mais de uma vez, quando tia Clarice adquiriu seus produtos, o velho chefe índio passou a mão em minha cabeça e desejou-me muita sorte na vida.
De volta às aulas, no Colégio Lourenço Filho, a professora Antonieta Acioly determinou para todos da classe a feitura da redação “Minhas férias”.
Nosso trabalho mereceu a leitura pela mestra e os colegas queriam saber tudo sobre aqueles ancestrais indígenas.
Creio, daí, o nascedouro da estima que empresto aos causos, causoeiros e contadores de histórias.

                                                                                                                                                               Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.
  

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Senador Pompeu


Antiga Estação Ferroviária de Senador Pompeu - Arquivo IBGE 1959

Suas origens remontam ao Século XVIII, quando por Sesmaria obtiveram terras os colonizadores Tomé Calado Galvão e Nicolau de Souza, consoante escritura datada de 23 de março de 1723. Essas terras constavam, individualmente, de dois lotes encravados nas margens do rio Codiá, contendo cada uma três léguas de fundo por uma de frente. As primeiras residências formam-se em torno da Casa-Grande, na fazenda pertencente a Tomé Carvalho, nascendo dessas moradias o Arraial do Codiá. Com o desenvolvimento das atividades agropastoris, evoluiu igualmente a estrutura urbana, assumindo o reduto proporções de avançadas perspectivas. 

Antiga Estação Ferroviária de Senador Pompeu - Acervo Osmar Filho

Evolução Política: A elevação do povoado à categoria de Vila ocorreu segundo Lei nº 332, de 3 de setembro de 1896, criando-se também o Termo Judiciário. A elevação à categoria de Município deu-se conforme Lei nº 659, de 22 de agosto de 1901. 
Igreja: As primeiras manifestações de apoio eclesial têm como precedente a edificação da primitiva capela cujo orago dedicou-se em honra de Nossa Senhora das Dores. Freguesia e Paróquia, respectivamente, datam de 2 de junho de 1919, consoante Ato firmado por D. Manuel da Silva Gomes, Bispo de Fortaleza, sendo seu primeiro vigário o padre Lino Aderaldo.

Centro de Senador Pompeu - Foto de Vantuilo Gonçalves

Devido a infra-estrutura ferroviária e localização central, Senador Pompeu, foi uma das cidades cearenses na qual foi instalado um dos Campos de Concentração no Ceará(ou mais conhecidos como os currais do governo) durante a seca de 1932.
O Município de Senador Pompeu conta atualmente com 04 distritos: Engenheiro José Lopes, São Joaquim do Salgado, Codiá e Bonfim.

O caminhão da foto destinava-se ao transporte de passageiros e cargas no interior do Ceará, entre Senador Pompeu e Crateús no ano de 1958. O veículo é um caminhão Chevrolet nacional, sobre o qual foi montada uma carroceria de madeira com dois compartimentos separados. Pertencia à Viação Coelho, de Jader Vieira Coelho e Silva - Arquivo do Memorial Fotográfico do Transporte Coletivo de Passageiros do Ceará

As terras hoje compreendidas no município de Senador Pompeu principiaram a ser povoadas quando da concessão de datas e sesmarias aos desbravadores, pioneiros do Ceará-Grande que levantaram casas de fazenda e dominaram os nativos. Nos séculos dezessete e dezoito inúmeras foram as concessões de terras das margens dos rios Banabuiú e Codiá, feitas pelos capitães-mores. 
Uma das mais importantes foi, sem dúvida, a outorgada aos 27 de março de 1723, pelo
então capitão-mor Manuel Francês, aos desbravadores Thomé Callado Gavão e Nicolau de
Souza.

Nas terras doadas aos dois pioneiros, três léguas para cada um, nas margens do Codiá, ergue-se a atual cidade de Senador Pompeu.

A Rua Santos Dumont em 1946 - Acervo de Vantuilo Gonçalves

A lei nº 332, de 3 de setembro de 1896, que criou o município, cujo território foi desmembrado do de Benjamim Constant, posteriormente Mombaça, criou também o termo judiciário, com a denominação de Senador Pompeu; a povoação humaitá foi elevada à categoria de vila com aquele topônimo.

No governo do Dr. Pedro Augusto Borges, Presidente do Estado, a vila é elevada à categoria de cidade (lei nº 659, datada de 22 de agosto de 1901). Em 1919, por provisão datada de 2 de junho, Dom Manuel da Silva Gomes criou a freguesia sob a invocação de Nossa Senhora das Dores. 


Acervo Osmar Filho

Senador Pompeu, comarca da segunda entrância desde 1948 (lei nº 213, de 9 de junho) passou a ter mais os distritos de Engenheiro José Lopes e São Joaquim do Salgado (ex-povoado de São Joaquim), criados pela lei nº 1.153, de 22 de novembro de 1951, sancionada pelo Governador Raul Barbosa, que estabelceu a divisão administrativa do Estado para vigorar até 31 de dezembro de 1953.

Gentílico: pompeuense ou senadorense

Edifícios que pertenceram a antigos agentes ferroviários em Senador Pompeu, cuja estação foi inaugurada em 2 de julho de 1900. Acervo Osmar Filho

Educação, cultura e turismo

O município contava com o Campus Avançado do Sertão Central-CASC, que pertencia a Universidade Estadual do Ceará-UECE oferecendo cursos de licenciatura plena em Letras, História e Ciências Exatas, mas que por descaso dos poderes públicos municipais da região foi fechado e está abandonado e depredado. Cerca de 13% da população é analfabeta e menos de 0,5% concluiu nível superior (dados do ano 2000).
A cidade possui uma biblioteca, um teatro simples, pertencente à igreja, havia um museu, que foi destruído por vândalos.
A produção cultural é viva e intensa. Sendo uma das cidades que mais se destacam no sertão central e no Estado do Ceará. Há vários grupos de dança de quadrilha, artesões, artistas plásticos, escritores, grupos teatrais, dramaturgos, produtores de trabalhos audiovisuais.
Uma das atrações turísticas é a ponte ferroviária, uma ponte trazida da Inglaterra, e a estação ferroviária.

Senador Pompeu - Ceará - Ponte Ferroviária
Acervo Reinaldo Holanda

Outra atração turística, de cunho religiosa, é a Caminhada da Seca. Uma romaria anual, que há 26 anos acontece em homenagem as vítimas do Campo de Concentração. Esta inicia-se na Igreja de Nossa Senhora das Dores e encerra-se no Cemitério da Barragem do Patu, ao lado do Açude Patu.




Créditos: Wikipédia, IBGE

terça-feira, 10 de julho de 2012

Icó - A terceira vila instalada no Ceará


As terras entre as serras do Cafundó, Camará e às margens do Rio Salgado eram habitadas por diversas etnias tapuias, entres elas os Icó, Icozinho, janduí e quixelô.

A colonização das terras de Icó data do final do século XVII e início do século XVIII. Os primeiros colonizadores da cidade eram conhecidos como "os homens do (Rio) São Francisco", que faziam parte de uma das frentes de ocupação do território cearense, a do "sertão-de-dentro", dominada pelos baianos, que serviu para tentar ocupar todo o interior cearense.

A entrada de Bartolomeu Nabo de Correia e mais 40 homens, chegou em 1683 e deu início à povoação conhecida como "Arraial Novo dos Icós", a sua primeira fase. Numa segunda fase, famílias se instalaram através das sesmarias e assim surgiram dois povoados às margens do Rio Salgado: o "Icó de Baixo" e o "Icó de Cima". Ambos, povoados dominados pelos membros das famílias Fonseca e Monte, respectivamente. Devido às constantes inundações, o povoado que prevaleceu foi o "Icó de Cima". Tanto na fase de descobrimento quanto na de assentamento, os conflitos com os índigenas foram constantes, até que a Igreja Católica interveio e conseguiu um tipo de pacificação. 

Cadeia pública construída em 1744. Hoje prece que é um centro cultural - Acervo de Clóvis Acário Maciel

A povoação foi elevada a vila em 1738, a terceira vila do Ceará, logo após Aquiraz e Fortaleza. Em 1842, obteve a categoria de cidade. Devido a sua importância econômica, Icó foi uma das cidades que tiveram projetos urbanísticos planejados na corte, Lisboa.

Com a intensificão e o sucesso da indústria da carne-seca e do charque no Ceará, Icó destacou-se durante esta áurea época como um dos três centros comerciais e de serviços do estado, juntamente com Sobral e Aracati, devido a abundância de água, localização estratégica na rota das boiadas. A "Estrada Geral do Jaguaribe" escoava as boiadas entre as fazendas de gado do Sertão do Cariri ao porto e centro de salgagem da carne salgada de Aracati. A "Estrada das Boiadas" ou "Estrada dos Inhamuns" escoava o gado e os produtos entre a Paraíba e o Piauí.


Ponte sobre o rio Salgado, chama-se Piquet Carneiro. Foto de 25/10/1941 - Acervo de Clóvis Acário Maciel

A partir do século XIX, com o final do Ciclo da Carne do Ceará, as plantações de algodão e café foram implementadas. Já na segunda metade deste a iluminação pública foi instalada. Mesmo assim, Icó enfrentou um processo de degradamento político e econômico devido ao crescimento da importância política do Crato e depois com a expansão da Estrada de Ferro de Baturité até a cidade do Crato em 1910, o que favoreceu o comécio de Iguatu.

Na primeira metade do século XX, Icó volta a ter importância devido ao projeto de combate às secas com o Açude Lima Campos e a BR-116.


Igreja do Monte, padroeira, Nossa Senhora Aparecida - Acervo de Clóvis Acário Maciel

O topônimo "Icó" pode ser uma alusão a:

  • Uma palavra da língua tapuia, onde i (água) + kó (roça), tornando "água ou rio da roça";
  • Uma das tribos que habitavam às margens do Rio Salgado, denominada ikó;
  • Uma planta que poderia ter existido em abundância na região, o icozeiro, da família das caparidáceas (Capparis yco), cujo fruto é o icó.

Sua denominação original era "Arraial do Poço", depois "Povoação do Salgado", "Arraial da Senhora do O", "Arraial Velho", "Ribeira dos Icós", "Arraial Novo", "Arraial da Ribeira dos Icós", "Icós" e, desde 1860, "Icó". 

Teatro da Ribeira dos Icós em 1900

Teatro da Ribeira dos Icós, inaugurado em 1860. Acervo de Clóvis Acário Maciel

Foto recente do teatro

As principais fontes de água fazem parte das bacias do rio Salgado e do Baixo Jaguaribe, sendo os principais afluentes elas os riachos: Aba, Capim, capitão-mor, dos Cavalos, São Miguel, São João, dos Pedreiros, Lobata, Periquito, São Vicente, Santana, Tatajuba (este divisa com o município de Orós), Umari e outros tantos. Existem ainda 89 açudes, sendo os de maior porte os açudes: Lima Campos ou Estreito I e o Tatajuba.

As terras de Icó fazem parte da Depressão Sertaneja, com elevações significantes no lado leste com colinas e cristas dos maciços residuais como a Serra do Padrede. As altitudes entre 200 e 700 metros acima do nível do mar. Os solos da região são constituído de arenitos, calcários do Mesozóico e folhelhos, gnaisses e migmatitos do Pré-Cambriano indiviso, conglomerados, siltitos e sedimentos arenosos inconsolidados, aluviais, do Quaternário, quartzitos.

O sítio arquitetônico de Icó

Um sitio que é formado pelo perímetro urbano planejado pela Metrópole, na primeira metade do século XVII. Um projeto urbanístico com: ruas bem traçadas e retas (delimitando quadras relativamentes uniformes), praças bastante amplas, prédios públicos. O sítio nuclear situa-se entre as atuais ruas: 7 de Setembro, Ilídio Sampaio e Benjamin Constant, fechando-se ao lado leste com a praça principal.


  • O Teatro da Ribeira dos Icós: datado de 1860, obra do arquiteto Henrique Théberge, filho do médico e historiador que financiou esta obra neoclássica, Pedro Théberge. É o mais antigo teatro do estado do Ceará. É formado de dois pavimentos, no térreo encontram-se três galerias; no primeiro andar encontram-se camarotes superiores.
  • Casa de Câmara e Cadeia: datada da segunda metade do século XVIII, foi uma das mais seguras cadeias de sua época. Seus portões são verdadeiras fortalezas. As celas possuem um dos mais perfeitos esquemas de segurança, com paredes que possuem uma espessura de um metro e meio, as chaves das celas são únicas e pesam aproximadamente meio quilo cada uma. No seu interior encontra-se a capela penitenciária com a imagem de São Domingos (protetor dos presidiários). O prédio compõe-se de dois pavimentos. No andar superior funcionou a Câmara e no térreo funcionou a Cadeia Pública. Atualmente está inativa e passará pelas últimas reformas de restauração.
  • Igreja de Nossa Senhora da Expectação: Igreja em estilo barroco. Ao lado da igreja encontra-se o cemitério centenário.


Fontes: IBGE, Documentação Territorial do Brasil. Icó-CE, 
http://www.ceara.com.br/m/ico/index.htm e Wikipédia

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Castorina do Aracati



Dotada de boa memória, viajada e inteligente, Castorina é um bom papo, não deixa a gente se desligar, nem mesmo por instantes, de sua figura encantadora e magnetizante. Seu grande amor, depois do Aracati, é o Recife, onde ela sempre ia vender rendas e bordados. Recife, como Aracati, é uma cidade de muita água.

Tem mar e rio,  muitas pontes e porto movimentado. Isso é o seu fraco.
Posso dizer que me criei dentro d'água. Sou da água doce e da salgada ao mesmo tempo. Não me assombrei nem mesmo com a cheia de 24.
Ela se refere à enchente de 1924, quando Aracati foi totalmente inundada, ficando quase submersa. Ainda hoje tem lá o Alto da Cheia Grande, onde muita gente escapou de morrer afogada.

O AMIGO DESEMBARGADOR


-Eu não gosto de beber mas  nesse dia entrei na Cumbe. Cumbe é a cachaça oficial de Aracati e caju é o tira-gosto de fé.
O desembargador Ubirajara Carneiro foi promotor em Aracati, faz muitos anos. Ali fez uma grande amizade com Castorina, a quem o velho magistrado dedica especial atenção. Todos os domingos eles se encontram para uma conversa informal, o que ambos passaram a chamar "um domingo alegre". Insistimos, mas ela desconversou:
-O desembargador não tem.
Esse "não tem" significa apelido. Sem dúvida por respeito a uma velha amizade, mas a fonte não secou.



Pelo comum, quando uma pessoa chega aos sessenta anos vai logo tratando de se acomodar, achando que já deu o que tinha de dar e por isso mesmo o melhor é encostar as "chuteiras". Outras, entretanto, se bem que em número reduzido, mantêm-se em bom estado físico e mental depois dos oitenta, como ocorre com Castorina Chaves Pinto, a famosa Castorina do Aracati, atualmente com 88 anos bem vividos. Inteligente, alegre e jovial, ela está para o humorismo assim como Tristão de Ataíde está para a literatura: na flor da idade. Prova evidente de que ambos são dotados de elevado QI, visto que somente os que possuem uma mentalidade inferior se fossilizam, como acontece com o batalhão de quadrados os chamados ultra conservadores que não admitem mudanças.                                                     
-Sou da idade da pedra e se você achar pouco bote mais tempo.
É assim que ela responde aos que lhe perguntam quantos anos tem. E em seguida diz um gracejo adequado à ocasião ou manda logo um apelido certeiro.
-Vige, bicho, tu é ver um bacurau ...
Mas o importante é que ela não faz isso para humilhar a pessoa. E sim para brincar, mexer com quem está quieto, pura e simplesmente. É exato que muitos apelidos surgiram dessas brincadeiras, mas não houve, de sua parte, intenção premeditada de rotular. Às vezes ela nega a autoria de um apelido que se tornou famoso, dizendo que o autor foi o Teófilo, seu irmão.                      
- Nunca botei apelido em bispo. Em padre, sim, porém  poucos. O Teófilo é que não respeitava patente.



DELLA ROVERE TEMEU

Castorina levou quase a vida toda fazendo café para intendentes e prefeitos de Aracati. Em reconhecimento a esse valioso trabalho, Ruperto Porto deu-lhe um emprego "pro-forma", na base do recibo por serviços prestados, com a remuneração de 250 cruzeiros antigos mensais. Os que vieram depois dele foram deixando a velha e dedicada cafezeira em paz, sendo que alguns concordaram em aumentar-lhe o ordenado, chegando hoje a 50 cruzeiros.              
-É dinheiro que eu vou abrir um banco.     
Aposentada por conta própria, ela veio morar em Fortaleza e ficou recebendo seu dinheirinho sem qualquer complicação. Mas quando Mário Della Rovere assumiu a chefia do município, o negócio engrossou pra cima dos funcionários da Prefeitura. Muitos foram demitidos e Castorina ficou sem receber pagamento. Passados cinco meses, a velha não aguentou mais e foi a Aracati. Teve sorte, porque o Della Rovere na ocasião estava muito cheio de encrencas e não quis arranjar mais uma, mandando pagar-lhe o atrasado.
O sanitarista Della Rovere recuou na hora exata,  pois do contrário teria pegado o maior apelido que Castorina já bolou, para largar em cima de uma incauta criatura. Solicitada a dar pelo menos uma dica, Castorina pediu calma.
-Ele que se cuide, que o bicho está arquivado. Aproveitando a deixa, dissemos-lhe que Della Rovere fora um general italiano, da Segunda Guerra, que ficou famoso por ter sido representado por um ator que morreu porque pretendeu viver o personagem na vida real, resultando disso uma opereta bufa ainda hoje bastante apreciada na Itália, explicando, afinal, que qualquer semelhança é mera coincidência.

 FAMA QUE NADA RENDE

Vivendo com uma filha de criação, numa casinha modesta da Rua Franklin Távora, Castorina atravessa uma fase difícil, que pode ser definida nesta frase:   

-Estou comendo o que o diabo enjeitou. Realmente, a velha e irrequieta cafezeira da Prefeitura de Aracati vive momentos de grande aperto, mas as queixas são feitas em termos de brincadeira,  sem perder a esportiva.
- Minha fama é grande, mas não rende nada. Ninguém manda nada pra mim.
Isto ela diz rindo, sem qualquer sombra de amargura, parece até que ironizando a si própria.
- Sou assim falante porque nasci no dia de uma trovoada. E não porque tivesse bebido água num chocalho, como disse o Chico de Jane.
Chico de Jane, seu velho amigo, é o dono do bar Amansa Sogra e o maior folião do Aracati. Uma grande praça esse antigo e compreensivo delegado civil, parte integrante do folclore aracatiense. Delegado civil e perpétuo, pois em todo governo ele é mantido no posto. Seu lema não prender e às vezes soltar...
Castorina gostava de festa, dançava bem, namorou  muito mas não casou "porque os diabos nunca quiseram casar comigo". E diz que se sente muito feliz por isso.
-Pelo menos não sou viúva.
Ela acha que fatalmente teria ficado viúva, visto que os seus irmãos já faleceram. Eram, ao todo, quinze irmãos, só restando ela*.                                       
- Só ficou eu pra contar a história.
A história de um passado faustoso, ainda agora podendo ser atestado pela arquitetura dos sobradões de Aracati, cujas fachadas são de azulejos da melhor procedência estrangeira.

Texto de Edmundo de Castro
Fotos de Geraldo Oliveira

Transcrição feita a partir de uma fotocópia de matéria cujo periódico deve ter sido publicado na década de 1970 em Fortaleza.             



*Castorina Pinto “A mulher dos apelidos" faleceu em Fortaleza com quase 90 anos de idade, achando que não merecia a fama e a repercussão que lhe projetou.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os Pistoleiros de Igarói




Você sabe onde fica a vila de Igarói? Não? Não se desespere, pouca gente sabe ou já ouviu falar desse lugar. A vila de Igarói é um pequeno e distante vilarejo cravado no sertão central do Ceará, no município de Orós. Fica longe, muito longe de Fortaleza. Pequeno vilarejo é até elogio. A vila é um amontoado de pequenas casas, uma igrejinha e alguns estabelecimentos comerciais, nada mais. São poucas ruas e não possui nenhum atrativo ou ponto turístico que explique como surgiu e se desenvolveu. Desenvolveu também é força de expressão, pois o progresso ainda passa longe de Igarói. Sua única referência e razão de existência, acredito, é a proximidade do açude de Orós, esse sim, bem mais conhecido. Também fica próxima da cidade de Orós, sede do município e da cidade de Icó. Pois é lá nessa cidadezinha perdida no meio do nada que residem os dois personagens centrais dessa história. Vivem por lá dois dos pistoleiros mais temidos e destemidos do estado do Ceará: Justino e Catolé. Olhando de relance ninguém dá nada pelos dois. São baixinhos, muito magros, quase raquíticos e de fala mansa e pausada. Roupas comuns, de chinelos a maior parte do tempo, mas sempre, sempre com os seus indefectíveis e inseparáveis chapéus. Creio que seja alguma marca registrada dos pistoleiros do nosso interior. Pistoleiro que se preze tem que andar de chapéu. Chapéu “quebrado de lado” e quase cobrindo os olhos. Além, claro, do seu fiel instrumento de trabalho, o indefectível e reluzente revolver 38 na cintura e que se sobressai na camisa.

Caminhando tranquilamente pelas vielas da vila ou bebendo uma cachaça no Bar da Loura, ninguém jamais vai imaginar que aqueles dois são frios e cruéis matadores de aluguel. Me corrijo, foram pistoleiros, não são mais. Pelo menos é o que afirmam. Não juram porque pistoleiro somente jura cumprir o acordado. Contratou o serviço, a vítima está jurada. Jura feita, serviço executado. Que Deus se encarrega da alma do infeliz. Nada pessoal, apenas e exclusivamente o relacionamento profissional. Estranho, injustificável e inadmissível para nós, ou para qualquer pessoa, digamos, normal. Mas para esses “profissionais” é o seu trabalho e meio de vida. Soa estranho ganhar a vida tirando vidas, mas é a dura e cruel realidade dessas pessoas. Sina, destino ou maldição? Ou seria falta de trabalho e de oportunidade? Ou culpa da imensa injustiça social ainda reinante no nosso sertão miserável e faminto. Não vou e não me cabe julgar. Apenas vou relatar algumas histórias e fatos, ou lendas, ocorridos com os mesmos.

Contam que certa feita um grande fazendeiro contratou o pistoleiro Justino para “dar fim” a um fazendeiro vizinho que tinha invadido suas terras. Chamou Justino, explicou como queria o serviço, acertou o preço e forneceu duas fotos do desafeto. Serviço concluído chegou Justino para receber o pagamento:

- Pronto Doutor, os homens num vão mais incomodar. Os dois agora só vão ver as terras do senhor nos olhos.

Espantado o mandante comenta:

- Como os dois? Era apenas um, aquele safado do Capenga!

Justino responde calmamente:

- Não Doutor, o senhor me deu dois retratos...

O mandante argumenta, gritando:

- Mas eram do mesmo sujeito. Só que era uma foto de frente e outra de perfil.

Justino tira o chapéu, coça a cabeça e fala sorrindo:

- Vixe Maria! E agora? O serviço ta feito e não tem volta. Deixa pra lá Doutor, só vou cobrar por um mesmo.

Outra do Justino. Devido uma doença venérea, a velha gonorréia, ele estava com dificuldade de urinar e sentido muitas dores. Foi ao médico em Icó para uma consulta. O médico era urologista e teve a infeliz idéia de sugerir ao pistoleiro Justino fazer primeiramente um exame de próstata. Quando falou com o paciente sobre o exame o pobre médico não sabia da fama e muito menos da sua profissão. Explicação dada ao tentar se aproximar, Justino se afasta abruptamente, coça o cabo do revolver 38 com o cotovelo, o qual se destacava volumosamente sob a camisa quase levantada e fala calmamente:

- Ta pensando o que, seu doutorzinho fio de uma égua? Que eu sou baitola que nem vós micê? Se prepare para morrer!

Justino saca a arma e aponta para o apavorado doutor. O jovem médico, mais branco do que o jaleco, cai de joelhos e de mãos postas pede por tudo para ser poupado e começa a chorar. Aos prantos tenta explicar que tudo era um lamentável engano, que Justino tinha entendido errado e que a culpa era da enfermeira, a qual deu as informações erradas (a coitada nem estava sabendo do assunto). Sorte do médico que nesse dia Justino estava em paz com a vida e resolveu perdoar o “doutorzinho afeminado”. O fato é que terminou o médico dispensando a cobrança da consulta e ainda doando toda medicação para Justino. Sem falar que também mandou o motorista da ambulância levar o pistoleiro e deixá-lo na porta de sua casa lá em Igarói.

A outra história fala do pistoleiro Catolé, o mais perverso dos dois (se é que isso é possível) e a origem do seu apelido. Dizem que se nome de batismo é Epifânio Nonato, mas convenhamos isso não é nome de pistoleiro. Apenas é conhecido pelo apelido de Catolé. Contam que ele foi contratado para executar um comerciante em Jaguaribe-CE. Era uma rixa de família e o mandante parente da vítima, o qual era conhecido na cidade por sua força e valentia. Acontece que Catolé quando chegou à cidade descobriu que o seu fiel 38 estava descarregado e não tinha onde comprar as balas sem levantar suspeitas. Para fazer o serviço teve que lançar mão da velha espingarda. Uma curiosidade: no interior do Ceará se utilizar a expressão “bater catolé” quando uma arma falha por problemas com a munição. Foi o que aconteceu. Na emboscada para matar o comerciante a munição estava fria, a espingarda “bateu catolé” e a vítima reagiu. Sacou da peixeira e partiu para cima de Catolé que teve de sacar do punhal para se defender. Terminou executando o comerciante com um profundo golpe de punhal no coração. A briga lhe rendeu a apelido e também uma grande cicatriz no rosto e várias outras nos braços. Por conta dos cortes perdeu muito sangue e para completar perdeu também o dinheiro do serviço. O mandante se recusou a pagar porque o crime chamou muita atenção e também pela forma perversa como o parente foi executado. Morrer com uma punhalada de coração é muito triste e cruel, nas palavras do mandante. O serviço desastrado teve ainda desdobramento para Catolé. Não se sabe se por remorso ou por medo de ser descoberto devido à repercussão, mas o mandante contratou um outro pistoleiro para matar Catolé, o qual ainda se recuperava das feridas do “acidente de trabalho”. Foi contratado um pistoleiro da Zorra, distrito de Mombaça e local famoso pela quantidade e facilidade de contratar esse tipo de profissional. Engraçado, mas quando se contrata um pistoleiro para matar outro que por algum motivo tenha falhado ou deixado pistas no serviço se diz que o mandante contratou “um seguro”. Os infames “seguro” são considerados traidores da profissão e odiados por motivos óbvios. Não se sabe como, mas Catolé foi informado do “seguro” e descobriu a tempo que o desafeto estava na vila de Igarói no seu encalço. Era finalzinho da tarde, Catolé estava sentado na porta da sua casa com a mulher quando o pistoleiro contratado chegou para executar o serviço. Cumprimentou Catolé, se certificou que era a pessoa certa e pediu um copo d’água. Quando a mulher entrou para pegar a água o pistoleiro tentou sacar a arma, mas Catolé foi mais rápido. Sacou primeiro e descarregou o 38 no peito do desgraçado. O “seguro” ainda agonizava quando Catolé entrou em casa, pegou um facão e decepou as mãos do traidor. Faz parte do “código de honra”, traidor da profissão tem que morrer e ser enterrado sem as mãos, de forma que o cadáver do infeliz foi para a cova mutilado.

Já estive diversas vezes na vila de Igarói e tive a oportunidade de conhecer pessoalmente esses personagens, em especial o sereno Catolé. Certa feita, conversando com Catolé no Bar da Loura enquanto tomávamos umas cervejas, perguntei que fim ele tinha dado às mãos do “seguro”. Ele apenas sorriu, mostrando seu brilhante dente de ouro, balançou a cabeça negativamente e rebateu a história. Falou baixinho e sem muita firmeza:

- Isso é história desse povo, Doutor. Num teve nada disso, não.

Nesse dia ele sai do bar meio cambaleante devido às cachaças que já tinha bebido antes das cervejas. Ao se levantar, ajeita o fiel 38 sob a camisa com o cotovelo, coloca o chapéu, sai caminhando lentamente e some nas vielas de Igarói. Vai para seu casebre almoçar seu baião-de-dois com galinha caipira e depois dormir tranquilamente e sem nenhum remorso. Em paz com a família e, acredite, sem nenhum pesadelo. Coisa do meu sertão. Coisas do Ceará.

Carlos J. H. Gurgel 



*Desenho de J. Emílio