Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Castorina do Aracati



Dotada de boa memória, viajada e inteligente, Castorina é um bom papo, não deixa a gente se desligar, nem mesmo por instantes, de sua figura encantadora e magnetizante. Seu grande amor, depois do Aracati, é o Recife, onde ela sempre ia vender rendas e bordados. Recife, como Aracati, é uma cidade de muita água.

Tem mar e rio,  muitas pontes e porto movimentado. Isso é o seu fraco.
Posso dizer que me criei dentro d'água. Sou da água doce e da salgada ao mesmo tempo. Não me assombrei nem mesmo com a cheia de 24.
Ela se refere à enchente de 1924, quando Aracati foi totalmente inundada, ficando quase submersa. Ainda hoje tem lá o Alto da Cheia Grande, onde muita gente escapou de morrer afogada.

O AMIGO DESEMBARGADOR


-Eu não gosto de beber mas  nesse dia entrei na Cumbe. Cumbe é a cachaça oficial de Aracati e caju é o tira-gosto de fé.
O desembargador Ubirajara Carneiro foi promotor em Aracati, faz muitos anos. Ali fez uma grande amizade com Castorina, a quem o velho magistrado dedica especial atenção. Todos os domingos eles se encontram para uma conversa informal, o que ambos passaram a chamar "um domingo alegre". Insistimos, mas ela desconversou:
-O desembargador não tem.
Esse "não tem" significa apelido. Sem dúvida por respeito a uma velha amizade, mas a fonte não secou.



Pelo comum, quando uma pessoa chega aos sessenta anos vai logo tratando de se acomodar, achando que já deu o que tinha de dar e por isso mesmo o melhor é encostar as "chuteiras". Outras, entretanto, se bem que em número reduzido, mantêm-se em bom estado físico e mental depois dos oitenta, como ocorre com Castorina Chaves Pinto, a famosa Castorina do Aracati, atualmente com 88 anos bem vividos. Inteligente, alegre e jovial, ela está para o humorismo assim como Tristão de Ataíde está para a literatura: na flor da idade. Prova evidente de que ambos são dotados de elevado QI, visto que somente os que possuem uma mentalidade inferior se fossilizam, como acontece com o batalhão de quadrados os chamados ultra conservadores que não admitem mudanças.                                                     
-Sou da idade da pedra e se você achar pouco bote mais tempo.
É assim que ela responde aos que lhe perguntam quantos anos tem. E em seguida diz um gracejo adequado à ocasião ou manda logo um apelido certeiro.
-Vige, bicho, tu é ver um bacurau ...
Mas o importante é que ela não faz isso para humilhar a pessoa. E sim para brincar, mexer com quem está quieto, pura e simplesmente. É exato que muitos apelidos surgiram dessas brincadeiras, mas não houve, de sua parte, intenção premeditada de rotular. Às vezes ela nega a autoria de um apelido que se tornou famoso, dizendo que o autor foi o Teófilo, seu irmão.                      
- Nunca botei apelido em bispo. Em padre, sim, porém  poucos. O Teófilo é que não respeitava patente.



DELLA ROVERE TEMEU

Castorina levou quase a vida toda fazendo café para intendentes e prefeitos de Aracati. Em reconhecimento a esse valioso trabalho, Ruperto Porto deu-lhe um emprego "pro-forma", na base do recibo por serviços prestados, com a remuneração de 250 cruzeiros antigos mensais. Os que vieram depois dele foram deixando a velha e dedicada cafezeira em paz, sendo que alguns concordaram em aumentar-lhe o ordenado, chegando hoje a 50 cruzeiros.              
-É dinheiro que eu vou abrir um banco.     
Aposentada por conta própria, ela veio morar em Fortaleza e ficou recebendo seu dinheirinho sem qualquer complicação. Mas quando Mário Della Rovere assumiu a chefia do município, o negócio engrossou pra cima dos funcionários da Prefeitura. Muitos foram demitidos e Castorina ficou sem receber pagamento. Passados cinco meses, a velha não aguentou mais e foi a Aracati. Teve sorte, porque o Della Rovere na ocasião estava muito cheio de encrencas e não quis arranjar mais uma, mandando pagar-lhe o atrasado.
O sanitarista Della Rovere recuou na hora exata,  pois do contrário teria pegado o maior apelido que Castorina já bolou, para largar em cima de uma incauta criatura. Solicitada a dar pelo menos uma dica, Castorina pediu calma.
-Ele que se cuide, que o bicho está arquivado. Aproveitando a deixa, dissemos-lhe que Della Rovere fora um general italiano, da Segunda Guerra, que ficou famoso por ter sido representado por um ator que morreu porque pretendeu viver o personagem na vida real, resultando disso uma opereta bufa ainda hoje bastante apreciada na Itália, explicando, afinal, que qualquer semelhança é mera coincidência.

 FAMA QUE NADA RENDE

Vivendo com uma filha de criação, numa casinha modesta da Rua Franklin Távora, Castorina atravessa uma fase difícil, que pode ser definida nesta frase:   

-Estou comendo o que o diabo enjeitou. Realmente, a velha e irrequieta cafezeira da Prefeitura de Aracati vive momentos de grande aperto, mas as queixas são feitas em termos de brincadeira,  sem perder a esportiva.
- Minha fama é grande, mas não rende nada. Ninguém manda nada pra mim.
Isto ela diz rindo, sem qualquer sombra de amargura, parece até que ironizando a si própria.
- Sou assim falante porque nasci no dia de uma trovoada. E não porque tivesse bebido água num chocalho, como disse o Chico de Jane.
Chico de Jane, seu velho amigo, é o dono do bar Amansa Sogra e o maior folião do Aracati. Uma grande praça esse antigo e compreensivo delegado civil, parte integrante do folclore aracatiense. Delegado civil e perpétuo, pois em todo governo ele é mantido no posto. Seu lema não prender e às vezes soltar...
Castorina gostava de festa, dançava bem, namorou  muito mas não casou "porque os diabos nunca quiseram casar comigo". E diz que se sente muito feliz por isso.
-Pelo menos não sou viúva.
Ela acha que fatalmente teria ficado viúva, visto que os seus irmãos já faleceram. Eram, ao todo, quinze irmãos, só restando ela*.                                       
- Só ficou eu pra contar a história.
A história de um passado faustoso, ainda agora podendo ser atestado pela arquitetura dos sobradões de Aracati, cujas fachadas são de azulejos da melhor procedência estrangeira.

Texto de Edmundo de Castro
Fotos de Geraldo Oliveira

Transcrição feita a partir de uma fotocópia de matéria cujo periódico deve ter sido publicado na década de 1970 em Fortaleza.             



*Castorina Pinto “A mulher dos apelidos" faleceu em Fortaleza com quase 90 anos de idade, achando que não merecia a fama e a repercussão que lhe projetou.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os Pistoleiros de Igarói




Você sabe onde fica a vila de Igarói? Não? Não se desespere, pouca gente sabe ou já ouviu falar desse lugar. A vila de Igarói é um pequeno e distante vilarejo cravado no sertão central do Ceará, no município de Orós. Fica longe, muito longe de Fortaleza. Pequeno vilarejo é até elogio. A vila é um amontoado de pequenas casas, uma igrejinha e alguns estabelecimentos comerciais, nada mais. São poucas ruas e não possui nenhum atrativo ou ponto turístico que explique como surgiu e se desenvolveu. Desenvolveu também é força de expressão, pois o progresso ainda passa longe de Igarói. Sua única referência e razão de existência, acredito, é a proximidade do açude de Orós, esse sim, bem mais conhecido. Também fica próxima da cidade de Orós, sede do município e da cidade de Icó. Pois é lá nessa cidadezinha perdida no meio do nada que residem os dois personagens centrais dessa história. Vivem por lá dois dos pistoleiros mais temidos e destemidos do estado do Ceará: Justino e Catolé. Olhando de relance ninguém dá nada pelos dois. São baixinhos, muito magros, quase raquíticos e de fala mansa e pausada. Roupas comuns, de chinelos a maior parte do tempo, mas sempre, sempre com os seus indefectíveis e inseparáveis chapéus. Creio que seja alguma marca registrada dos pistoleiros do nosso interior. Pistoleiro que se preze tem que andar de chapéu. Chapéu “quebrado de lado” e quase cobrindo os olhos. Além, claro, do seu fiel instrumento de trabalho, o indefectível e reluzente revolver 38 na cintura e que se sobressai na camisa.

Caminhando tranquilamente pelas vielas da vila ou bebendo uma cachaça no Bar da Loura, ninguém jamais vai imaginar que aqueles dois são frios e cruéis matadores de aluguel. Me corrijo, foram pistoleiros, não são mais. Pelo menos é o que afirmam. Não juram porque pistoleiro somente jura cumprir o acordado. Contratou o serviço, a vítima está jurada. Jura feita, serviço executado. Que Deus se encarrega da alma do infeliz. Nada pessoal, apenas e exclusivamente o relacionamento profissional. Estranho, injustificável e inadmissível para nós, ou para qualquer pessoa, digamos, normal. Mas para esses “profissionais” é o seu trabalho e meio de vida. Soa estranho ganhar a vida tirando vidas, mas é a dura e cruel realidade dessas pessoas. Sina, destino ou maldição? Ou seria falta de trabalho e de oportunidade? Ou culpa da imensa injustiça social ainda reinante no nosso sertão miserável e faminto. Não vou e não me cabe julgar. Apenas vou relatar algumas histórias e fatos, ou lendas, ocorridos com os mesmos.

Contam que certa feita um grande fazendeiro contratou o pistoleiro Justino para “dar fim” a um fazendeiro vizinho que tinha invadido suas terras. Chamou Justino, explicou como queria o serviço, acertou o preço e forneceu duas fotos do desafeto. Serviço concluído chegou Justino para receber o pagamento:

- Pronto Doutor, os homens num vão mais incomodar. Os dois agora só vão ver as terras do senhor nos olhos.

Espantado o mandante comenta:

- Como os dois? Era apenas um, aquele safado do Capenga!

Justino responde calmamente:

- Não Doutor, o senhor me deu dois retratos...

O mandante argumenta, gritando:

- Mas eram do mesmo sujeito. Só que era uma foto de frente e outra de perfil.

Justino tira o chapéu, coça a cabeça e fala sorrindo:

- Vixe Maria! E agora? O serviço ta feito e não tem volta. Deixa pra lá Doutor, só vou cobrar por um mesmo.

Outra do Justino. Devido uma doença venérea, a velha gonorréia, ele estava com dificuldade de urinar e sentido muitas dores. Foi ao médico em Icó para uma consulta. O médico era urologista e teve a infeliz idéia de sugerir ao pistoleiro Justino fazer primeiramente um exame de próstata. Quando falou com o paciente sobre o exame o pobre médico não sabia da fama e muito menos da sua profissão. Explicação dada ao tentar se aproximar, Justino se afasta abruptamente, coça o cabo do revolver 38 com o cotovelo, o qual se destacava volumosamente sob a camisa quase levantada e fala calmamente:

- Ta pensando o que, seu doutorzinho fio de uma égua? Que eu sou baitola que nem vós micê? Se prepare para morrer!

Justino saca a arma e aponta para o apavorado doutor. O jovem médico, mais branco do que o jaleco, cai de joelhos e de mãos postas pede por tudo para ser poupado e começa a chorar. Aos prantos tenta explicar que tudo era um lamentável engano, que Justino tinha entendido errado e que a culpa era da enfermeira, a qual deu as informações erradas (a coitada nem estava sabendo do assunto). Sorte do médico que nesse dia Justino estava em paz com a vida e resolveu perdoar o “doutorzinho afeminado”. O fato é que terminou o médico dispensando a cobrança da consulta e ainda doando toda medicação para Justino. Sem falar que também mandou o motorista da ambulância levar o pistoleiro e deixá-lo na porta de sua casa lá em Igarói.

A outra história fala do pistoleiro Catolé, o mais perverso dos dois (se é que isso é possível) e a origem do seu apelido. Dizem que se nome de batismo é Epifânio Nonato, mas convenhamos isso não é nome de pistoleiro. Apenas é conhecido pelo apelido de Catolé. Contam que ele foi contratado para executar um comerciante em Jaguaribe-CE. Era uma rixa de família e o mandante parente da vítima, o qual era conhecido na cidade por sua força e valentia. Acontece que Catolé quando chegou à cidade descobriu que o seu fiel 38 estava descarregado e não tinha onde comprar as balas sem levantar suspeitas. Para fazer o serviço teve que lançar mão da velha espingarda. Uma curiosidade: no interior do Ceará se utilizar a expressão “bater catolé” quando uma arma falha por problemas com a munição. Foi o que aconteceu. Na emboscada para matar o comerciante a munição estava fria, a espingarda “bateu catolé” e a vítima reagiu. Sacou da peixeira e partiu para cima de Catolé que teve de sacar do punhal para se defender. Terminou executando o comerciante com um profundo golpe de punhal no coração. A briga lhe rendeu a apelido e também uma grande cicatriz no rosto e várias outras nos braços. Por conta dos cortes perdeu muito sangue e para completar perdeu também o dinheiro do serviço. O mandante se recusou a pagar porque o crime chamou muita atenção e também pela forma perversa como o parente foi executado. Morrer com uma punhalada de coração é muito triste e cruel, nas palavras do mandante. O serviço desastrado teve ainda desdobramento para Catolé. Não se sabe se por remorso ou por medo de ser descoberto devido à repercussão, mas o mandante contratou um outro pistoleiro para matar Catolé, o qual ainda se recuperava das feridas do “acidente de trabalho”. Foi contratado um pistoleiro da Zorra, distrito de Mombaça e local famoso pela quantidade e facilidade de contratar esse tipo de profissional. Engraçado, mas quando se contrata um pistoleiro para matar outro que por algum motivo tenha falhado ou deixado pistas no serviço se diz que o mandante contratou “um seguro”. Os infames “seguro” são considerados traidores da profissão e odiados por motivos óbvios. Não se sabe como, mas Catolé foi informado do “seguro” e descobriu a tempo que o desafeto estava na vila de Igarói no seu encalço. Era finalzinho da tarde, Catolé estava sentado na porta da sua casa com a mulher quando o pistoleiro contratado chegou para executar o serviço. Cumprimentou Catolé, se certificou que era a pessoa certa e pediu um copo d’água. Quando a mulher entrou para pegar a água o pistoleiro tentou sacar a arma, mas Catolé foi mais rápido. Sacou primeiro e descarregou o 38 no peito do desgraçado. O “seguro” ainda agonizava quando Catolé entrou em casa, pegou um facão e decepou as mãos do traidor. Faz parte do “código de honra”, traidor da profissão tem que morrer e ser enterrado sem as mãos, de forma que o cadáver do infeliz foi para a cova mutilado.

Já estive diversas vezes na vila de Igarói e tive a oportunidade de conhecer pessoalmente esses personagens, em especial o sereno Catolé. Certa feita, conversando com Catolé no Bar da Loura enquanto tomávamos umas cervejas, perguntei que fim ele tinha dado às mãos do “seguro”. Ele apenas sorriu, mostrando seu brilhante dente de ouro, balançou a cabeça negativamente e rebateu a história. Falou baixinho e sem muita firmeza:

- Isso é história desse povo, Doutor. Num teve nada disso, não.

Nesse dia ele sai do bar meio cambaleante devido às cachaças que já tinha bebido antes das cervejas. Ao se levantar, ajeita o fiel 38 sob a camisa com o cotovelo, coloca o chapéu, sai caminhando lentamente e some nas vielas de Igarói. Vai para seu casebre almoçar seu baião-de-dois com galinha caipira e depois dormir tranquilamente e sem nenhum remorso. Em paz com a família e, acredite, sem nenhum pesadelo. Coisa do meu sertão. Coisas do Ceará.

Carlos J. H. Gurgel 



*Desenho de J. Emílio

segunda-feira, 21 de maio de 2012

José Júlio de Albuquerque Barros - Barão de Sobral



                        
Primeiro e único Barão de Sobral
                                                                                                                         
José Júlio de Albuquerque Barros, filho do Dr. João Fernandes de Barros e D. Luiza Amélia de Albuquerque Barros, nasceu a 11 de maio de 1841, em Sobral, província do Ceará.

Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade do Recife, recebendo o grau de Bacharel em 1861; defendendo tese na Faculdade de São Paulo, obteve o grau de Doutor, no dia 16 de dezembro de 1870.

Foi Promotor Público em Sobral, Diretor da Instrução Pública da sua província natal, Secretário do Governo dos Presidentes da província Lafaiete Rodrigues Pereira e Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo, sendo exonerado, a pedido, em decreto de 29 de março de 1866, e Diretor do Liceu do Ceará, por nomeação presidencial de 14 de dezembro de 1867.

Foi Deputado à Assembléia-Geral Legislativa, pela referida província, na 13ª legislatura (1867-1870).

Exerceu a alta administração em duas províncias do Império: Ceará — nomeado Presidente, em decreto de 9 de fevereiro de 1878, tomou posse em 8 de março seguinte e foi exonerado, a pedido, em decreto de 4 de maio de 1880; Rio Grande do Sul — nomeado Presidente, em carta de 2 de junho de 1883, assumiu o poder em 16 do mês de julho e foi exonerado em decreto de 12 de setembro de 1885.

Foi nomeado, em decreto de 1º de maio de 1880, para a Diretoria da Agricultura da Secretaria de Estado da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e por outro, de 10 de agosto de 1885, Diretor-Geral da Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça, em cujo exercício se encontrava quando foi proclamado o regime republicano, prestando então relevantes serviços, muito colaborando com o respectivo Ministro, Manuel Ferraz de Campos Sales, em todas reformas realizadas, principalmente na Organização Judiciária e Código Civil.

Com a organização do Supremo Tribunal Federal, foi nomeado Ministro do mesmo tribunal, em decreto de 12 de novembro de 1890; tomou posse em 28 de fevereiro de 1891. Por decreto de 3 de março seguinte, foi nomeado Procurador-Geral da República, exercendo as funções até falecer.


José Júlio de Albuquerque Barros foi agraciado, por D. Pedro II, com o grau de Cavaleiro da Ordem da Rosa, em decreto de 19 de outubro de 1867, e os títulos do Conselho, em decreto de 5 de agosto de 1882, e de Barão de Sobral, em decreto de 19 de janeiro de 1889.


Era casado com D. Maria Francisca Gomes da Costa, filha dos Barões do Arroio Grande. O primeiro casamento foi com D. 
Marfieta Rajá Gabaglia.

O Barão de Sobral fez parte da Sessão do Conselho de Estado em que a Princesa Isabel assina a lei Áurea, sendo que assina junto a monarca o ato abolicionista. 


Faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 31 de agosto de 1893, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista.

Precedido por
Antônio Pinto Nogueira Accioli
Presidente da província do Ceará
9 de fevereiro de 1878 — 4 de maio de 1880
Sucedido por
André Augusto de Pádua Fleury
Precedido por
Menandro Rodrigues Fontes
Presidente da província de São Pedro do Rio Grande do Sul
2 de junho de 1883 — 12 de setembro de1885
Sucedido por
Miguel Rodrigues Barcelos
Precedido por
Procurador-Geral da República do Brasil
3 de março de 1891 − 31 de agosto de 1893
Sucedido por
Ovídio Fernandes


Fonte: http://www.stf.jus.br e Wikipédia


terça-feira, 8 de maio de 2012

Pacoti - A Cidade Feliz


Antiga Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no Pacoti - Arquivo Nirez

Pacoti formou-se a partir de um sítio denominado Pendência. Em 1859, o modesto povoado recebeu a visita de uma comissão científica, enviada pelo Imperador D. Pedro II, com objetivo de pesquisar as riquezas do Ceará. Desta comitiva, participou o poeta maranhense Gonçalves Dias e o pintor Reis Carvalho.

A cultura do café chegava ao seu apogeu e, em 1873, Pacoti já possuía um terço dos pés de café do Ceará. O cultivo do café trouxe desenvolvimento e riqueza para a região. Foram construídas estradas ligando Pacoti a Baturité, passando por Pernambuquinho e Guaramiranga, com ligações para Mulungu e Aratuba.

Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no Pacoti em 24/12/2006 -Nirez

As primeiras manifestações de apoio eclesial, além da construção da primitiva capela, têm como precedente a criação da freguesia, em 15 de dezembro de 1885, da qual consta como padroeira Nossa Senhora da Conceição. Os atos inaugurais, canonicamente autorizados, datam de 29 de maio de 1886. Consta como seu primeiro pároco, o padre Constantino Gomes de Matos, nomeado por Ato Provincial de 1º de junho de 1886 e empossado a 13 do mesmo mês e ano.

A elevação do povoado à categoria de Vila, com o nome de Pendência, deu-se conforme o Decreto Nº 56, de 2 de setembro de 1890, sendo inaugurada a 25 de outubro do mesmo ano. Suprimida consoante Lei nº 550, de 25 de agosto de 1899 e restaurada, na forma da Lei nº 672, de 30 de agosto de 1901. Suprimida em segundo turno, conforme Decreto N°. 1.156, de 04 de dezembro de 1933.

Praça José Mota Pontes

Praça José Mota Pontes

Sua emancipação política definitiva, já com o nome atual - Pacoti, provém do Decreto-Lei nº 448, de 20 de dezembro de 1938. Tornou-se cidade em 2 de janeiro de 1939. Na época, Guaramiranga, Mulungu e Aratuba, antigo Coité, eram distritos do município. Com 8.551 habitantes, Pacoti teve como primeiro gestor político o coronel José Cícero Sampaio.

Pólo de lazer

Em 1828, a cidade implantou o serviço de energia elétrica com gerador a óleo diesel. E em 1931 foi  fundado o Colégio Instituto Maria Imaculada, que tornou-se um centro educacional de referência no Ceará.

 
Foto de ciceroecida

Em 1948, Pacoti á elevada à categoria de comarca.

No ano de 1951 é fundada a Sociedade Educadora de Pacoti, com objetivo de instalar escola para os filhos de famílias menos favorecidas. Na ocasião, foi fundado também o Instituto São Luís, cuja denominação homenageia o antigo Educandário, fundado pelo Senador Menezes Pimentel e pelo Monsenhor Antônio Tabosa Braga.

Foto de ciceroecida

Foto de ciceroecida

Como Chegar

É possível chegar a Pacoti, partindo de Fortaleza, através das rodovias CE 065 (continuação da Avenida Osório de Paiva - distância de 90km) e CE 060 (continuação da avenida Godofredo Maciel - distância de 115 Km).

Denominação

Pacoti é o nome do rio que nasce ao extremo sul da Serra de Baturité e banha o município. Há divergências quanto ao significado da denominação. “Lagoa das Cotias”, rio das Pacovas (banana) e rio das bananeiras, segundo a língua dos indígenas, antigos habitantes desta terra, são alguns dos significados possíveis. Ainda existe a hipótese de se chamar “Voltado para o Mar”.


Crédito: http://www.aprece.org.br e Wikipédia

terça-feira, 17 de abril de 2012

Francisco de Paula Pessoa


Senador Paula Pessoa, o Senador dos Bois, nascido em Granja-Ceará; irmão do revolucionário João de Andrade Pessoa Anta, fuzilado no Passeio Público em Fortaleza em 1824

Francisco de Paula Pessoa nasceu em Granja no dia 24 de março de 1795, filho do capitão-mor Tomás Antônio Pessoa de Andrade e de Francisca de Brito Pessoa de Andrade (de Jesus Mota quando solteira), parenta do escritor José Agostinho de Macedo. Seu irmão mais velho foi o insurrecto João de Andrade Pessoa Anta, que participou da Confederação do Equador.
Por ter sido comboieiro, era conhecido popularmente como senador dos bois.

Negociante, a princípio na terra natal, e depois em Sobral, para onde se mudou em 1819, foi sargento-mor e capitão-mor das antigas ordenanças dessa última localidade. O insucesso da Confederação do Equador fê-lo perder parte dos seus haveres, para restituição dos quais se transportou ao Rio de Janeiro em 1826. Foi então que se pôs em contato com pessoas influentes da Corte, que muito lhe aproveitaram posteriormente. De volta a Sobral, foi eleito presidente da Câmara, membro do Conselho Geral, coronel comandante da Guarda Nacional local, e mais de uma vez vice-presidente da Província.

Em 1848, na eleição para preenchimento de duas vagas no Senado, foi um dos mais votados e escolhido por Carta Imperial de 23 de dezembro do dito ano. Problemas de saúde, porém, fizeram-no deixar de frequentar o Senado desde 1864.

Conta-se que, quando jovem, Paula Pessoa pediu a Maria, mãe de Jesus, a quem tinha por madrinha, a graça de ferrar dois mil bois por ano, ser senador do Império e viver oitenta anos, objetivos que cumpriu ao longo de sua vida. No seu 80º aniversário, ele se apresentou diante da imagem da santa e disse: "Minha madrinha, pedi para ferrar dois mil bezerros por ano e o consegui. Para ser escolhido senador do Império e fui. Agora oitenta anos é tão pouquinho." E assim foi-lhe cedido mais quatro anos. Os restos mortais do senador Paula repousam atualmente na Catedral de Sobral.

Foi deputado provincial e senador do Império do Brasil de 1849a 1879.

Casou-se, em 16 de maio de 1827, com Francisca Maria Carolina (1807 - 1851), filha do Cel. Vicente Alves da Fonseca e de Geracina Isabel de Mesquita, com quem teve:
Vicente Alves de Paula Pessoa (1828 - 1889), senador do Império e jurista;
Antônia Geracina de Paula Pessoa (1832 - 1907), esposa de José Antônio de Figueiredo;
Tomás Antônio de Paula Pessoa (1834 - 1901), magistrado;
Francisco de Paula Pessoa Filho (1836 - 1879), médico e deputado geral;
Maria Luísa de Paula Pessoa (1839 - 1910), esposa de Antônio Joaquim Rodrigues Júnior;
Francisca Maria Carolina de Paula Pessoa (1841 - c. 1870), esposa de João de Albuquerque Rodrigues.

Além destes, Paula Pessoa foi pai (com Maria Francisca) de Leocádio de Andrade Pessoa, nascido em 1824, desembargador do Tribunal da Relação da antiga Província do Maranhão.
                                                                                                                                                        

Mandatos

  • Deputado provincial - 1835 a 1837
  • Senador - 1850 a 1879

Faleceu em Sobral no dia 16 de julho de 1879.

Saiba mais:

A vida de Francisco de Paula Pessoa não foi fácil. Foi duríssima, de começo. [...]. Quando já enriquecido pelo trabalho, os bens lhe são confiscados. O irmão, João de Andrade Pessoa Anta, um dos cabeças da revolução de 1824, é fuzilado no Passeio Público, em Fortaleza, juntamente com o Padre Mororó e outros republicanos.

No municipio de Santa Quitéria, sede do clã, situou o Senador Paula o maior número das suas grandes fazendas de gado e isto ainda mais fixou a sua presença no seio dos parentes afins, estreitando os laços de convivência e de solidariedade.

Da probidade de Francisco de Paula Pessoa, conta-se que, ainda quando comerciante em Sobral, numa das viagens que sempre fazia ao Recife, onde se provia de mercadorias para a sua casa de comércio, ajustou [...] a compra, por quarenta e dois contos de réis, de [...] numerosas fazendas de gados [...] espalhadas pelas ribeiras do Groairas, Macacos, Mundaú, Aracatiaçu e Coreaú, numa extensão de muitas léguas.

A compra dessas grandes áreas de terras, nas quais se incluíam centenas de cabeças de gados, escravos e benfeitorias, aumentou consideravelmente os cabedais de Paula Pessoa [...].

Francisco de Paula Pessoa começou a negociar aos quinze anos de idade, com recursos próprios, depois de sair do teto paterno [...] tendo se estabelecido, aos vinte e quatro anos, em 1819, na cidade de Sobral, onde se fez comerciante em grosso. [...] Sobral lhe daria reputação sólida e os títulos políticos a que já aludimos.

...Prossegue na sua ascensão e presta serviços relevantes à ordem na repressão aos Balaios. Foi mais uma vez, um dos Vice-Presidentes do Ceará e, em 1848 [...] foi escolhido Senador do Império [...].

Em 1864, com a saúde debilitada, o Senador já não pôde comparecer ao Rio de Janeiro para tomar parte nos trabalhos [...]. 


Francisco de Paula Pessoa era Primo da Mulher de Thomaz Pompeu de Souza Brasil.

Era amigo íntimo do Senador Padre José Martiniano de Alencar e seu correligionário fiel. Ao primo da sua mulher, o Senador Thomaz Pompeu de Souza Brasil, passaria o comando do Partido Liberal na Província. A escolha de Pompeu para o Senado do império , em 1864, foi obra de Francisco de Paula pessoa, que tinha pelo parente afim e amigo dedicado a maior afeição.

Um filho do Senador, Vicente Alves de Paula Pessoa, sentaria também numa das cadeiras do Senado da Monarquia.



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Fontes: Wikipédia, Macêdo, Nertan. O clã de Santa Quitéria. Rio de Janeiro: Editora Renes, 1967.




quarta-feira, 28 de março de 2012

Leprosário Antônio Diogo



Álbum Fortaleza 1931 - Arquivo do Blog Fortaleza Nobre

Em 09 de agosto de 1928 Inaugura-se a Colônia Leprosário de Canafístula - hoje Antônio Diogo, com verba doada pelo industrial Antônio Diogo Vital de Siqueira - sendo seu primeiro diretor o médico Antônio Alfredo da Justa (Antônio Justa).
O primeiro vigário foi monsenhor Antônio Tabosa Braga (Monsenhor Tabosa).
A primeira Superiora da instituição só chegou no dia 1º de setembro.
Canafístula, pertencente à Redenção, hoje se chama Antônio Diogo e a Colônia hoje se chama Leprosário Antônio Diogo.



Álbum Fortaleza 1931 - Arquivo do Blog Fortaleza Nobre

Alguns fatos históricos:


  • No dia 24 de agosto de 1939 - Realiza-se, às 20h30min, no Teatro José de Alencar, sob o patrocínio da Sociedade de Cultura Artística, o concerto do pianista Ernani Braga em benefício do Leprosário Antônio Diogo.

Dr. Antônio Justa - Diretor Clínico - Álbum Fortaleza 1931/Arquivo do Blog Fortaleza Nobre


  • 13 de fevereiro de 1940 - Morre, no Leprosário Antônio Diogo, do qual era capelão, aos 67 anos de idade, o padre Joaquim Severiano de Vasconcelos, cearense de Santana do Acaraú.


  • 29 de fevereiro de 1940 - O Pe. Henrique Vilibrordo Luiten substitui o Pe. Joaquim Severiano de Vasconcelos, falecido no Leprosário Antônio Diogo.


Álbum Fortaleza 1931 - Arquivo do Blog Fortaleza Nobre

  • 28 de junho de 1940 - Os aviadores Francisco Távora e Carlos Kayatt sobrevoam o Leprosário Antônio Diogo, ali despejando revistas e jornais para os lázaros.


  • 26 de julho de 1942 - Bênção e inauguração da nova capela do Leprosário Antonio Diogo, e assentamento da pedra fundamental de um Pavilhão de Meninos. Nesta última cerimônia falaram o Dr. Híder Correia Lima e o Sr. José Cabral de Araújo.

Álbum Fortaleza 1931 - Arquivo do Blog Fortaleza Nobre


  • 26 de janeiro de 1951 - Dezoito hansenianos do Leprosário Antônio Diogo tiveram alta hospitalar, por terem sido considerados curados. Este fato foi assinalado com uma sessão solene, realizada naquele leprosário, a que compareceram autoridades sanitárias do Estado e da União.

Conheça mais sobre o distrito de Antônio Diogo - Redenção/Ce


Vídeo de HJMTV1




Fonte: Cronologia Ilustrada de Fortaleza - Nirez

quarta-feira, 7 de março de 2012

A importância de Rodolfo Teófilo no combate a varíola



Rodolfo Teófilo foi um grande farmacêutico, que presenciou toda a trajetória da terrível epidemia de varíola que o Ceará jamais tinha visto que foi a de 1878. Indignado por conta do descaso do poder público, ele se propõe a combater a varíola com os próprios recursos. Tendo aprendido a produzir a vacina ele passa a imunizar a população pelo sertão a fora, montado em um cavalo, tenta barrar a proliferação da doença. Vacina esta que foi descoberta em 1796, pelo médico inglês Edward Jenner. Este fato repercutiu por todo o mundo civilizado, que há séculos perdiam vidas por conta da varíola.
O método já era utilizado desde outubro de 1802, por intermédio de uma circular, emitida pelo príncipe regente em Portugal ordenando que este método de linfa vacínica seja desenvolvido em todos os seus domínios portuários.


Rodoldo Teófilo vacinando a população contra a varíola - Arquivo Nirez

O maior obstáculo de Rodolfo Teófilo foi à oligarquia Nogueira Acioly, onde a sociedade cearense vivenciou dezesseis anos de atraso. Nesse período ocorre muito pouca a iniciativa do estado para com a saúde pública. As condições sanitárias que eram bastante precárias, só aumentam a incidência de tuberculose, sífilis, hanseníase e febre amarela. Os lazaretos de Jacarecanga e Lagoa Funda já não existiam mais. O isolamento agora era feito em uma casinha de palha com outras em sua volta, localizada atrás do Cemitério São João Batista. A vacinação às vezes tinha efeito ineficaz, devido ao mau condicionamento de importação, pois do Rio de Janeiro, diminuindo o seu valor imunogênico, isso colaborando para o seu descrédito perante a população.

Os jornais comandados por Nogueira Acioly acusam o farmacêutico de matar os pacientes com a vacina. Desta forma se torna mais difícil convencer as pessoas de se prevenirem da varíola.

Fatos Históricos


  • 27 de maio de 1820 - Concluído, parcialmente, o edifício do Lazareto de Jacarecanga, mandado construir em 29/04/1819 em terreno pertencente ao brigadeiro Francisco Xavier Torres. A obra fora iniciada em 26/07/1819 e foi mandado construir por ordem da Junta de Fazenda em 29 de abril do mesmo ano, para abrigar os variolosos. Ficava onde hoje é o bairro de Carlito Pamplona, aproximadamente no encontro da Rua Dom Hélio Campos com Rua Frei Orlando.


  • 07 de março de 1856 - Conclui-se o edifício do Lazareto da Lagoa Funda, a cerca de três quilômetros a noroeste da cidade, no Jacarecanga. 


  • 13 de fevereiro de 1901 - Mandado fechar, definitivamente, como imprestável, o Lazareto da Lagoa Funda, que servia de enfermaria aos variolosos.


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Fontes: Construção ideológica na perspectiva de aversão de Nogueira Acioly veiculado nos jornais, quanto às práticas farmacêuticas de Rodolfo Teófilo no combate a varíola - José de Paula da Silva Rodrigues e Portal da História do Ceará 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Acopiara x Iguatú - Rixas, tricas e futricas



A briga vem de longe e não tem nenhum sentido. Não existe disputa político ou intriga familiar ou algum fato concreto que justifique tal rivalidade. A disputa entre cidades vizinhas é até normal e não é nenhuma novidade. O fato é que essa velha disputa entre Acopiara e Iguatú é histórica e recheada de fatos pitorescos. Sou natural de Acopiara, mas morei pouco tempo lá. Era muito pequeno, apenas com cinco anos, quando meu pai fugindo da seca de 58 e dos seus reflexos sociais e econômicos e das dificuldades para criar os filhos, veio morar em Fortaleza. A partir dessa mudança eu somente retornava para Acopiara durante as férias escolares. Como minha mãe era natural de Iguatú e até hoje tenho família e parentes por lá, também passava parte das férias escolares nessa cidade vizinha. Ficava dividido, mas invariavelmente passava as férias no interior. 
Iguatú ou Acopiara? Era o grande dilema. E por conta da “dupla cidadania” sofria dos dois lados. Se estivesse em Acopiara tinha que aguentar as brincadeiras e os xingamentos contra os moradores e as mazelas da cidade de Iguatú. Se ao contrário, pior ainda, pois era acopiarense nato. Não aliviavam nas brincadeiras e por vezes na humilhação dos conterrâneos e nos comentários maldosos sobre minha pequena cidade natal. Nem mesmo meus primos do Iguatú tinham qualquer compaixão. Baixavam o sarrafo, como se diz. E eu lá, sem saber para onde correr. Defendia, argumentava, justificava e de nada adiantava. Nunca levava vantagem diante da evidente desvantagem.

Em que pesem as discussões e os constrangimentos sofridos por conta dessa rivalidade, nem por isso me afastei das cidades. Ao contrário. Sonhava durante todo período letivo com as férias “nos matos”, como chamavam pejorativamente meus amigos da capital e se referindo às duas cidades. Bem, nesse caso menos mal, afinal não dava para comparar Acopiara ou Iguatú com Fortaleza. Capital é capital, e não se discute. Mas na minha visão, prioridade e vontade nem passava perto a idéia de ficar em Fortaleza durante as férias. 

Fazendo o que dentro de casa? O bom mesmo era no interior, lá nas brenhas, como se falava. E era esse o entendimento dos meus primos e demais estudantes que tiveram a mesma sina de ter que morar e estudar na capital. O sonho da liberdade total e sem qualquer compromisso com horários. Festas e mais festas, pescarias, caçadas, bebedeiras e tudo que é diversão. Jogar bola, sinuca, baralho e até pedra no telhado do vizinho. Tudo valia para passar o tempo. Até dormir de dia para virar a noite nas farras. E tudo isso durante quatro meses. É muito? Que nada. Era isso mesmo e eu ainda achava pouco. 

Naquela época, acreditem, as aulas transcorriam em períodos bem definidos assim como as sagradas férias. As férias eram gozadas em dois períodos: no meio do ano, no mês de julho e no final do ano, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Isso para quem passava por média. Para quem ficava em recuperação vinha o castigo. Perdia o mês de dezembro com aulas de reforço e provas. Um martírio para quem aguardava ansiosamente a viagem para o “paraíso” depois de quatro torturantes e intermináveis meses de aulas.

Mas retomando as históricas disputas, relembro algumas das infames brincadeiras e insultos trocados entre os moradores das cidades. Por conta da sua acidentada geografia, a maioria das ruas em Acopiara possui acentuadas subidas e descidas, as chamadas ladeiras. A turma do Iguatú aperreava dizendo que para se tomar sopa em Acopiara era necessário calçar o prato com um tijolo senão a sopa entornava. Pronto, tava feita a confusão. A turma de Acopiara devolvia dizendo que em Iguatú tinha uma vantagem, não precisava esquentar a sopa para servir. Bastava colocar a sopa na janela que ela fervia, em alusão ao calor infernal reinante na cidade. As discussões chegavam ao ridículo de comparações tipo qual era a cidade em que mais se bebia, em qual mais se brigava, qual tinha o pistoleiro mais valente e cruel, entre outras inutilidades. Isso sem falar nas tradicionais disputas de futebol, qual o melhor carnaval, onde as mulheres eram mais bonitas, onde residiam os comerciantes mais ricos e outros temas inusitados. Até uma disputa para saber qual das duas cidades tinha o homem mais feio ocorreu. Nessa briga Iguatú ganhou disparado com o incrivelmente feio e malfeito “Chico Beiçola”. Se bem que Acopiara apresentou um forte concorrente, o “Galba Zoião”. Pense num macho feio!
 


 

Do ponto de vista econômico, a briga era desigual. Iguatú sempre foi uma cidade bem maior, mais do dobro do tamanho, com varias indústrias e intenso comércio, agricultura de porte e pecuária desenvolvida. Mas a cidade tinha seus pontos fracos. Curiosamente e inexplicavelmente perambulava pelas ruas de Iguatú um grande contingente de malucos maltrapilhos. Chamava atenção nas décadas de 60/70 a incrível quantidade de doido na cidade. Que eu me recordo: Chico Siebra, Maria Doida, Neném Teixeira (lançou a moda da mini saia no sertão), Baú, Calorzinho, Zeca Peidão, Maria Leão, Turica, entre outros menos conhecidos. E nisso a turma de Acopiara não aliviava. Bastava chegar alguém de Iguatú que a vinha logo a gozação: ih, chegou mais um doido do Iguatú! E tome bate boca e xingamentos mútuos. E não raro os ânimos se exaltavam e os rivais saíam no braço.

Também me recordo das famosas brigas sobre a existência ou não de homossexuais nas cidades. Naquela época a homofobia era tolerada e não existia a onda do politicamente correto e muito menos se falava em direito de minorias. Nenhuma cidade do interior aceitava livremente as opções sexuais não convencionais e os homossexuais eram xingados e perseguidos. O simples fato de um homem usar cabelo comprido já era motivo de piadas e provocações. Imagine então se vestir de mulher e pintar as unhas. Pois não é que apareceu uma “bicha”, dessas bem escandalosas, lá em Iguatú. A dita cuja tinha o interior do estado todo para escolher, mas optou por morar justamente em Iguatú. Foi um prato cheio para a turma de Acopiara. Não faltavam piadas quanto a masculinidade dos homens do Iguatú a para completar um belo dia a “boneca” teve a coragem de ir passear em Acopiara. A cidade quase foi abaixo. A figura exótica, que atendia pelo codinome de “Sol” (abreviatura de Solange), simplesmente arrasou. Talvez por vingança, por conta das humilhações sofridas, abriu a agenda e o coração. Contou tudo e ainda por cima “entregou” uma meia dúzia de ilustres moradores iguatuenses que se diziam muito macho. A galera de Acopiara foi ao delírio. Essa história ficou atravessada na garganta dos machos iguatuenses e até hoje rende gozações. Foram inúmeras as brigas, ameaças e juras de vingança. Dizem que teve até morte por conta desse fato. Coisas de interior. Coisas do meu Ceará.


Colaboração do amigo Carlos Gurgel

Iguatú



A localidade anteriormente abrigava uma aldeia de índios Quixelôs. A região era conhecida pelo nome de Telha, fazendo menção a uma grande lagoa de mesmo nome dos arredores, quando os jesuítas chegaram à região a partir de 1707. Depois de lutas de resistências por parte dos indígenas e rendição destes, estes colaboravam com os colonizadores.
Em 1831, povoado da Telha já se tornara tão grande e próspero que foi elevado a freguesia e sua elevação à categoria de Vila ocorreu na forma de Lei nº 553, de 27 de novembro de 1851,quando foi desmembrada do município de Icó e instalada a 25 de janeiro de 1853. Sua elevação à categoria de cidade ocorreu em virtude de Lei Provincial nº 1.612, de 21 de agosto de 1874. Logo após a proclamação da República em 1889, foi nomeado o seu primeiro intendente, Cel.Celso Ferreira Lima Verde.


A primeira estação férrea de Iguatu. Acervo de Alberto Cacá

Casa do Sr. Otaviano Benevides, hoje Caixa Econômica Federal de Iguatu - Acervo de Alberto Cacá


O primeiro prefeito municipal foi nomeado em 1914, Cel. José Adolfo de Oliveira
O segundo prefeito foi Eduardo de Lavor Paes Barreto - 1915 a 1917. 
Um fato curioso na política local é que na primeira eleição para o cargo de prefeito por voto direto, em 1926, o segundo colocado assumiu o cargo a partir de 1 de dezembro. Concorreram ao cargo Dr. Manoel Carlos de Gouvêa (344 votos) e o industrial Otaviano Jaime de Alencar Benevides (542 votos), este considerado inelegível, assume o cargo Dr. Gouvêa até a data de 14 de agosto de 1928.


Iguatú - Arquivo Nirez

Estação férrea de Iguatu, prestes a ser demolida ou transformada - Acervo de Alberto Cacá


Iguatu destacou-se ao longo da história do Ceará por está ao lado da estrada das boiadas, e depois como importante centro produtor de algodão, mas o grande impulso econômico se deu com a expansão da Estrada de Ferro de Baturité até a cidade do Crato. A estação ferroviária de Iguatu foi inaugurada a 05 novembro de 1910. Isso resultou no impulso da economia local com a instalação de hotéis,usinas de beneficiamento de algodão e casas comerciais e a expansão do centro comercial. Com a estação, Iguatu tornou-se o centro econômico da região em detrimento de Icó. Somente a partir de 1910, com o fortalecimento da economia algodoeira a expansão urbana direciona-se para as proximidades da estação ferroviária.
O progresso urbano foi tão significativo tanto que em 1925, foi inaugurado o Cine-Teatro Iguatu, considerado à época como o melhor prédio do gênero no interior do Ceará.


"Carreata" de jumentos - Crédito da foto

Casario de Iguatú em 2004 - Crédito da foto



O aformoseamento urbano verificava-se já pela existência de muitos palacetes e sobrados onde residiam as famílias ricas e influentes na sociedade, principalmente nas ruas Floriano PeixotoJoão Pessoa, Epitácio Pessoa e no entorno da Praça da Matriz
Com a expansão da linha ferroviária até o município do Crato, inaugurada a 09 de novembro de 1926, Iguatu recebe um novo impulso na sua economia e nos aspectos cultural e social, pois a ferrovia permitiu a comunicação mais rápida com o Cariri, próspero e importante centro cultural, político e econômico do sul do Ceará.


Igreja N.S. Perpétuo Socorro - Crédito da foto

Praça da entrada leste de Iguatú - Crédito da foto



No município de Iguatu são inauguradas quatro estações de trem (Sussuaruna, Iguatu, Juguaribe Mirim e Alencar), as quais consolidaram a base econômica do município. A estação foi o terminal da linha da EF Baturité até agosto de 1916, quando ela foi prolongada até Cedro, e no ano seguinte, até Lavras. Por isso, os habitantes de Lavras, mais ao sul, tinham de ir até Iguatu para embarcarem. Hoje é uma das estações operacionais da CFN, atual concessionária do trecho. 


Passarela de pedestres - Crédito da foto


Segundo Assis Lima, o prédio sofreu grande reforma em meados dos anos 1970, perdendo suas características originais.
Em 2009, a cidade viu o fim de uma das indústrias de beneficiamento do algodão (CIDAO), que certamente alimentaram os trens para Fortaleza, que transportavam o algodão e o óleo ali produzidos. Foi demolida para dar lugar a uma Universidade (é criado o Campus Avançado de Iguatu da Universidade Regional do Cariri). Seus trilhos e até vagões que existiam até novembro em seus depósitos foram sucateados. 
Em uma notícia do início de 2009, a afirmação de que o material ferroviário seria mantido ali: "Dentro do projeto feito pelo Dr. Campelo, está a idéia de deixar a linha férrea que passa dentro da área e dois vagões de trem estacionados dentro da CIDAO como forma histórica de preservação da memória das antigas edificações".


Ponte de chegada da cidade - Crédito da foto


Numa região onde os missionários católicos tentaram envangelizar os nativos, os índios, as primeiras manifestações de apoio eclesial provêm desse trabalho. Em 1746 iniciaram-se as obras da primitiva capela, orago que se dedicou a Nossa Senhora Santana, sendo concluída em 1775 e tendo como subordinante a Paróquia de São Mateus (Jucás). A freguesia, desmembrada da jurisdição anterior, provém do Decreto Provincial de 11 de outubro de 1831 e assentou-se em área central constante de 200x400 braças. Consta como seu primeiro vigário, no período compreendido entre 1832 e 1844, o padre Vicente José Ferreira.
No dia 28 de janeiro de 1961, o Papa João XXIII editou a bula "In apostolicis muneris" criando a Diocese de Iguatu. Sendo seu primeiro Bispo D. José Mauro Ramalho de Alarcon e Santiago, empossado a 4 de fevereiro de 1962.




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Fonte: Wikipédia