Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Aracoiaba


Estação ferroviária de Aracoiaba em foto bastante antiga. Arquivo Nirez

No ano de 1655 os Jesuítas viviam para a região do Maciço de Baturité, num local chamado “Comum”, (hoje Olho D’água dos Padres Jesuítas). Em 1762, os jesuítas convidaram o Ouvidor Geral da Província do Ceará, para subir a Serra de Baturité, local de difícil acesso, que o Ouvidor teve de ir montado num burro, meio de transporte adequado e existente na região naquela época. Os objetivos de tão árdua caminhada era motivar sua Exa. A se interessar pela “Missão” e assim a transformar em “ Freguesia ” pois essa progressão era caminho para posteriormente se tornar “ Vila ”, com as decorrentes vantagens que vinham. A visita foi feita tendo como conclusão do senhor Ouvidor a topografia impossibilitava a região para edificação de uma cidade, porém quem descesse das quebradas das serras os “ jenipapos ” para se unirem com os “Canidé”, os “ Chorós ” e os “ Quesitos ” e assim encontrassem uma planície que o Ouvidor apreciou lá no alto da serra, onde a paisagem era alterada apenas pelos relevos da “ Pedra Aguda ”, acidentes geográficos situados na Região, hoje, Aracoiaba. Tais índios eram de origem “Tupi Guarani”, conhecidos por sua cultura um pouco mais evoluída, devido suas localizações próximas ao litoral cearense. Os Jenipapos, dois anos depois desceram o rio Aracoiaba, que era navegável por ele se concretizavam transações comerciais, que iam até o Choró e Ideal. Para que tivessem melhor acesso a capital cearense, daí o Senhor Marcelino, carroceiro, transportador na época construiu sua barraca as Margens do Rio Aracoiaba. Este caminho tornou-se importante de homens e animais. Daí as famosas frases “ Vamos nos encontrar lá no seu CANOA ”, “ Lá no CANOA ” posteriormente caracterizava a região como local chamado “ CANOA ”. Mais tarde ganharia o nome de ARACOIABA ( ARACOY-ABA ), que era Tupi Guarani que dizem Lugar, Cantos e Pássaros. O Governador de Nossa Senhora da Assunção o cavalheiro Professor na Ordem de Cristo, Capitão Mor da Capitania do Ceará Grande, Sr. Capitão Domingos Simões Jordão, quem despachando petição do também Capitão Pedro da Rocha Maciel, concedeu-lhe “ Três ” Léguas de Terras continuas principiando e conferindo tudo na forma da petição do suplicante, para ele e seus herdeiros, ascendentes e descendentes com todas as suas águas, campos, matos, testados e logradouros que nela houverem. Era a Célebre “ SESMARIA ” de Pedro da Rocha Maciel, que ficava “em riacho que nasce na serra de Baturité e deságua no rio Choró, conhecido pelo nome de Aracoiaba. Daqui se vê que o Município de Aracoiaba nunca pertenceu a Baturité, pois praticamente foi criado 37 anos antes daquele e vivia independente. Graças a luta democrática e ilustres representantes de Aracoiaba, que 41 anos depois de se tornar Município que aconteceu a emancipação política no dia 16 de agosto.

Antigo Matadouro - Bairro São José - Foto do arquivo de João Artur
 
O nome Aracoiaca vem do tome de um rio que atravessa o município e tem duas origens: aracoiaba ou aracoaguaba. O topônimo aracoiaba vem do tupi-guarani ara(ave), cói (falar) e aba (lugar), e significa lugar do canto das aves. Já o topônimio aracoaguaba também vem do tupi-guarani ará (ave), cói (falar) e aba (lugar), e significa lugar onde as aves gorgeiam. Sua denominação original era Comum, depois Aldeia Canoa e, desde 1871, Aracoiaba.



A estação original de Aracoiaba, foto sem data. Foto dos arquivos da Biblioteca Nacional

A história de Aracoiba mistura-se com a catequização realizada pelos jesuítas junto aos índios que habitavam a região, e a introdução da pecuária na época da carne seca e charque.

Aracoiaba é uma antiga comunidade do Ceará, remontando à primeira metade do século XVIII. Antes do inicio de sua colonização, esta região era habitada por índios de origen tapuia: jenipapos, canindés, chorós e quesitos.

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Coreto e Praça da Matriz da Cidade de Aracoiaba -Foto do Arquivo de Carlos Blemar Silveira


Em 1655, os jesuítas já estavam presentes na região do Maciço de Baturité, mais precisamente em Comum(hoje Olho D'Água dos Padres Jesuítas) e, a partir deste no século XIX, surge um núcleo urbano.

Com a construção da Estrada de Ferro de Baturité, Aracoiaba (então Arraial de Canoa) entra como um elo na produção e exportação de café para o Porto de Fortaleza. Aos 14 de fevereiro de 1880, na localidade de Moamba, Muamba ou Arraial de Santa Isabel, foi inaugurada a Estação Ferroviária de Aracoiaba.

ACADEMIA VIRTUAL DE HISTÓRIA

O Município de Aracoiaba ficou sendo administrado por lideres comunitários, chamado Intendente. No momento em que Aracoiaba foi visitada pela comitiva de Getulio Vargas, então Presidente do País, estava à frente do Município como Intendente, o Sr. Eduardo de Castro, isto em setembro de 1935.

INTENDENTES E PREFEITOS:

01- Cel. Cirilino Pimenta – Intendente
02- Cel. Pedro Guedes Alcoforado – Intendente
03- Antônio Setúbal Barreto – Intendente
04- Pedro Coelho de Albuquerque – Intendente
05- Eduardo de Castro e Silva – 1º Prefeito Eleito – 1936 / 1937
06- José Lopes da Silva – Prefeito Nomeado – 1937
07- Raimundo Germano Maia – Prefeito Nomeado
08- Francisco Coelho Filho – Prefeito Nomeado
09- Aristides de Castro e Silva – Prefeito Eleito – 1947 / 1951
10- Raimundo Freitas Costa – Prefeito Eleito – 1952 / 1955
11- Sólon Lima Verde – Prefeito Eleito – 1956 / 1958
12- José Nobre Gadelha – Prefeito Eleito – 1959 / 1962
13- Raimundo Aírton de Castro – Prefeito Eleito - 1963 / 1966
14- Antônio Joaquim de Oliveira Filho – Prefeito Eleito – 1967 / 1970
15- Raimundo Aírton Ferreira de Castro – Prefeito Eleito - 1971 / 1972
16- Dr. Gerardo Alves de Melo – Prefeito Eleito – 1973 / 1976
17- Dr. Francisco Ary Ribeiro Teixeira – Prefeito Eleito – 1977 / 1982
18- Dr. Vicente Bastos Sampaio - Prefeito Eleito – 1983 / 1988
19- Dr. Francisco Ary Ribeiro Teixeira - Prefeito Eleito – 1989 / 1992
20- Dr. João Aguiar de Brito – Prefeito Eleito – 1993 / 1996
21- Dra. Marilene Campelo Nogueira – Prefeito Eleito – 1997 / 2000
22- Dr. Francisco Ary Ribeiro Teixeira - Prefeito Eleito – 2001 / 2004
23- Dra. Marilene Campelo Nogueira – Prefeito Eleito – 2005 / 2008
24- Dra. Marilene Campelo Nogueira – Prefeito Eleito – 2009 / 2012 - Atual


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Foto do acervo do Museu de Aracoiaba

Ponte de Aracoiaba - Arquivo Nirez

QUANTO A SUA TRADIÇÃO, MUITAS PESSOAS FIZERAM PARTE HISTÓRIA PELOS SEUS TRABALHOS E COSTUMES DESDE O MAIS SIMPLES AO MAIS ALTO

CARRETEIROS


  • Sr. Marcelino dono do primeiro carro carnavalesco, com alegorias em Aracoiaba.

  • Pedro Velho carregava passageiros de trem que andava com bagagens.

  • João Barata que bebia muito e nunca faltava dinheiro no bolso, para pagar bebida para os amigos.
Antigo prédio da Telemar década de 80/90 - Foto de Artur Ricardo

Desfile cívico na Praça 16 de Agosto déc de 70/80 - Foto de Artur Ricardo



PROFISSIONAIS ANTIGOS

Ferreiro – Sr. Pedro da Silva
Fábrica de calçados – Sr. Chico
Fogueteiro – Chico Canário
Fábrica de bonecas – Dona Raquel
Cerâmica ( Barro ) Sr. Teotônio
Carpintarias – Etelberto de Castro
Medicina Popular – Sr. Antônio Moura e Sr. Sólon
Seresteiro – Francisco Aceles
Restaurante – Dona Marcelina

PONTOS TURÍSTICOS:

a) Ponte Metálica Ferroviária
b) Barragem do João Correia
c) Pedra Aguda
d) Foz dos Rios Aracoiaba e Choró
e) Ponte do Rio Mazagão
f) Observatório Moura Brasil ( Astronomia )
g) Capelinha do Alto Santo
h) Ponte sobre o Rio Aracoiaba – Vazantes
i) Pólo de Lazer ( Horto Florestal )
j) Ponte sobre o Rio Choró – Ideal


Vista área - Centro de Aracoiaba déc. de 1970/80 - Foto de Artur Ricardo

SAÚDE

Aracoiaba passou muitos anos com seu setor de saúde bastante precário, dependendo exclusivamente da “ MEDICINA POPULAR ”, porém os irmãos Dr. Gerardo e Almir Pinto deram o ponta- pé inicial juntamente com os políticos da época, lançando assim, a Pedra Fundamental da “ Maternidade Santa Isabel ”.

Foi então iniciada a construção do prédio, que mal passou dos alicerces, tendo sido a mesma paralisada por muitos anos, reativada sua construção somente na primeira gestão do Governador Virgílio Távora.

Por ocasião da inauguração, ficou acertada que a mesma só se concretizaria, após o nascimento de uma criança naquela Maternidade e no caso de nascer do sexo feminino, chamar-se-ia “ Isabel ”. A criança foi “ Isabel Diana Freitas de Brito ”, nascida em 24/08/1966, a qual hoje é jovem funcionária do Município.

Atualmente o Hospital e Maternidade Santa Isabel, muito já cresceu atendendo todo o Município e Municípios Vizinhos e conta com o apoio de postos de saúde nos distritos e povoados.


Foto de Carlos Blemar

JUSTIÇA

Aracoiaba foi erguida em Município pelo Decreto Nº 44, de 16 de Agosto de 1890, assinado por Antônio Luiz Fenas. Foi criado seu Foro Civil em 02 de Setembro de 1896, pela Lei Nº 324, tendo seu respectivo termo sido instalado em 24 de Outubro do mesmo ano. Presidiu o ato o Dr. João Firmino Dantas, Juiz de Direito de Baturité.

Lei Nº 213, de 09 de Junho de 1948, o termo foi elevado à categoria de Comarca de 1ª Estância.



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Fontes: Wikipédia, http://www.aracoiaba.ce.gov.br e PESQUISA REALIZADA EM DEZEMBRO DE 2009 POR ARTUR RICARDO (ESTUDANTE DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO BRASIL)


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Estação de Acopiara (antiga Lajes e Afonso Pena)


A estação de Acopiara em 1957. Foto da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros de 1959

A linha-tronco, ou linha Sul, da Rede de Viação Cearense surgiu com a linha da Estrada de Ferro de Baturité, aberta em seu primeiro trecho em 1872 a partir de Fortaleza e prolongada nos anos seguintes. Quando a ferrovia estava na atual Acopiara, em 1909, a linha foi juntada com a E. F. de Sobral para se criar a Rede de Viação Cearense, imediatamente arrendada à South American Railway. Em 1915, a RVC passa à administração federal. A linha chega ao seu ponto máximo em 1926, atingindo a cidade do Crato, no sul do Ceará. Em 1957 passa a ser uma das subsidiárias formadoras da RFFSA e em 1975 é absorvida operacionalmente por esta. Em 1996 é arrendada juntamente com a malha ferroviária do Nordeste à Cia. Ferroviária do Nordeste (RFN). Trens de passageiros percorreram a linha Sul supostamente até os anos 1980.



O trem cargueiro da CFN chega ao pátio de Acopiara, em 2002. Foto João Carlos Reis Pinto

A ESTAÇÃO: A estação de Lajes foi inaugurada em 1910 no povoado do mesmo nome, que passou a crescer exatamente por causa da implantação da estação ferroviária. Nos anos 1920, o então já distrito e a estação passaram a se chamar Afonso Pena (em 1922 já tinha esse nome) e, em 30/12/1943, finalmente Acopiara.

No dia 16 de janeiro de 1909, o jornal O Estado de S. Paulo publicava a notícia de que "acha-se concluído no prolongamento da E. F. Baturité o trecho da linha de 27 kilometros e 200 metros entre as estações de Miguel Calmon e Affonso Penna. A inauguração desse trecho depende apenas de accordo entre o Governo e os arrendatários da mesma estrada". Pelo visto, demorou um ano e meio para chegarem a esse acordo. Mas nota-se que, ao contrário do que é dito em outra fonte Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, 1959), a estação já se chamava Afonso Pena e não Lajes. Qual será o certo, ou qual será a explicação para a diferença?



A estação em 28/3/2008. Foto Clódio Pereira de Almeida

A estação está abandonada desde março de 2008. (Fontes: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XVI, IBGE, 1959; Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, 1960; Revista Ilustração Brasileira, "2145 Quilômetros pelo Nordeste Brasileiro", 1922; João Carlos Reis Pinto, 2002; Clódio Pereira de Almeida, 2008; O Estado de S. Paulo, 16/1/1909)





terça-feira, 2 de agosto de 2011

Poeta Paula Ney



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Francisco de Paula Ney, cearense, poeta, boêmio, jornalista e eloqüente orador. Nasceu em Aracati no dia 02 de fevereiro de 1858. Filho de Mariano de Melo Nei – alfaiate – primeiro Mestre do corte em Fortaleza e D. Carlota Cavalcanti de Sousa Pinheiro

Quando menino, constituiu-se o tormento de diferentes casas de ensino.  
Em Fortaleza estudou no Ateneu Cearense, sendo contemporâneo de Capistrano de Abreu, Rocha Lima, Domingos Olímpio, João Lopes, Rodolfo Teófilo e Xilderico de Farias. Em 1873 passou a estudar no Seminário de Fortaleza, atendendo ao desejo de seus pais. Por falta de vocação e mal comportamento, é devolvido aos pais, ingressando então no Liceu Cearense. Cedo, radicou-se no Rio de Janeiro, começou a estudar na Faculdade Nacional de Medicina. Após uma desilusão amorosa e a reprovação nos exames, decidiu dar continuidade aos seus estudos na Faculdade de Medicina da Bahia. Desistindo de estudar medicina e, saudoso da boemia carioca, retorna ao Rio de Janeiro. 

Escritor e jornalista de grande talento, Paula Ney era bem humorado e modesto: não assinava seus textos. 
Participou das rodas boêmias do Rio do século 19. 

Nomeado Diretor da Hospedaria dos Emigrantes por Floriano Peixoto, foi destituído por Prudente de Morais

Francisco de Paula Ney, morava no Rio de Janeiro nos idos dos anos 30. 
Certa vez, sua esposa, preocupada com a ausência do marido, 
foi encontrá-lo bebendo com amigos em plena sexta-feira santa. 
Ao ver a mulher, Ney levanta-se  e sai tombando. 
A esposa insiste: - Até na sexta-feira santa, quando morreu 
Deus! O poeta respondeu:- Quando morre a divindade, 
a humanidade cambaleia!



Da poesia de Paula Ney são conhecidas por volta de seis. O soneto "A Fortaleza" segundo os biógrafos Raimundo Menezes e Ciro Vieira Cunha, foi reproduzido em várias antologias, resistindo ao tempo. Ele retrata seu grande amor pela terra natal. Fortaleza é conhecida como "A loira desposada do sol" por todo o país.


Fortaleza

Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loira desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins pousada
Na brancura de místicos altares.
Lá canta em cada ramo um passarinho,
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais...
É minha terra! a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais!


Outros, que também tiveram desregrado viver, não sucumbiram sem que nos deixassem em obras imperecíveis o traço marcante e indeléveI de suas mentalidades. Paula Ney, porém, é único. Tendo podido legar-nos uma obra imorredoura, não o fez e passou pela vida numa despreocupação de cigarra imprevidente, ou pássaro canoro que não dá apreço aos gongeios que modula. Apesar dos seus estonteamentos, Paula Ney era senhor duma sensibilidade de rara delicadeza moral. Coelho Neto, no livro "Fogo Fátuo" reconhece-lhe a beleza da alma: “Uma criança dobrava-o, a dor de um animal comovia-o até às lágrimas, uma planta machucada ao sol inspirava-lhe piedade”. O banqueiro e o Operário, a matrona e a "cocote", o fidalgo e o mendigo, tratavam-no com a mesma familiaridade - era o Ney, o alegre Ney, que fazia rir, mas também o Ney que enxugava lágrimas, que levava criancinhas doentes aos consultórios dos médicos, que visitava os enfermos em verdadeiras tocas de miséria, que defendia os animais com um carinho piedoso - abelha dourada que distribuía o mel e as ferroadas, com a mesma liberalidade.

Paula Ney Boêmio

Paula Ney foi uma figura marcante no Rio de Janeiro, fazendo parte de uma brilhante geração de literatos. Em sua época, os cafés e as confeitarias eram os lugares de encontro dos intelectuais. O grupo frequentava a Confeitaria Pascoal, na Rua do Ouvidor e, posteriormente, migraram para a Confeitaria Colombo, com sua fundação, na Gonçalves Dias em 1894.
Seus companheiros de boemia eram: Olavo Bilac, Coelho Neto, José do Patrocínio, Pardal Mallet, Luís Murat e Guimarães Passos.

A Rua do Ouvidor era o lugar mais famoso do Rio de Janeiro, aclamada pelos escritores, sendo destacada no capítulo V do romance Tentação do cearense Adolfo Caminha.

"A Rua do Ouvidor estava num de seus dias de festiva alacridade, inteiramente cheia, como um rio a transbordar, tumultuoso, murmurejante e iluminado por um sol acariciador de primavera. Iam e vinham os habitués de ambos os sexos, numa procissão de toilettes vivas, num burburinho de festa pública entrechocando-se, acotovelando-se. Famílias conversavam à porta das lojas, moças e velhas madamas, senhoras de todas as idades e de todos os tamanhos, rindo, como se estivessem no interior de suas casas, beijando-se alto, enquanto os pais e os maridos discutiam política à porta dos cafés, à espera que elas acabassem de "fazer as compras". Ecoavam gargalhadas entre os homens. Uma banda de música a tocar polcas e valsas faria toda aquela gente esquecer-se de que estava na Rua do Ouvidor e cair num grande bailado ao ar livre. As maiores notabilidades da política, da literatura e das artes, os mais conhecidos escritores e homens de Estado viam-se ali, em grupos, à porta do Café de Londres, do Castelões ou do Pascoal, frechando, com o olhar, o madamismo suspeito e as demoiselles ricas, assistindo ao desfilar tumultuoso das cocotes, e das condessas, biografando-as uns aos outros com risinhos de inveterada malícia, observando-lhes o andar, os meneios, a toilette, a opulência das carnes, como se as quisessem devorar num ímpeto de canibalismo sexual, acompanhando-as a perder de vista, gulosos, famintos e banais. Moços de flor ao peito, no rigor da moda, alguns chegados de Paris, iam e vinham, numa ostentação pedantesca de polainas, de casimiras claras, de coletes brancos e de frases tolas, cumprimentando à direita e à esquerda, erectos como figuras de vitrina. Os armazéns de modas enchiam-se; enchiam-se os cafés e as confeitarias, e o zunzum aumentava de entontecer, dentro das lojas e na rua."

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Paula Ney jornalista

Desde cedo descobriu que sua verdadeira vocação era o jornalismo e, por essa profissão, largou o curso de medicina. Raimundo de Menezes, no livro A vida boêmia de Paula Ney fala da sua atuação enquanto repórter:
"Foi repórter e alardeou, sempre com satisfação, este mister, cavando novidades na Polícia e bisbilhotando boatos no Parlamento. 
"Além de fundar "O MEIO", juntamente com Coelho Neto e Pardal Mallet, panfleto que teve vida rápida, mandado fechar pelo governo provisório, houve tempo em que dirigiu a revista "O ÁLBUM", (1893-1894), também de pouca duração."
"Fez reportagens, durante largo tempo, em épocas diferentes, para a "GAZETA DE NOTÍCIAS", para a "GAZETA DA TARDE", para o "DIÁRIO DE NOTÍCIAS", para a "CIDADE DO RIO"...
Paula Ney trabalhou com José do Patrocínio no jornal Gazeta de Notícias. Ambos propagavam a abolição dos escravos, tendo trabalhado com afinco em prol dessa causa. Foi Paula Ney quem trouxe José do Patrocínio ao Ceará para trazer mais um incentivo à causa abolicionista, porque no Ceará o movimento já era uma realidade. É de José do Patrocínio a famosa frase: "O Ceará é a terra da luz!"

Paula Ney era um homem muito inteligente e tinha respostas prontas para todas as ocasiões. Fazia rir a todo mundo. Suas piadas ficaram famosas. ..:


Colegas...
Após a sua entrada para a pasta da Fazenda, havia o conselheiro Francisco Belisário Soares de Sousa recorrido, já, três vezes, ao crédito do país no estrangeiro, quando, ao passar um dia pela rua do Ouvidor, ouviu que alguém o saudava, alto: - Bom dia, sr. Conselheiro, meu amigo e colega! O ministro voltou-se, e, vendo Paula Ney, de chapéu na mão, numa reverência, correspondeu, atrapalhado, ao cumprimento. E Ney, logo, com o mesmo sorriso: - Colega, sim... Porque... V. Excia. Também não vive de empréstimos?

O calo

Paula Ney, o maior desperdiçador de talento que o Brasil já possuiu, não perdoava os seus desafetos e, ainda menos, as nulidades pretensiosas que prosperavam no seu tempo. Conservava-se, uma tarde, em um grupo na rua do Ouvidor, sobre o prestígio da imprensa, quando um presentes, que se dizia jornalista, aventurou, acaciano: - A imprensa é um grande corpo... - É... é... - atalhou Paula Ney, piscando por trás do "pince-nez". - A imprensa é um grande corpo. Mas você, nesse corpo... E sem temer a reação: - É o calo do dedo mínimo do pé esquerdo!...



O poeta viveu intensamente a sua permanência neste planeta, repartindo a existência descuidosa entre salas de redações, cafés e botequins, infalível em rodas patuscas de literatos e em quaisquer manifestações de rua que agitassem a alma popular.
Paula Ney nunca pretendeu se dedicar seriamente à literatura, e muito menos viver dela – passou sua mocidade vivendo do que lhe rendia sua atividade na imprensa diária, bem como dos freqüentes favores que lhe faziam seus colegas e conhecidos. Sua vida apenas conheceu relativa estabilidade após seu casamento, quando o status de pai de família, o emprego público e a saúde cada vez mais fragilizada impediam-lhe de viver no mesmo desregramento de antes. Não obstante fugir da carreira literária, que considerava avessa ao seu gênio turbulento e ansioso por movimento, Paula Ney, em sua curta existência (faleceu aos 39 anos de idade), acabou deixando à posteridade, além das linhas que anonimamente escreveu nos jornais, também algumas modestas produções poéticas, que, juntamente com alguns discursos de sua lavra (Paula Ney foi brilhante orador, ficando famosa sua capacidade de improvisação, sendo que nos restou algumas transcrições de seus discursos nos jornais da época), compõem seu reduzido acervo literário.
Atacado de tuberculose pulmonar, faleceu em 13 de outubro de 1897, no Rio de Janeiro.


Fortaleza homenageou Paula Ney com um nome de rua. É uma rua residencial que nasce na Rua Barbosa de Freitas e morre na via férrea Parangaba-Mucuripe. No Rio de Janeiro a rua Paula Ney fica no Realengo. Em São Paulo a rua Paula Ney se situa no Bairro da Aclimação.

Paula Ney nutria um grande amor pelo Ceará. Ele costumava dizer: "Pelo Brasil eu morro e pelo Ceará eu mato!".

No livro "A conquista" de Coelho Neto é narrada a recepção feita por ele e Paula Ney aos retirantes do Ceará, fato também relatado por Raimundo Menezes em seu livro "A vida boemia de Paula Ney" quando houve a seca dos "Três Oitos" no Ceará. Paula Ney soube que os retirantes chegariam de navio ao Rio de Janeiro. Junto com Coelho Neto foram recepcioná-los. "Ney, de pé, a gesticular com o chapéu, gritava emocionado: - "Salve, Ceará! Cearenses, está aqui o Ney, vosso irmão, vosso patrício, que vos veio esperar. O Ney! Aqui estou eu! Aqui estou eu! O Ney!" Deu apoio, incentivo e consolo aos retirantes. Depois voltou-se para Coelho Neto: - "Ah! "seu" Neto! balbuciou, e, emocionado, chorou, como uma criança..

"Encontrava-se na capital cearense, em férias parlamentares, pelas alturas de 1891, o então deputado federal João Lopes Ferreira Filho, íntimo amigo de Paula Ney e seu antigo companheiro dos bancos do “Ateneu”. Quase nas vésperas do seu regresso ao Rio, recebeu ele um telegrama do boêmio, em o qual lhe pedia que levasse dois saquinhos de areia da praia do Mocuripe. A princípio estranhou a originalidade do pedido, mas, como lhe competia, levou a encomenda. Chegado que foi à Capital Federal, Ney, propositadamente, não lhe apareceu no desembarque, alegando motivos de doença. João Lopes mandou levar-lhe, então, os dois pacotinhos, com a recomendação de que, à noite, iria visitá-lo. Efetivamente, o congressista cearense rumou, ao anoitecer, para a casa do poeta , então à rua Buarque de Macedo, no Catete. - Oh! “seu” Ney, disse logo de entrada, para que diabo quer você, no Rio, areia do Mocuripe? Ao que, o boêmio, tomando do braço do amigo, empurrou-o casa adentro, e moustrou-lhe na alcova a espôsa que esperava dar à luz o primogênito. - Vê? A minha esdrúxula encomenda, no seu modo de julgar, tem a sua razão de ser. Se não, veja:_o meu primeiro filho há de ser cearense, porque vai nascer sobre a areia do Mocuripe...”