Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Plácido de Carvalho



Plácido Barbosa de Carvalho, nascido, a 17/01/1873, em Canindé, era filho de Bernardino Plácido de Carvalho e de Alexandrina Barbosa Cordeiro de Carvalho.

Do português Bernardino Plácido de Carvalho se soube, através do depoimento oral de Hélio Pinto Vieira, que era 1º. secretário da “Be
neficência Portuguesa Dous de Fevereiro” em 1872. Dele também se tem notícia que era sócio, em 1880, da firma “Plácido de Carvalho &
Cia.
”, proprietária da fábrica de cigarros “São Sebastião”, localizada na Rua da Palma (atual Rua Major Facundo), bem como de que era proprietário da loja de tecidos "Rocambole”, situada na Rua Formosa (atual Rua Barão do Rio Branco).


Já de Alexandrina Barbosa Cordeiro de Carvalho se sabe que era descendente de tradicional clã de Canindé. Plácido de Carvalho, que iniciara a vida profissional como caixeiro da firma “Barroso, Pinto & Cia.” constitui, em 13/02/1899, a firma individual “Plácido de Carvalho”, que será proprietária de uma loja de modas, situada na Rua Floriano Peixoto, no então nº 47.


Segundo propaganda, publicada no Almanaque do Ceará de 1905, a “Casa Plácido”, que se situa na Rua Major Facundo (no então nº 94), com entrada também pela Rua Formosa (na época, no nº 91), era, em 1904, um “Importante estabelecimento de fazendas, modas, novidades e artigos de alta fantasia”, bem como era especializada “em enxovais completos para batizados e casamentos”, sendo tudo, que nela era vendido, importado diretamente. Ali também é anunciado que os artigos para homens, senhoras e crianças, comercializados na “Casa Plácido”, eram recebidos diretamente do “Chic Parisiense e Fluminense”.



Na mesma propaganda, a “Casa Plácido” torna público que também vende artigos de uso doméstico: “da mais rica a mais modesta mobília, lavatórios, camas para casais, para solteiros e para crianças, tapetes para salas e entradas, esteiras, capachos, espelhos, jarros, cortinados para camas e portas, e cuspideiras”, assim como “bicicletas e tricycles para crianças e mais artigos concernentes ao gênero”.

Em 05/10/1914, é inaugurada a “Fábrica Nacional de Mosaicos e Telhas”pela firma Carvalho & Silva, pertencente a Plácido de Carvalho e Luiz Gonzaga Flávio da Silva. Esse estabelecimento industrial, situado na Rua Vinte e Quatro de Maio, permaneceria como propriedade dessa firma até 1922, quando passa a pertencer exclusivamente a Plácido de Carvalho, como se pode verificar no Almanaque do Ceará daquele ano.

Luiz Gonzaga Flávio da Silva, o outro proprietário do supracitado empreendimento, tornar-se-ia sócio do pai, o construtor Rodolpho Ferreira da Silva, numa nova fábrica de mosaicos a partir de 1926.

Em 1915, Plácido de Carvalho dá início a construção de imponente prédio, de quatro andares, na Praça do Ferreira (lado da Rua Major Facundo). Quando da construção desse prédio, ele é procurado por Luiz Severiano Ribeiro, que lhe propõe o arrendamento da sua parte térrea, onde pretendia instalar um cinema. Em 02/09/1917, era inaugurado o “Cine Theatro Majestic-Palace”, pertencente a firma “Ribeiro & Cia.”, nascida de uma sociedade de Luiz Severiano Ribeiro com Alfredo Salgado, em 1913.

Em 1920, a “Ribeiro & Cia.” arrendaria também os três andares superiores do supracitado prédio e instalaria um hotel denominado de “Majestic-Palace”. Esse hotel, que permaneceria em atividade até 1926, pertenceria a “Ribeiro & Cia.” até 1921, e, após a extinção dessa firma, nesse ano, continuaria a pertencer a firma individual “Luiz Severiano Ribeiro” até seu fechamento.

É oportuno lembrar que a “Ribeiro & Cia.” também instalou salões de bilhar, nesse referido prédio, a partir de 1917, como já fizera, em 1916, no “Cine Riche”.


A parceria de Plácido de Carvalho com Luiz Severiano Ribeiro, que teve início com o arrendamento do prédio do “Majestic” pelo segundo empresário, iria se repetir por duas vezes mais: quando ele constrói o prédio do “Cine Moderno”, também localizado na Praça do Ferreira, e o aluga para Ribeiro, que inaugura o seu cinema, ali instalado, em 07/09/1921, e, quando adquire, por volta de 1933, o prédio do “Cine Luz”, localizado na Praça da Estação e pertencente a “Empresa Cine Luz Ltda.”, e o arrenda para Luiz Severiano, que o reinaugura em 27/06/1933. 


O Cine Luz surgiu em 28 de março de 1931, na Rua General Sampaio 526, esquina com Castro e Silva, na Praça Castro Carreira (da Estação) numa dependência da antiga Fábrica Proença, com o filme “A dama escarlate”, da Columbia Pictures. Pertencia a Bernardino Proença Filho e José Bezerra da Silva. A Foto é de janeiro de 1943, quando estava em cartaz - 'Blackout - Nas Sombras da Noite' (Contraband - Blackout), produção inglesa, de 1940, dirigida por Michael Powell, com Valerie Hobson e Conrad Veidt. O filme foi lançado no circuito Ribeiro no dia 3 de janeiro de 1943. 

Durante a primeira Guerra Mundial, Plácido de Carvalho se casa, em Paris, com Maria Pierina Rossi, nascida em Milão (Itália), em 11/01/1889. Dessa união, não nasceriam descendentes.


Com a chegada de Pierina, ao Ceará, em 1917, o casal passou a residir na Rua Princesa Isabel. Somente em 1920, com a conclusão da construção do “Palacete Plácido de Carvalho”, mudar-se-ia ele para o Outeiro.

Conforme declaração, de 15/06/1921, arquivada na Junta Comercial do Estado do Ceará, a firma “Plácido de Carvalho” declara que atua no “gênero de comércio de fazendas e armarinho”, que se situa na Rua Major Facundo, nº 160, e que o “capital empregado no negócio” é de 200 contos de réis.
Não conseguimos identificar em que ano a “Casa Plácido” sai de atividade. No entanto, a última vez em que ela é arrolada, entre os estabelecimentos comerciais que atuam, em Fortaleza, no “ramo de modas e confecções”, no Almanaque do Ceará, data de 1925.

Com base na Lei nº 2266, de 03/09/1925, que concedia, pelo prazo de 15 anos, isenção de décimas e todos os impostos estaduais, a quem construísse vilas operárias com 100 casas ou mais, o Presidente do Estado, José Moreira da Rocha, elabora a Lei nº 2352, de 14/11/1925, que concede, a Plácido de Carvalho, isenção, por 15 anos, de impostos estaduais, menos os de consumo, para uma Fábrica de Fiação e Tecelagem que ele vier a construir em Fortaleza.

Essa isenção seria relativa à fábrica e seus produtos, ao prédio, no caso de ser próprio e para esse fim especialmente construído, ao escritório e armazéns de depósito dos produtos da fábrica, às casas de moradia de gerentes, mestres e contramestres, bem como à vila operária
destinada à residência dos operários da fábrica.

Possivelmente para beneficiar Plácido de Carvalho, o Presidente Moreira da Rocha, elaborou a Lei nº 2354, também de 14/11/1925, pela qual é concedida isenção, por 20 anos, de impostos estaduais, sobre a construção e exploração de um grande hotel em Fortaleza.
Tal hotel deveria conter, pelo menos, 40 aposentos higiênicos e confortáveis, devendo o edifício obedecer a uma arquitetura moderna.
Essa isenção começaria a vigorar desde o dia de inauguração do hotel, cuja construção deveria ter início dentro do prazo de 24 meses, a contar da data de publicação da referida lei.

Em 1927, Plácido de Carvalho manda demolir o “Sobrado do Comendador Machado” e, no seu local, dá início a construção do “Excelsior Hotel”, que será inaugurado em 31/12/1931.
Coincidentemente, no ano que tem início a construção do “Excelsior Hotel”, Fortaleza passaria a dispor, a partir de 17/07, de um moderno hotel, o “Palace Hotel”, situado no Passeio Público e pertencente a Éfren Gondim. O “Palace Hotel” se situava no prédio onde
funcionou o “Hotel de France”, que passou por uma reforma após ter sido adquirido, por 80 contos de réis, por José Gentil Alves de Carvalho, dos herdeiros de Dário Teles de Menezes conforme Raimundo Girão.

Segundo propaganda, no Àlbum de Fortaleza de 1931, o “Excelsior Hotel” era “servido por elevadores Otis”, tinha “apartamentos, para famílias e cavalheiros, com dormitórios, sala de visita, banheiro e telefone”, todos dotados de “água corrente e mobiliário de 1ª classe”. Dispunha também de “especial cozinha à brasileira e estrangeira, restaurant à La carte, american bar, vasto terraço para dancing, banquete, recepções etc., a 50m de altura, salão de barbearia e manicure e central telefônica ligada a todos os aposentos”.


Plácido Barbosa de Carvalho faleceria a 04/06/1935, no “Excelsior Hotel”, após padecer, por seis meses de grave enfermidade (O Povo, de 05/06/1935).
Em edição de 08/06/1935, o jornal O Povo traz notícias sobre o testamento deixado por Plácido. Segundo a matéria ali publicada, ele teria deixado para Natali Rossi, seu cunhado, 50 contos de réis; para José Lucas da Silva (construtor), 10 contos; para José Borges dos Santos, três contos; e, para Francisco Lopes (gerente da fábrica de mosaicos), 15 contos.
Para sua irmã, Maria das Mercedes Fernandes Vieira, foi deixada uma pensão vitalícia de 600$000 e partes do prédio da Rua Barão do Rio Branco, nº 810, onde ela já possuía partes.
Para seus sobrinhos-netos, filhos de sua sobrinha e afilhada Denise Vieira Paiva, filha de Maria das Mercedes e Afonso Fernandes Vieira, e casada com o Tenente Gonçalo Paiva, coube os prédios da “Farmácia Oswaldo Cruz”, do “Cine Moderno”, bem como o prédio situado, atualmente, no cruzamento das ruas Alberto Nepomuceno com Rufino de Alencar (que deveriam permanecer inalienáveis e impenhoráveis) e mais 60 contos de réis, destinados à construção de um prédio na cidade do Rio de Janeiro.

Para Zaira Andersen, filha de Pierina e sua enteada, deixou Plácido de Carvalho o “Palacete Iracema” (também conhecido como “Sobrado do Pastor”), localizado na Praça do Ferreira, e um prédio situado na Praia de Iracema (ambos os imóveis gravados com as cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade).

Para Maria Pierina Rossi de Carvalho, sua esposa, além de joias e dinheiro, tocou todos os outros bens móveis e imóveis de sua propriedade, como os prédios do “Cine Majestic” e do “Excelsior Hotel”. No caso dos bens imóveis, todos deveriam atender as condições de não
alienação e não penhorabilidade.

Deixou Plácido, ainda, para a Santa Casa de Misericórdia, 100 contos de réis; para o Asilo de Alienados, 100 contos; para o Colégio da Imaculada Conceição, 100 contos; para o Instituto de Proteção à Infância, 50 contos, e, para a Escola Pio X, 50 contos. O legado deixado para estas instituições estava sob a forma de títulos da dívida pública da União, valendo, cada um, 1:000$000, (todos gravados com as cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade).

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Leia sobre o Palácio do Plácido AQUI


Crédito: Plácido de Carvalho e Luiz Severiano Ribeiro: 
“uma dupla de cinema”
Carlos Negreiros Viana



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Personalidade - Lauro Maia Teles, o cearense que criou o balanceio!


Lauro Maia Teles (Fortaleza, 06/11/1913, Rio de Janeiro - 05/01/1950)

Arquivo Nirez
  
Nascido em Fortaleza, desde cedo se interessou pela música folclórica de sua terra, realizando diversas pesquisa sobre o tema. Foi o primeiro a tentar urbanizar ritmos locais com o lançamento do balanceio ("Marcha do Balanceio", gravada por Joel e Gaúcho, "Tão Fácil, Tão Bom", interpretada pelos Vocalistas Tropicais em meados da década de 40). No começo da década de 40, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde tocou em cassinos da cidade. Sua primeira composição, “Eu Vi um Leão”, de 1942, foi gravada pelo grupo Quatro Ases e Um Curinga, que só viria a fazer sucesso dois anos depois, com outra marcha do músico: “Trem de Ferro”. Com o cunhado Humberto Teixeira, compôs “Só uma Louca Não Vê”, sucesso na voz de Orlando Silva, em 1945. Após sua morte, em 1950, suas músicas continuaram sendo gravadas e fazendo sucesso – Carmélia Alves gravou “Trem ô Lá Lá”, outra parceria com Teixeira, e Raul de Barros, o choro “Faísca”. Até João Gilberto andou gravando suas canções, como em “Trem de Ferro”, interpretada pelo baiano em 1961.



 

Lauro Maia e seu amigo Aleardo Freitas - Arquivo Nirez

Nascido em Fortaleza, Ceará, em 06 de novembro de 1913, ano de transição na vida política cearense, com derrubada de governantes (1912 e 1914) e o surgimento de muitas inovações. Lauro Maia participou intensamente da vida cultural da cidade. No piano da mãe, instrumento indispensável nas casas de classe média daquele tempo, Lauro ensaiou seus primeiros passos como músico e compositor. Foi de sua própria genitora que o garoto recebeu as primeiras aulas de teoria musical. Sua mãe era professora de teoria musical. Ainda com calças curtas, cursava o antigo ginásio, com apenas 13 anos, quando começou a apresentar-se, tocando piano no Cine-Teatro Majestic, em Fortaleza. Mais tarde, com o adoecimento do pianista titular, passou a substituí-lo.

 
Casa onde Lauro Maia nasceu (a da seta) na Avenida Visconde de Cauhype, hoje Avenida da Universidade, nº 1946, essa casa vizinha é a do Colégio Fortaleza, depois Clínica do Dr. Godoy - Arquivo Nirez

Em 1935 começou a trabalhar na Ceará Rádio Clube (1935/1941) dirigindo o programa "Lauro Maia e Seu Ritmo". A rádio era a única emissora de rádio que havia e que divulgava a música brasileira e de fora. Na mesma época, criou juntamente com Paulo Pamplona, Ubiraci de Carvalho, Roberto Fiúza e Antônio Fiúza, o Quinteto Lúpar. A consagração veio em 1937, através de um concurso de música carnavalesca, onde obteve primeiro lugar em duas categorias - marcha e samba - com as músicas Eu Sei O Que É e Eis O Meu Samba . O julgador era ninguém menos do que o já consagrado e exigente Ari Barroso. Em 1938, assumiu a direção artística da rádio e passou a dirigir a Orquestra Jazz PRE-9. Em 1942 compôs o samba Cara de judeu , grito de guerra da Escola de Samba Lauro Maia (1942/1945), que desfilou pela primeira vez, tornando-se grande sucesso em Fortaleza. Em 1943, o grupo Quatro Ases e Um Coringa gravou o xote Fa-Ran-Fun-Fan! e a marcha Trem de Ferro, maior sucesso da sua carreira e que seria regravada em 1961, dois anos após sua morte, também com grande sucesso, por João Gilberto. Ainda em 1943, Orlando Silva gravou o samba Febre de Amor. Em 1944, o Quatro Ases e Um Coringa gravou a marcha Palminha de Guiné. Ainda nessa época, freqüentou a faculdade de Direito vindo a abandoná-la mais tarde para fixar-se definitivamente no Rio de Janeiro.

 
Arquivo Nirez

Em 1945, casado com Djanira Teixeira, irmã de Humberto Teixeira, transferiu-se em definitivo para o Rio de Janeiro, para viver exclusivamente de suas composições, já consagradas na época pelos maiores nomes da música. Passou a se apresentar em casas noturnas e no Cassino da Urca. Embora o forte dele não fosse letra, pois era mais músico que letrista, a maior mudança que poderia acontecer ao chegar ao Rio foi aliar-se ao cunhado, Humberto Teixeira. Logo que chegaram, a mulher de Lauro Maia naturalmente entrou em contato com o irmão Humberto, e eles, parentes e compositores, acabaram se conhecendo no Rio. Foi aí que Humberto passou a burilar as letras do Lauro Maia, modificou, melhorou muito as composições. Muitas foram corrigidas ou adaptadas. Ficaram muito amigos e Humberto Teixeira se tornou seu maior parceiro. Lauro Maia transferiu-se para o rio com um novo ritmo na bagagem para ser lançado no mercado fonográfico. Ele trazia o balanceio (Eu Vou Até de Manhã), uma mistura dos ritmos típicos do nordeste com a marchinha carioca. O sucesso foi muito grande. No carnaval seguinte Lauro Maia fez uma adaptação da música para o ritmo carnavalesco, e quando fez a adaptação botou também o nome do Humberto como compositor. Humberto só viu quando a música já estava gravada. Humberto contava que sempre deixou bem claro que a música não era dele, Lauro é que havia feito uma gentileza, uma parceria graciosa. Em compensação, muitas músicas de Lauro Maia foram lançadas por iniciativa do Humberto Teixeira, colocando letra. E em todas, mesmo naquelas lançadas após o falecimento de Lauro Maia, que Humberto Teixeira tinha as partituras e poderia lançar como se fossem só dele, ele sempre respeitou o nome do Lauro Maia. Foi a parceria mais profícua. Depois, Lauro conheceu Carlos Barroso, fez musica com vários outros parceiros, como também fazia sozinho. Mas era bem menos. Lançava três, quatro músicas com Humberto Teixeira, pra uma que lançava só, ou com outro parceiro.



 
Ainda em 1945, foi contratado pela Rádio Tupi. No mesmo ano, Orlando Silva gravou outro sucesso de sua autoria em parceria com Humberto Teixeira, Samba de Roça.

No ano seguinte, a dupla teria outra composição gravada, desta vez por Joel e Gaúcho, A Marcha do Balanceio. Suas composições, a partir do lançamento de Marcha do Balanceio, gravada por Joel e Gaúcho, ficariam marcadas por esse novo ritmo. Em 1946, Ciro Monteiro gravou o samba Deus Me Perdoe, parceria com Humberto Teixeira, e os Vocalistas Tropicais gravaram o balanceio Tão Fácil, Tão Bom. O primeiro é considerado uma das obras primas do seu repertório, por boa parte da crítica. No mesmo ano, retornou à Fortaleza por motivos de doença, lá permanecendo por dois anos. Em 1948, voltou para o Rio de Janeiro. Em 1950, Carmélia Alves gravou o baião Trem O Lá Lá, da sua parceria com Humberto Teixeira. No mesmo ano, Stellinha Egg gravou da mesma dupla o baião Catolê e Raul de Barros o choro Faísca.


 

Lauro e seu amigo Euclides Santana - Arquivo Nirez

Luiz Gonzaga, atraído pelo balanceio, chegou a propor formar parceria com Lauro Maia, mas este, porém, indicou seu cunhado Humberto Teixeira. O balanceio foi considerado de difícil execução para os percussionistas. Foi através de Lauro Maia que nasceu a dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e o baião tomou conta do mundo. Lauro Maia mesmo, nunca tocou baião. Não era a praia dele, pois ele não tinha conhecido a manifestação original do baião em suas pesquisas. Lauro achava que o balanceio era mais interessante. E é quase o mesmo do baião. A diferença só é o que eles chamam de ritmo quebrado. Depois que Lauro Maia morreu, teve algumas de suas músicas lançadas como baião por Humberto Teixeira.

Após sua morte, em 1950, suas músicas continuaram sendo gravadas e fazendo sucesso. Os que melhor interpretaram suas obras foram os conjuntos cearenses Vocalistas Tropicais e Quatro Ases e Um Coringa.

Lauro Maia foi um compositor versátil, eclético, que não se prendeu a radicalismos bairristas nem aos apelos externos. Fez a fusão do carioca com o cearense, do romântico com o jocoso, do clássico com o banal, produzindo peças da mais legítima música popular brasileira. Música, porque era catedrático em teoria e em sensibilidade; popular, porque atingia a massa; e brasileira porque sabia fazer cheirar à terra tudo o que criava. Pesquisador incansável e estudioso diligente, procurou adaptar os ritmos populares aos sons urbanos, encantando o Brasil com sambas, balanceios, baiões, batuques e miudinhos. Gostava muito de explorar o folclore. Teve vários casos de músicas influenciadas pela cultura popular, músicas regionais, e outras que fez adaptações. Cantava muito o trem, a estação, regionalidades. Faleceu prematuramente no dia 05 de janeiro de 1950, com 36 anos e dois meses, vítima de tuberculose, no Rio de Janeiro.


 
Arquivo Nirez

Embora fosse uma celebridade em sua época, Lauro Maia estaria completamente esquecido nos dias de hoje, se não fosse o louvável empenho do compositor Calé Alencar e do pesquisador Nirez no sentido de resgatar a sua obra para a posteridade. Em sua homenagem, Fortaleza lhe presenteou com uma rua.

Imagem Google Earth

Em 1993 foi apresentado no Teatro José de Alencar em Fortaleza o show "Lauro Maia - 80 anos", em sua homenagem, com o lançamento de um CD com composições de sua autoria interpretadas, entre outros, por Vocalistas Tropicais, Gilberto Milfont, Falcão, Fagner e Ednardo.




Para a maioria das pessoas, o nome de Lauro Maia talvez não se associe, imediatamente, a música. Afinal, entre tantos e tantos autores, quem seria mais este compositor de obra restrita a uma época de nossa MPB! Entretanto, se for lembrado que há 30 anos, em seu terceiro elepê na Odeon, o baiano João Gilberto incluiu uma deliciosa canção chamada "Trem de Ferro", talvez a memória se avive e ao menos os que tem maior interesse pela nossa cultura popular se liguem a esse compositor cearense, que morreu ainda jovem e cuja obra mereceu o mais completo levantamento que só um estudioso e pesquisador apaixonado como Miguel Ângelo de Azevedo - o Nirez poderia fazer. "O Balanceio de Lauro Maia" (Secretaria da Cultura, Turismo e Desporto do Ceará, 107 páginas, 19 ilustrações, 1991), acrescenta-se a bibliografia de nossa MPB. 


Lauro Maia, embora tendo vivido a maior parte de sua vida em Fortaleza tem ao menos duas ligações com o Paraná. Seu filho, Lauro, 45 anos, casado com Vilma, paranaense de Londrina, mora naquela cidade, onde nasceram os filhos Tatiana (1977) e Lauro Maia Telles Neto (1979). A cantora Stelinha Egg, a nossa vocalista que mais se projetou nacionalmente, há 41 anos, gravou postumamente uma das músicas de Lauro "Catolê", criada sobre motivos populares da região de Cariri. Humberto Teixeira (1916-1979), cunhado e o principal parceiro de Lauro Maia, fez algumas alterações sobre a canção original entregando-a ao maestro Lindolfo Gaya (1921-1987), que acompanhou a Stelinha, sua esposa, na gravação feita pela Capitol em 1950 (posteriormente a Sinter reeditaria o mesmo 78 rpm). 


Sobre o Livro

Nirez não se limitou apenas a fazer a sua biografia: estudou cada uma das músicas, comentou as letras, fez observações interessantíssimas. Também a época em que Lauro viveu - desde o ano de seu nascimento - é rememorada. No Rio de Janeiro, para onde foi em 1945 - quando já haviam sido aprovadas sete de suas músicas (uma delas por Orlando Silva, "Eu Via a Chica Boa"), Lauro conheceu o seu cunhado, Humberto Teixeira, nascendo uma grande amizade e parceria, entre as quais dois sucessos carnavalescos - "Só uma Louca não Vê" e, especialmente, "Deus me Perdoe" (1946, na voz de Ciro Monteiro). 


Trabalhando como pianista na editora dos irmãos Vitale, atuou também em cassinos e algumas rádios. Criador de ritmos - o "balanceio" seria sua marca registrada - Lauro poderia ter sido parceiro de Luiz Gonzaga (1912-1989). Conta Nirez: - "Quando começou a lançar os ritmos no Nordeste como o balanceado, a ligeira e o miudinho, o cantor, acordeonista e compositor Luiz Gonzaga que também vinha lançando ritmos nordestinos como o xamego e o calango, tentou com ele fazer parceria no baião, mas Lauro, avesso a responsabilidade junto a outras pessoas, pois gostava de compor só, ou com Humberto Teixeira que burilava suas peças, encaminhou Gonzaga a Humberto, como advogado com escritório montado na Avenida Calógeras. E foi assim que nasceu o baião urbanizado". Se não tivesse sido modesto, talvez Lauro Maia não seria hoje um nome quase esquecido. Felizmente, Nirez o retirou deste quase anonimato!!!




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Fontes: Nirez, Clique Music, Aramis Millarch (Estado do Paraná) e Viva Terra