Assim como no blog Fortaleza Nobre, vou focar no resgate do passado do nosso Ceará.
Agora, não será só Fortaleza, mas todas as cidades do nosso estado serão visitadas! Embarque você também, vamos viajar rumo ao passado!

O nome Ceará significa, literalmente, canto da Jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena). Há também teorias de que o nome do estado derivaria de Siriará, referência aos caranguejos do litoral.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Delmiro Gouveia: O rei dos sertões

Comprando e vendendo couro de bode, ele enriqueceu. Criou a maior fábrica de linhas do Nordeste e fez inimigos até na Inglaterra. Introduziu a luz elétrica na região e morreu sozinho, baleado na varanda de sua casa.

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, mais conhecido como Delmiro Gouveia, nasceu em Ipu, Ceará, em 5 de junho de 1863 em um Brasil que somente 25 anos depois decretaria a libertação dos escravos. Com apenas 5 anos, ficou órfão de pai. Delmiro pai morreu alvejado durante a Guerra do Paraguai, depois de se alistar no Exército brasileiro. Com a notícia, a mãe, uma pernambucana de batismo, o levou para o Recife, onde ela sobreviveu como empregada doméstica e da venda de bolos e doces. Dez anos depois, o menino viveu seu pior momento, tornando-se também órfão pelo lado materno.
Delmiro Gouveia faleceu em Pedra, Alagoas, em 10 de outubro de 1917. 
Ele foi um dos pioneiros da industrialização do país, e do aproveitamento do seu potencial hidroelétrico, tendo construído a primeira usina hidroelétrica do Brasil.



Nasceu na Fazenda Boa Vista, no município cearense de Ipu, sendo filho natural do cearense Delmiro Porfírio de Farias e da pernambucana Leonila Flora da Cruz Gouveia. Sua família transferiu-se em 1868 para o estado de Pernambuco, onde se estabeleceu na cidade de Goiana, mudando-se para o Recife em 1872.

Com a morte de sua mãe teve que começar a trabalhar aos 15 anos de idade, em 1878, inicialmente como cobrador da Brazilian Street Railways Company no trem urbano, denominado maxambomba. Posteriormente chegou a Chefe da Estação de Caxangá, no Recife. Foi despachante em armazém de algodão.


Em 1883 foi ao interior de Pernambuco, interessado no comércio de peles de cabras e de ovelhas, que passou a negociar, tendo obtido grande sucesso. Em 1886 estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, por comissão, para o imigrante suéco Herman Theodor Lundgren (Casas Pernambucanas) e para outras empresas especilizadas nesse comércio, como a Levy & Cia. Trabalhava também por conta própria. Em 1896 fundou a empresa Delmiro Gouveia & Cia e passou a alijar seus concorrentes do mercado, empregando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Lampião nasceu para o cangaço, padre Cícero para ser “santo” e Delmiro Gouveia para o trabalho. Embora menos popular, o último personagem dessa trindade consagrada pelos nordestinos era tão poderoso que fez do próprio padim Ciço garoto-propaganda de seus produtos e teve o famoso cangaceiro no seu quadro de empregados. Quer mais?



Ele saiu da miséria absoluta para disputar com os ingleses o domínio do mercado de linhas de costura e fios de malha na América Latina, fez do couro de bode o que havia de mais chique na moda de Nova York um século antes de os brasileiros pronunciarem a palavra “fashion” e fundou o mercado que é reconhecido como o primeiro shopping center do Brasil. Seu nome era trabalho, ele fez a transição do coronelismo rural para a burguesia industrializada no Nordeste, mas ainda escandalizou a sociedade do início do século passado ao raptar e casar com uma lolita de 16 aninhos, filha de uma grande autoridade da República.

Recife - Mercado Coelho Cintra - Mercado do Derby (funcionou onde hoje fica o quartel-general da Polícia Militar. Foi inaugurado em 1898. Era uma espécie de precursor dos atuais shoppings.) Crédito da foto

Diferentemente de Cícero e Lampião, sua morte é um mistério até hoje. Quem matou Delmiro? Os concorrentes, os coronéis da oligarquia, algum pai insatisfeito com sua fama de conquistador de ninfetas? Ninguém sabe.



Principais realizações

Em 1899, inspirado pela Feira Internacional de Chicago de 1893, inaugurou no Recife o Derby, um moderno centro comercial e de lazer, que pode ser considerado o primeiro shopping center do Brasil. Esse empreendimento foi um grande sucesso e motivo de orgulho para o Recife, e chegou a atrair multidões estimadas em mais de 8 mil pessoas, até que foi deliberadamente incendiado em 2 de janeiro de 1900 pela polícia de Pernambuco, por orientação do Conselheiro Rosa e Silva, que era feroz inimigo político de Delmiro, e a mando do então governador Sigismundo Gonçalves, fiel rocista.

O incêndio, as dívidas com os investimentos – tanto no shopping quanto em uma usina de açúcar – e a recessão econômica imposta pela gestão Campos Sales praticamente puseram abaixo o império do self-made man do sertão. Para completar, o infortúnio no amor. Boêmio e colecionador de amantes – a lenda recifense reza que ele chegou a uma dezena fixa ao mesmo tempo –, destruiu o casamento com Anunciada nesse mesmo momento em que experimentava a decadência do patrimônio. Para completar a desgraça, Rosa e Silva ainda mandou prendê-lo, acusado de tocar fogo no próprio mercado.
Foi solto dias depois, graças a um habeas-corpus.


Após o incêndio, ateado por razões políticas no Derby, e também em virtude de ter-se apaixonado por, e depois raptado, uma filha natural de 16 anos do então governador de Pernambuco, seu arqui-inimigo político, Delmiro concluiu que sua vida corria perigo no Recife e transferiu-se, em 1903, para Pedra, em Alagoas, uma povoação perdida no coração do sertão, mas de localização estratégica para seu comércio, na Microrregião Alagoana do Sertão do São Francisco, fazendo fronteira com Pernambuco, Sergipe e Bahia, e hoje denominada Delmiro Gouveia em sua homenagem. Delmiro comprou uma fazenda em Pedra, às margens da Ferrovia Paulo Afonso, onde centralizou seu lucrativo comércio de peles e construiu currais, açude, sua residência, e prédios para abrigar um curtume.

Planejando construir ali uma fábrica de linhas de costura - que até então eram importadas da Inglaterra, as conhecidas Linhas Corrente, que monopolizavam o mercado brasileiro - e apelando para ideais nacionalistas, nativistas e cívicos então em voga, conseguiu do governo de Alagoas concessões que incluiam o direito à posse de terras devolutas, isenção de impostos para a futura fábrica, e permisssão para captar energia da cachoeira de Paulo Afonso, além de recursos governamentais para ajudar na construção de 520 quilometros de estradas ligando Pedra a outras localidades. A partir de 1912 iniciou a construção da fábrica de linhas e da Vila Operária da Pedra, com mais de 200 casas de alvenaria.  Em 26 de janeiro de 1913 inaugurou a primeira hidroelétrica do Brasil com potência de 1.500 HP na queda de Angiquinho. Em 1914 iniciou as atividades da nova fábrica sob a razão social Companhia Agro Fabril Mercantil, produzindo as linhas com nome comercial "Estrela" para o Brasil, e "Barrilejo" para o resto da América Latina. Com preços muito abaixo das "Linhas Corrente", produzidas na Inglaterra pela Machine Cotton, que até então monopolizava o mercado de linhas de costura em toda a América Latina, logo dominou o mercado brasileiro, e amplas fatias dos mercados latino americanos.

O sucesso da empresa - que em 1916 já produzia mais de 500.000 carretéis de linha por dia - chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, Delmiro Gouveia entrou em conflito com vários coronéis da região, o que provavelmente, segundo a maioria dos historiadores, ocasionou seu misterioso assassinato à bala. Outros historiadores - apoiados no conceito de Direito Romano qui prodest? - a que isto serviu? a quem isto aproveitou? - incluem a Machine Cottton no rol dos suspeitos. Seus herdeiros, não resistindo às pressões da Machine Cotton, venderam a fábrica à empresa inglesa, detentora na América Latina da marca "Linhas Corrente", que mandou destruir as máquinas, demolir os prédios, e lançar os maquinários e escombros no rio São Francisco, livrando-se assim de uma incômoda concorrência.



Como em Macondo, a cidade fantástica de Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, Delmiro assustou os matutos sertanejos com as primeiras pedras de gelo de que se tem notícia na região, depois de ligar o Nordeste na tomada ao inaugurar a primeira hidrelétrica no rio São Francisco, em 1913. O primeiro automóvel que andou por ali metendo medo em todo mundo também era seu. Inspirado em suas viagens aos Estados Unidos e à Europa, onde ia vender couro, foi um pioneiro de deixar qualquer self-made man sem fôlego: levou a jornada de oito horas para o Nordeste feudal, a primeira creche, um código de higiene, lições de ecologia, a proibição do uso de armas, as primeiras noções de irrigação... Tudo isso no meio da caatinga e do atraso do mundo que o cercava.


Frontispício da Companhia Agro Fabril Mercantil, produtora da linha Estrela, na Pedra, Alagoas. Foto Osael, Recife Crédito da foto

Mas o homem que levou a revolução industrial para o sertão estava com os dias contados. Às 21h do dia 10 de outubro de 1917, lia as notícias da guerra nos jornais, sob a lâmpada elétrica do alpendre da sua casa, quando foi alvejado por três tiros de rifle de pistoleiros. Não se sabe ao certo até hoje quem encomendou o crime. Os oligarcas incomodados com o poderio de Delmiro? Os concorrentes comerciais? “E o que se vê, em 1917, naquele tenebroso 10 de outubro, é nada menos que a morte do futuro pelas piores energias do passado”, diz o historiador Frederico Pernambucano de Mello, do Recife, um dos grandes estudiosos do assunto no país.

A ironia é que graças à luz elétrica, plantada ali por Delmiro, foi possível a emboscada noturna, o que não ocorria até então. O “rei dos sertões” morreu iluminado pela sua própria “invenção”.



Usina Agiquinho hoje Crédito da foto

Delmiro deu serviço até ao jovem Lampião

Antes de entrar para o cangaço, Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938), o Lampião, ganhava a vida trabalhando para Delmiro Gouveia. Sujeito pacato, incapaz de matar uma mosca, o jovem Virgulino, entre os 17 e os 19 anos, prestava serviços como almocreve, profissional que transportava em lombo de burro mercadorias pela caatinga afora. Conduzia grandes cargas de couro de bode da Bahia e Pernambuco para a fazenda Pedra, hoje município de Delmiro Gouveia, a 300 quilômetros de Maceió. Era um serviço duro, herdado de tradição familiar, que rendia por mês pouco dinheiro, algo em torno de dois salários mínimos de hoje, e um estrago na saúde. Mas a experiência como desbravador das veredas e quebradas do interior do Nordeste seria bastante útil tempos depois, já nos anos 20 do século passado. Virgulino deixou a fama de bom menino para virar cangaceiro, ramo de vida no qual fez fortuna, como comprova o historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor de Guerreiros do Sol, o principal livro sobre o cangaço no Brasil.Morto por pistoleiros em uma emboscada, no ano de 1917, Delmiro não viu seu ex-empregado construir fama e tornar-se um mito no sertão, o que seguramente condenaria. Na vila de Pedra, sob o seu comando, era proibido o uso de armas de fogo, mesmo que “inocentes” espingardas de chumbo para a caça de aves, ainda hoje muito comuns no sertão.



Monumento erguido no local de sua morte Crédito da foto

Cronologia


  • 1863 – Nasce Delmiro, no Distrito de Santo Izidio, que na epoca era Ipu, mas hoje e Pires Ferreira.
  • 1868 – Transferência para Pernambuco
  • 1883 – Compra e exportação de peles
  • 1886 – Ramo de couros
  • 1896 – Casa Delmiro Gouveia e Cia
  • 1898 – Construção do mercado modelo no Dérbi (Recife)
  • 1903 – Escolhe a vida da Pedra (280 km de Maceió, capital de Alagoas), atual Delmiro Gouveia.
  • 1910 – Aproveitamento da cachoeira de Paulo Afonso
  • 1912 – Cia Agro Fabril Mercantil e construção da Vila Operária Padrão
  • 1913 – Energia hidrelétrica da queda de Angiquinho, Cachoeira em Paulo Afonso.
  • 1914 – Fabrica Estrela de linhas para costura
  • 1917 – Morre assassinado aos 54 anos.



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Créditos: http://guiadoestudante.abril.com.br e Wikipédia

2 comentários:

  1. Leila adoro seu blog! Sempre que tenho um tempinho venho beber na sua fonte de cultura e história do Ceará.

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  2. Muito obrigada Charles, me sinto honrada
    com a sua visita e seu carinhoso comentário! :)

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